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  • Feira de Santana, sexta, 27 de fevereiro de 2026

Wellington Freire

Deus começa onde cessa o movimento

26 de Fevereiro de 2026 | 09h 58
Deus começa onde cessa o movimento
Foto: Reprodução - Pinterest: Laura Allisson

Aqueles que chamamos de velhos um dia já foram novos em tudo. Eu já fui um vigoroso homem de 20 anos que vivia na expectativa de um triunfo iminente, da  ilusão de que trombetas douradas estavam prestes a soar anunciando a glória de vencer uma batalha entre lutadores impiedosos. Naqueles tempos findos, por volta de 1995, havia em Feira de Santana um círculo de estudantes das chamadas ciências ocultas, ou ocultismo. E eu me integrava a eles. Numa dessas reuniões com membros de uma das versões da Sociedade da Rosacruz, um dos presentes, já não é mais possível recordar quem, proferiu a sentença que ainda hoje me inquieta: Deus começa onde cessa o movimento.


Mais de 30 breves anos se passaram e eu continuo  a meditar sobre esse aforismo enquanto caminho pelo canteiro central da Getúlio Vargas em fevereiro de 2026. As árvores silenciosas, altivas e inertes, indiferentes à minha presença.  Olha para elas e me recordo de um trecho de um discurso religioso indiano antigo: aquieta-te, aquieta-te e saberás quem eu sou. Enquanto caminho percebo que as árvores não estão fora da história; estão fora da ansiedade histórica. Não competem com o tempo. Não buscam superá-lo. Apenas permanecem. E nessa permanência insinuam algo que a pressa moderna não tolera: a ideia de que a plenitude não se alcança por acréscimo, mas por recolhimento. 


Hoje a frase reaparece com outra densidade. A cidade move-se em todas as direções. Motores comprimem o ar, buzinas interrompem qualquer possibilidade de silêncio contínuo, motocicletas atravessam o espaço com a pressa característica de uma época que parece confundir velocidade com sentido. A modernidade urbana é, antes de tudo, uma metafísica do deslocamento. A modernidade transformou a velocidade em critério de verdade. No entanto, no centro desse fluxo, as árvores permanecem.Não participam da ansiedade geral. Não respondem ao ritmo dos semáforos. Permanecem verticais, silenciosas, indiferentes à pressa humana. Ali, no meio do tráfego, sustentam uma forma de presença que não se confunde com estagnação. São imóveis, mas não mortas; silenciosas, mas não vazias.

  Talvez o erro esteja em supor que movimento e vida sejam termos equivalentes. A história, que tanto me fascina, é um movimento. A guerra, que me fascina ainda mais,  é movimento concentrado. A política é a administração do movimento coletivo. Mas nada disso explica o fundamento do ser. Pelo contrário: o excesso de movimento pode ser apenas dispersão.

É nesse ponto que a minha intuição antiga encontra eco na metafísica de um filósofo que leio desde minha adolescência, o neoplatônico,  Plotino. Para ele, o Uno não é um objeto entre outros, mas sim o  princípio. Não se move porque é anterior à própria possibilidade do movimento. Todo movimento pressupõe carência: mover-se é tender a algo que ainda não se possui. O que é plenitude não se desloca, se irradia. A contemplação, nesse horizonte, não é inatividade. É a forma mais alta de atividade, porque é coincidência do ser consigo mesmo. Quando a alma contempla o belo, não vagueia, ela se recolhe. O belo não distrai, concentra. Ele opera como recordação de uma unidade perdida na multiplicidade do mundo sensível. Talvez por isso eu tenha me tornado um homem obcecado pela beleza.

Essa ideia altera profundamente o modo como compreendemos a beleza. Se o movimento é sinal de carência, a beleza é sinal de presença. Em Plotino, o belo não é mera proporção exterior, nem harmonia formal apenas. Ele é o brilho do Uno nas coisas. Quando algo nos parece belo, não é porque adicionamos a ele um juízo subjetivo, mas porque reconhecemos nele uma unidade que resiste à dispersão. O belo é a vitória silenciosa da forma sobre o caos.

A contemplação do belo, portanto, não é passatempo estético. É exercício ontológico. Quando a alma contempla verdadeiramente, ela cessa de se espalhar pelos objetos e recolhe-se. O olhar que antes corria, comparando, desejando, avaliando, suspende sua ansiedade. A contemplação autêntica não acumula; simplifica. Ela reduz o ruído interior. Por isso o belo pacifica.

A modernidade ensinou-nos a consumir imagens, mas não a contemplá-las. Vemos muito, mas raramente permanecemos. O fluxo contínuo de estímulos cria uma forma de movimento interior permanente: a atenção fragmentada. Nesse estado, o belo perde sua função unificadora e torna-se apenas mais um item na sucessão. Mas a contemplação exige duração. Exige que o olhar não fuja.

Plotino afirmava que a alma se torna semelhante ao que contempla. Eis o ponto decisivo: contemplar o belo é ordenar-se interiormente. Não se trata de admirar uma forma exterior, mas de permitir que a unidade que ali se manifesta reorganize o nosso próprio interior. A contemplação é um retorno. Não é projeção para fora; é recondução ao centro.

Assim, talvez Deus não comece onde o movimento físico cessa, mas onde cessa a dispersão ontológica. Onde o ser deixa de projetar-se indefinidamente para fora, para a conquista, para a acumulação, para a vitória, e retorna ao eixo que o sustenta. A cidade continua a mover-se. O trânsito não se converte. A história não suspende sua marcha. Mas, no interior desse turbilhão, há algo que não participa da aceleração geral. Não se trata de fuga do mundo, nem de nostalgia de uma idade imóvel. Trata-se de reconhecer que todo movimento só é inteligível porque há um ponto fixo a partir do qual ele pode ser medido.

Talvez a tarefa não seja parar o mundo. Seja encontrar, no interior do movimento inevitável, o ponto imóvel que o sustenta. Onde cessa a dispersão, começa o fundamento. E é ali,  não na velocidade, não na vitória, não na expansão,  que o nome de Deus pode ser pronunciado sem ruído. Mas sem um centro, tudo isso não é progresso  é vertigem.

No coração da modernidade acelerada, a contemplação torna-se ato metafísico de resistência. Não contra a cidade, não contra a história, mas contra a dispersão que nos fragmenta.




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