Em viagens que tive oportunidade de fazer, colecionei evidências de que o modelo de convivência que adotamos no Brasil beira o selvagem. Embora sejamos detentores de belezas exemplares — felicidades como um acarajé com pimenta — e uma alegria que faz falta a um mundo marejado de solidão e incompletudes, vivemos sob um estigma desumano.
Certa madrugada, em Buenos Aires, vi um caminhão descarregar
fardos de água e bebidas na porta de um bar e partir; não havia ninguém para
conferir, pois a confiança era o recibo. Em Veneza, o barco-ônibus prescinde de
cobradores, entregue à integridade de cada passageiro, embora, em um grupo de
doze brasileiros, ao menos cinco não tenham pagado.
Em Barcelona, ao sair de um hotel, na praça onde ocorria uma
festa de aniversário da cidade, de madrugada, rumo ao aeroporto, observei
jovens mulheres retirando suas bicicletas e partindo sozinhas. Ao questionar o
porteiro sobre o perigo, ele sequer compreendeu minha dúvida; para ele, o risco
era um conceito abstrato.
Poderia estender-me em exemplos, mas seriam redundantes. O
ponto é que, enquanto lá fora a leveza do ser parece sustentável, aqui,
habitamos um estado de alerta ininterrupto. Nosso corpo permanece em uma
prontidão constante para a luta ou a fuga. Escondemos dinheiro na roupa,
ocultamos o celular na rua e, agora, tememos usá-lo até dentro dos carros.
Cada transação — da compra de um automóvel à escolha de um
pedaço de queijo na padaria — exige uma atenção paranoica (sim, já vi padarias
mudarem a data de validade do produto!). Vivemos sob uma desconfiança
sistemática, que corrói negócios e contratos; tudo pode ser o prelúdio de um
golpe que fere o bolso e a autoestima.
Reféns da insegurança, cercamo-nos de condomínios fechados,
firmas reconhecidas e testemunhas. Já nem menciono a segurança de ir e vir, perdida
em um cenário primitivo e omisso, dominado por facções. Existimos cercados de
muros, cercas elétricas, seguranças e medos. Perdemos a rua e a infância,
molestados por uma violência e uma lassidão moral que não dão férias. Somos
aqueles que andam sempre apressados, nas ruas.
Nossa ruína existencial é cotidiana, pois o preço da
sobrevivência tem sido a eterna vigília. Como dizia o poeta T. S. Eliot, a
humanidade não suporta excesso de realidade. Mergulhados em adrenalina e
banhados em cortisol, nosso organismo padece.
As lesões dessa hipervigilância manifestam-se na insatisfação
crônica, nas lesões celulares do estresse, insônia, na solidão da desconfiança
e na gestão de danos que limita nossas possibilidades. A internalização desse
medo é a erva daninha que espalha seu veneno em nossa existência.
O crescimento dos índices de suicídio, da depressão e das patologias mentais é o resultado amargo da falta de feriados na alma. A esperança, contudo, reside na consciência de que mudar esse destino depende, fundamentalmente, de nós.