Ao longo do dia não havia nenhum sinal. Na metade da tarde ensolarada, porém, sombras plúmbeas despontaram a oeste, lá para os lados de Jaguara e mais acima um pouco. Avançaram devagar, trovões roncando, raios empalidecendo a amplidão cinzenta. À frente, nuvens altas, muito escuras; mais atrás, uma espessa camada esbranquiçada, prenunciando chuva.
O vento soprava sem piedade, sacudindo as copas das árvores, levantando a poeira das ruas, varrendo papeis e copos plásticos espalhados pelas calçadas. Nas janelas e nas quinas dos prédios a lufada até uivava, soturna. Durante o crepúsculo umas nuvens miúdas, baixas, azuladas, avançaram do leste, na direção contrária, desafiando a anunciada tempestade. Naquele momento, o céu assumia um fulgor de aço. O cenário lembrava filme impressionista.
Só que não choveu. Os clarões dos raios se amiudaram, trovões intensificaram a frequência, mas a aguardada tempestade mão caiu. Sobre a atmosfera feirense, as nuvens, empurradas pelo vento, deslocaram-se para o sudoeste, em demanda de Antônio Cardoso e Santo Estêvão. Quando a noite caiu, estrelas já reluziam, nas fendas entre as nuvens. O cenário impressionista feneceu.
As mídias digitais trouxeram muitos vídeos sobre chuvas Bahia afora desde janeiro. De Juazeiro a Vitória da Conquista – passando pelo entorno sertanejo da Feira de Santana – caíram copiosas tempestades. No litoral e no Recôncavo, então, nem se fala. Rios se encorparam, represas sangraram, tanques encheram e, nas cidades, houve torrentes e até alagamentos.
Mas, por aqui, nenhuma chuva digna de nota. Algumas garoas miúdas, uma ou outra chuva fraca, passageira. Nada capaz de encher os reservatórios, menos ainda de umedecer a terra para a lavoura. Vá lá que o calor é intenso, mas bem mais moderado que aquele do ano passado. Para quem labuta sobre a terra, porém, a escassez de chuvas frustra.
Fevereiro já vai avançando e, logo à frente, chega março e o dia 19, de São José. A ciência popular sinaliza que, para o ano ser bom, farto, é necessário que chova até lá. Ficarão as chuvas sobre a Feira de Santana para abril, que em anos anteriores molhavam os foliões na Micareta? Não se sabe.
Mas que é desolador atravessar o verão sem as tradicionais trovoadas, é...