Mais de três décadas de minha existência foram dedicadas ao estudo de História Militar. Quando iniciei minhas primeiras leituras eu era um moço ainda, hoje já tenho fios de cabelos brancos na barba. Baseado nisso posso afirmar, temor de exagero: houve um tempo em que a guerra, por mais brutal que fosse, reconhecia limites. Não por humanidade, mas por estrutura simbólica. Havia dias interditos, momentos suspensos, instantes em que o sagrado se interpunha entre o homem e a destruição. A trégua pascal, nas tradições do cristianismo oriental, não era apenas um gesto político: era uma tentativa de lembrar que a história não se esgota na violência.
O que vemos agora, porém, é outra coisa. Os ataques que se seguem imediatamente à Páscoa Ortodoxa não representam apenas a quebra de um cessar-fogo na Guerra da Ucrânia. Representam algo mais profundo: o colapso da própria ideia de interrupção. A guerra contemporânea não admite pausas. Ela não reconhece calendários. Ela não se curva diante do sagrado.
Se, na Antiguidade, era possível suspender o combate em nome dos deuses, hoje nem mesmo a memória de Deus parece suficiente para conter o fluxo da destruição. A guerra tornou-se contínua, autônoma, quase independente da vontade humana. Mas há algo ainda mais radical nessa transformação. A guerra atual é, sobretudo, uma guerra sem rosto. Já não é o duelo entre homens que se reconhecem no campo de batalha, como aquele que estrutura a Ilíada. Não há mais Aquiles diante de Heitor. Não há troca de palavras, nem promessa de glória, nem sequer a visibilidade da coragem.
O que há são máquinas. Drones que cruzam o céu na escuridão, invisíveis, silenciosos, operados à distância por mãos que não veem diretamente aquilo que destroem. A morte chega sem anúncio, sem confronto, sem presença. Essa ausência de rosto não é um detalhe técnico, é uma mutação antropológica. Porque o rosto é aquilo que, desde sempre, impõe limite à violência. O rosto do outro interpela, constrange, humaniza. Ao eliminá-lo, a guerra elimina também o último obstáculo simbólico à aniquilação.
E, no entanto, essa guerra sem rosto não é desordenada. Pelo contrário: ela é rigorosamente estruturada. O seu princípio não é mais a conquista territorial clássica, mas algo mais abstrato e, talvez, mais inquietante a ,negação do espaço.Vivemos a era da “negação de área”. Não se trata apenas de ocupar cidades ou fronteiras, mas de tornar o espaço inutilizável para o inimigo. Céus saturados por drones, sistemas antiaéreos que transformam o ar em zona proibida, infraestruturas constantemente ameaçadas: tudo converge para a construção de uma nova forma de muralha.
Mas estas muralhas já não são feitas de pedra, como as de Babilônia ou Nínive. São invisíveis, móveis, tecnológicas. Não cercam apenas cidades, cercam possibilidades. Impedem o movimento, bloqueiam o uso, interditam o cotidiano.Se as antigas muralhas protegiam um interior contra um exterior hostil, as novas muralhas dissolvem essa distinção. Não há mais dentro seguro. Não há mais fora claramente delimitado. O espaço inteiro torna-se campo de risco.
É nesse ponto que os três elementos, a Páscoa violada, a guerra sem rosto e a negação de área, convergem. Todos eles indicam a mesma transformação: a passagem de uma guerra ainda inserida em limites simbólicos para uma guerra que se tornou sistema.
Um sistema contínuo, técnico, autorreferente.A violação do tempo sagrado revela que já não há interrupção possível. A eliminação do rosto revela que já não há mediação humana suficiente. E a negação do espaço revela que já não há território estável onde a vida possa simplesmente acontecer.
O resultado é uma forma de guerra que não precisa mais de grandes ofensivas decisivas. Ela se sustenta pela repetição, pela saturação, pelo desgaste. Não busca apenas vencer o inimigo, busca tornar o mundo impraticável para ele. E, nesse novo cenário, até mesmo a Páscoa, símbolo máximo de passagem, de renascimento, de vitória sobre a morte, já não interrompe o ciclo da destruição. Pelo contrário: é absorvida por ele, atravessada por ele, quase anulada por ele.
Para mim é como se a guerra, agora, não apenas matasse homens, mas começasse, lentamente, a apagar o próprio sentido de ressurgir.