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Wellington Freire

O Mito da Precisão: o que o resgate do piloto americano no Irã não mostra

06 de Abril de 2026 | 06h 31
O Mito da Precisão: o que o resgate do piloto americano no Irã não mostra

O resgate do piloto americano abatido no Irã, conduzido com o provável emprego de unidades como os Navy SEALs, os Green Berets e o 160th SOAR, oferece, à primeira vista, a imagem perfeita da guerra contemporânea: precisa, rápida, tecnicamente impecável e, sobretudo, cirúrgica. Trata-se de uma operação que parece confirmar a promessa de um conflito conduzido com bisturi, não com martelo; com inteligência e elite, não com massa e desgaste.Essa imagem, contudo, é uma construção e, como toda construção estratégica, profundamente enganosa.

A guerra de elite possui uma estética própria: ela é invisível, noturna, silenciosa, frequentemente narrada a posteriori como um sucesso técnico incontestável. Helicópteros que cruzam o espaço inimigo a baixa altitude, comandos altamente treinados que operam em sincronia quase mecânica, inteligência em tempo real fornecida por satélites e agências como a CIA. Tudo nela sugere controle. Tudo nela sugere domínio. Tudo nela sugere, sobretudo, limpeza. Mas essa “limpeza” não é uma característica da guerra, é uma forma de narrá-la.

O conceito de “cirurgia militar” funciona, antes de tudo, como um dispositivo retórico. Ele transforma operações de altíssimo risco em episódios quase clínicos, nos quais a violência aparece como precisa, necessária e limitada. O que desaparece dessa narrativa é precisamente aquilo que define a guerra em seu núcleo: o atrito, a incerteza, a vulnerabilidade radical do corpo humano em território hostil. O piloto abatido, escondido por mais de 24 horas em terreno montanhoso, armado apenas com uma pistola, não é a imagem da guerra limpa  é a sua negação mais brutal. Ele encarna, de forma quase arcaica, a permanência da guerra como experiência de exposição, medo e sobrevivência.

A operação de resgate, por mais bem-sucedida que tenha sido, não elimina essa realidade, apenas a recobre com uma camada de narrativa heroica. A guerra contemporânea não se tornou limpa; ela se tornou seletivamente invisível. Invisível para aqueles que a observam à distância, mediada por comunicados oficiais e imagens filtradas. Invisível na medida em que seus custos humanos são deslocados para zonas periféricas, geográficas e discursivas. Invisível, sobretudo, porque suas formas mais brutais continuam a existir fora do enquadramento midiático dominante. É nesse ponto que o contraste com a guerra na Ucrânia se impõe com força analítica incontornável.

Se o resgate no Irã representa a guerra como bisturi, o conflito ucraniano representa a guerra como martelo. Ali, o que se observa não é a precisão cirúrgica, mas a saturação sistemática: artilharia pesada, trincheiras, desgaste prolongado, mobilização massiva de recursos humanos e materiais. Trata-se de um retorno, em muitos aspectos, à lógica industrial da guerra, uma lógica que o Ocidente, após décadas de operações especiais e guerras de baixa intensidade, julgava parcialmente superada.

Os drones, frequentemente apresentados como símbolo máximo da modernidade militar, ilustram bem essa duplicidade. No teatro iraniano, eles operam como extensões da vigilância e da precisão, instrumentos de localização, apoio e, eventualmente, eliminação seletiva. Na Ucrânia, ao contrário, os drones são empregados em massa, como munição descartável, integrados a uma lógica de saturação e desgaste contínuo. O mesmo artefato tecnológico, portanto, serve a paradigmas radicalmente distintos.

Mais do que uma diferença de meios, trata-se de uma diferença de temporalidade. Operações como a de busca e resgate em combate (CSAR) são, por definição, instantâneas: exigem resposta imediata, concentração extrema de uso força e resolução rápida. Já a guerra ucraniana se desenrola no tempo longo, semanas, meses, anos, em que o objetivo não é a precisão, mas a exaustão do inimigo. O que emerge desse contraste não é a substituição de um modelo por outro, mas a coexistência de ambos. O século XXI não escolheu entre o bisturi e o martelo. Ele opera com os dois, simultaneamente, e muitas vezes no mesmo teatro estratégico.

Essa coexistência revela uma verdade incômoda: a guerra contemporânea não evolui de forma linear em direção à precisão e à racionalização. Ela se fragmenta. Em alguns contextos, assume a forma de operações quase invisíveis, conduzidas por elites altamente especializadas. Em outros, retorna à sua forma mais crua e massiva, marcada pelo atrito, pelo desgaste e pela repetição. A ilusão está em tomar uma dessas formas, geralmente a mais tecnologicamente sofisticada, como representativa do todo. O resgate no Irã impressiona, e com razão. Mas ele não define a guerra contemporânea. Ele a oculta.

Porque, no fundo, a guerra permanece aquilo que sempre foi: não um ato de precisão absoluta, mas um campo de incerteza radical, onde mesmo as operações mais sofisticadas dependem, em última instância, da sobrevivência de um homem sozinho, escondido na paisagem, tentando não ser encontrado.




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