Alguém imaginaria que o Governo do Estado investiu mais na Micareta de Feira de Santana, em 2025, do que o próprio Município, realizador da festa? Pois é, parece esquisito, mas este é o quadro dos números divulgados pelas gestões e que talvez tenha passado despercebido da mídia, há quase um ano, quando aconteceu o evento. Estou recorrendo aos arquivos para contextualizar o fato principal destas mal traçadas, que apresentarei adiante. Nós feirenses estamos acostumados a cobrar do Estado que colabore de maneira generosa, financeiramente, com a maior festa popular do interior da Bahia, quiçá de todo o interior nordestino.
Uma semana antes do evento, em 25 de abril, o portal Ba.gov.br, através da Secretaria de Cultura da Bahia, divulgou que o apoio do Estado à edição 2025 "do mais tradicional carnaval fora de época do país" seria de R$ 26 milhões, sendo R$ 7,5 milhões para a contratação de artistas musicais e o desfile de atrações blocos afro, escolas de samba e afoxés. O restante seria destinado à infraestrutura, saúde e segurança. Teria, assim, superado os R$ 20 milhões aplicados pela Prefeitura, na cobertura das diversas despesas - logística, segurança, saúde, cultura e atrações.
O Município, no entanto, confirmou, à época, um repasse de R$ 3 milhões, pelo Estado. Se realmente o governo baiano investiu o total de R$ 7,5 milhões, os outros R$ 4,5 milhões foram para o Ouro Negro? As contradições e disparidades enveredam também sobre as perspectivas de receita da Micareta de 2025, nas projeções feitas pelas secretarias de Desenvolvimento Econômico do Estado e do Município à época.
Ao portal "De Olho na Cidade", o titular da pasta estadual, deputado Ângelo Almeida, disse que a estimativa seria de R$ 80 milhões circulando na economia local, nos quatro dias de festa. Enquanto isso, o órgão local anunciou um incremento de R$ 30 milhões. Ninguém sabe, no final das contas, quem esteve mais perto de acertar.
Vamos, agora, ao fato mais recente, objetivo do nosso texto de hoje. Este início de semana, um jornalista do Rio de Janeiro levantou uma polêmica que fugiu aos olhos de todos nós, da imprensa baiana, embora estejamos muito mais próximos dos assuntos regionais.
Segundo Lauro Jardim, o Governo do Estado investiu R$ 6 milhões na "compra de uma cota de patrocínio", junto à empresa denominada "Mais Ações Integradas", responsável pela montagem do camarote "Bahia, um estado de alegria", no circuito Osmar, Campo Grande, durante o Carnaval de Salvador, em fevereiro.
A informação sobre o pagamento aparece, segundo ele, em publicação do Diário Oficial, somente neste meado de abril, a título de "reconhecimento de débito", através do órgão estadual Sufotur (Superintendência de Fomento ao Turismo). A notícia espalhou-se por todo o país, com uma repercussão nada favorável ao Governo. É, de fato, impactante, este número. Seis milhões de reais em um camarote para recepcionar autoridades e personalidades parece ser um exagero.
Para que se tenha uma ideia, a Prefeitura de Feira investiu cerca de R$ 9 milhões na contratação de todos os artistas musicais que se apresentaram na Micareta do ano passado. Ou seja: o Estado aplicou apenas em seu camarote oficial no carnaval soteropolitano o correspondente a 60% de tudo o que o Município investiu em atrações para a sua maior festa popular.
Há aspectos interessantes em torno do assunto. Primeiro, me causou estranheza que nenhum dos órgãos de comunicação que destacaram o assunto tenha escrito algo como "buscamos contato com o Governo da Bahia e com a Sufotur, enviamos mensagens, mas não houve retorno". Ou seja, os veículos, aparentemente, não deram oportunidade ao "outro lado" de se explicar.
Conversei com dois profissionais da comunicação do Governo, pela manhã. Informei que estaria escrevendo algo sobre este tema e que gostaria de saber as razões do investimento, como a gestão analisa o tom crítico da repercussão, enfim, ouvir as explicações, quem sabe, convincentes. Não compreendo jornalismo de outra forma. Esperei até este momento, nada aconteceu.
Autoridades ou gestores de órgãos estatais não devem silenciar-se, diante de notícias negativas. Ignorar informações verídicas, acompanhadas de críticas, pode ser decisivo na formação de opinião pública contrária e dano ainda maior à imagem. Qual será a explicação da Sufotur?