Tribuna Feirense

  • Facebook
  • Twiiter
  • (75) 9707-1234
  • Feira de Santana, sexta, 17 de abril de 2026

César Oliveira

O preço da sobrevivência não pode ser a eterna vigilância

16 de Abril de 2026 | 17h 13
O preço da sobrevivência não pode ser a eterna vigilância
Foto: Reprodução

Em viagens que tive oportunidade de fazer, colecionei evidências de que o modelo de convivência que adotamos no Brasil beira o selvagem. Embora sejamos detentores de belezas exemplares — felicidades como um acarajé com pimenta — e uma alegria que faz falta a um mundo marejado de solidão e incompletudes, vivemos sob um estigma desumano.

Certa madrugada, em Buenos Aires, vi um caminhão descarregar fardos de água e bebidas na porta de um bar e partir; não havia ninguém para conferir, pois a confiança era o recibo. Em Veneza, o barco-ônibus prescinde de cobradores, entregue à integridade de cada passageiro, embora, em um grupo de doze brasileiros, ao menos cinco não tenham pagado.

Em Barcelona, ao sair de um hotel, na praça onde ocorria uma festa de aniversário da cidade, de madrugada, rumo ao aeroporto, observei jovens mulheres retirando suas bicicletas e partindo sozinhas. Ao questionar o porteiro sobre o perigo, ele sequer compreendeu minha dúvida; para ele, o risco era um conceito abstrato.

Poderia estender-me em exemplos, mas seriam redundantes. O ponto é que, enquanto lá fora a leveza do ser parece sustentável, aqui, habitamos um estado de alerta ininterrupto. Nosso corpo permanece em uma prontidão constante para a luta ou a fuga. Escondemos dinheiro na roupa, ocultamos o celular na rua e, agora, tememos usá-lo até dentro dos carros.

Cada transação — da compra de um automóvel à escolha de um pedaço de queijo na padaria — exige uma atenção paranoica (sim, já vi padarias mudarem a data de validade do produto!). Vivemos sob uma desconfiança sistemática, que corrói negócios e contratos; tudo pode ser o prelúdio de um golpe que fere o bolso e a autoestima.

Reféns da insegurança, cercamo-nos de condomínios fechados, firmas reconhecidas e testemunhas. Já nem menciono a segurança de ir e vir, perdida em um cenário primitivo e omisso, dominado por facções. Existimos cercados de muros, cercas elétricas, seguranças e medos. Perdemos a rua e a infância, molestados por uma violência e uma lassidão moral que não dão férias. Somos aqueles que andam sempre apressados, nas ruas.

Nossa ruína existencial é cotidiana, pois o preço da sobrevivência tem sido a eterna vigília. Como dizia o poeta T. S. Eliot, a humanidade não suporta excesso de realidade. Mergulhados em adrenalina e banhados em cortisol, nosso organismo padece.

As lesões dessa hipervigilância manifestam-se na insatisfação crônica, nas lesões celulares do estresse, insônia, na solidão da desconfiança e na gestão de danos que limita nossas possibilidades. A internalização desse medo é a erva daninha que espalha seu veneno em nossa existência.

O crescimento dos índices de suicídio, da depressão e das patologias mentais é o resultado amargo da falta de feriados na alma. A esperança, contudo, reside na consciência de que mudar esse destino depende, fundamentalmente, de nós.



César Oliveira LEIA TAMBÉM

Charge da Semana

Charge do Borega

As mais lidas hoje