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Wellington Freire

Trump: o Narcisismo como Política de Estado

Wellington Freire - 11 de Fevereiro de 2026 | 14h 32
Trump: o Narcisismo como Política de Estado
Foto: Myles Cullen - The White House

A analogia entre Donald Trump e o Kaiser Guilherme II da Alemanha, não é um recurso retórico fácil nem uma provocação superficial. Trata-se de um paralelo historicamente defensável, sustentado por uma mesma gramática psicológica do poder: a do líder narcisista, impulsivo e histriônico, que converte a política, interna e externa, em extensão de seus desequilíbrios emocionais. Ambos pertencem a uma tipologia recorrente da história: a do governante que não administra o Estado, mas reage ao mundo.

Guilherme II não governava; explodia. Trump tampouco governa; encena. O Kaiser alemão era dominado por vaidade crônica, necessidade obsessiva de afirmação e incapacidade estrutural de autocontenção. Sua política externa foi marcada por bravatas, discursos contraditórios e gestos agressivos improvisados, que refletiam menos interesses estratégicos do Reich do que o temperamento volátil do monarca. Trump reproduz esse padrão com notável fidelidade: ataques infantis a aliados, desprezo pelas alianças tradicionais, idolatria por autocratas e uso constante da ameaça como linguagem política primária.

A crise de Agadir, em 1911, oferece um exemplo quase clínico dessa lógica. O envio do navio de guerra Panther à costa marroquina não respondia a qualquer ameaça concreta a interesses alemães. Foi um gesto teatral, concebido para intimidar França e Reino Unido e, sobretudo, para alimentar a autoimagem de firmeza do Kaiser. Tratou-se menos de diplomacia e mais de encenação: um ato de força vazio, guiado pela emoção e pelo medo patológico de parecer fraco. O resultado foi previsível, isolamento diplomático, fortalecimento da Entente e a consolidação da imagem da Alemanha como potência instável e perigosa.

Trump opera sob lógica semelhante. Sua política externa não é orientada por cálculo racional, mas por impulsos de afirmação pessoal. A agressividade não é instrumento estratégico; é compensação psicológica. Como Guilherme II, Trump confunde respeito com temor, liderança com intimidação, previsibilidade com fraqueza. Em ambos, o mundo exterior funciona como espelho narcísico: parceiros devem submeter-se, adversários devem ser humilhados, e qualquer resistência é vivida como afronta pessoal.

No plano interno, o paralelo torna-se ainda mais inquietante. Guilherme II não aboliu formalmente as instituições do Reich, mas esvaziou-as politicamente, cercando-se de bajuladores e subordinando decisões de Estado a humores pessoais. Trump seguiu o mesmo roteiro: não rasgou a Constituição americana, mas corroeu sua substância ao desacreditar eleições, atacar sistematicamente a imprensa, instrumentalizar o Judiciário e estimular a deslegitimação do próprio processo democrático.

O traço decisivo aqui é psicológico: a incapacidade de aceitar limites. Guilherme II acreditava ser escolhido pela História; Trump acredita ser perseguido por ela. Um se via como imperador messiânico; o outro como salvador injustiçado. Ambos, porém, reagem da mesma forma quando contrariados: escalada, agressão, negação da realidade. O erro jamais é admitido; o recuo é vivido como humilhação intolerável.

O colapso do equilíbrio europeu anterior a 1914 não pode ser explicado apenas por estruturas geopolíticas: a personalidade de Guilherme II foi fator ativo de desestabilização. Da mesma forma, a atual corrosão da democracia americana não é apenas sistêmica. Ela tem rosto, voz e temperamento. O trumpismo não é um acidente, mas a manifestação política de um narcisismo autoritário que prospera em ambientes de polarização, ressentimento e espetáculo midiático.

Guilherme II terminou seus dias no exílio, irrelevante e amargurado, observando a ruína da ordem que ajudou a incendiar. Trump permanece como advertência histórica em tempo real: democracias não colapsam apenas por conspirações silenciosas, mas também sob os aplausos ruidosos de líderes emocionalmente descontrolados, que transformam o poder em palco e o Estado em extensão de seus distúrbios de personalidade.


  



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