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Wellington Freire

Teologia da Destruição: uma leitura da Páscoa

Wellington Freire - 05 de Abril de 2026 | 12h 39
Teologia da Destruição: uma leitura da Páscoa
Foto: Reprodução

A primeira Páscoa não foi apenas celebrada; pode ser lida, também, como executada. A formulação é deliberadamente deslocada. Lida à luz de categorias modernas de análise, em particular aquelas oriundas da teoria da guerra, a cena fundadora de Israel revela uma estrutura que não se esgota na linguagem da libertação e da promessa. Há, no episódio da décima praga, uma racionalidade de ação que, sem anular sua dimensão teológica, permite descrevê-lo como uma intervenção seletiva, orientada não pela devastação indiscriminada, mas por um princípio de desorganização da ordem adversária.

A morte dos primogênitos, nesse sentido, ultrapassa a ideia de punição. Em sociedades do Antigo Oriente Próximo, o primogênito não é apenas o primeiro filho: ele concentra funções de continuidade, patrimonial, política, cultual. Atingi-lo equivale a comprometer a reprodução da estrutura social. O gesto, portanto, não incide sobre indivíduos isolados, mas sobre o eixo de transmissão da ordem egípcia. Se quisermos empregar uma analogia controlada, trata-se menos de um ato de destruição massiva do que de um golpe dirigido à capacidade de permanência do inimigo enquanto sistema.

É nesse ponto que a narrativa bíblica revela uma dimensão frequentemente atenuada pelas leituras devocionais. A operação, se aceitarmos provisoriamente esse vocabulário, é seletiva. O sangue nos umbrais das portas não se reduz a símbolo de fé; ele funciona como marcador. Um sinal de distinção que estabelece, de maneira inequívoca, uma fronteira: onde há sangue, suspende-se a ação; onde não há, ela se cumpre. A salvação, portanto, não é indistinta. Ela é delimitada, codificada, inscrita em um regime de visibilidade. A noite da Páscoa pode, assim, ser compreendida não apenas como momento de redenção, mas como um instante de reconhecimento diferencial, de identificação e exclusão.

Essa leitura, contudo, exige cautela. Não se trata de reduzir o episódio a uma lógica puramente estratégica, nem de projetar sobre o texto antigo uma racionalidade que lhe é externa. A força da narrativa reside precisamente na tensão entre registros: o teológico, o ritual, o político. Ainda assim, é difícil ignorar que, no relato, não há mediação humana direta. Não há exército israelita, não há batalha, não há confronto visível. A ação é atribuída à própria divindade. Deus não apenas ordena; Ele executa. Nesse gesto, a distância entre decisão e ação se dissolve, e a soberania divina se manifesta como capacidade de intervir de modo absoluto, seletivo e irrecorrível.

É nesse cruzamento que se torna possível falar, com as devidas reservas, de uma forma de violência sacralizada. Não como desvio, mas como elemento constitutivo da fundação. Israel não emerge simplesmente apesar da violência; emerge, em parte, através dela. A distinção entre viver e morrer, naquela noite, não é aleatória, mas regulada por um critério ritual que funciona como princípio de pertencimento. Estar dentro ou fora não é apenas questão de fé interior, mas de inscrição visível em um sistema de proteção que implica, necessariamente, uma linha de exclusão.

Tal formulação não elimina outras camadas de sentido, sobretudo aquelas que a tradição posterior desenvolverá, reinterpretando o episódio como paradigma de libertação. Mas ela recoloca em primeiro plano um dado incômodo: a articulação, no próprio texto, entre transcendência, poder e capacidade de destruição. A Páscoa não é apenas um ato de salvação; ela é também uma demonstração de força. E, como toda demonstração de força, ela comunica algo, não apenas aos que dela participam, mas também aos que a sofrem.

Talvez seja por isso que essa noite permanece como memória estruturante. Não apenas como celebração, mas como tensão. Nela se entrelaçam libertação e ruptura, eleição e exclusão, proteção e morte. A tradição, ao longo dos séculos, buscou, legitimamente, acentuar um desses polos. Mas o texto, em sua forma mais antiga, preserva a coexistência de ambos.

É precisamente nessa coexistência que reside sua força  e sua dificuldade. Pois ela nos confronta com uma estrutura recorrente na história das fundações humanas: a de que a constituição de uma ordem, religiosa ou política, raramente se dá sem um momento inaugural em que a distinção entre quem vive e quem morre é traçada de modo absoluto. No relato bíblico, esse momento não é ocultado. Ele é inscrito no próprio ato divino. E é nesse ponto, entre revelação e violência, entre sentido e perturbação, que a Páscoa continua a interpelar.



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