Faz muito tempo que, neste espaço, discute-se a escassa arborização da Feira de Santana. Mundo afora, a questão ambiental está incorporada às discussões sobre políticas públicas, por conta das mudanças climáticas e de seus impactos sobre a vida humana. Como boa parte das populações reside em áreas urbanas, é inevitável que a gestão das cidades passe pelo desenvolvimento de políticas que tornem mais confortável a vida nestes ambientes.
Muitas cidades – sobretudo as metrópoles – vem desenvolvendo iniciativas que ajudam a mitigar os efeitos adversos do aquecimento global. É o caso da implantação de corredores verdes, que envolvem faixas contínuas de vegetação planejadas para interligar fragmentos ecológicos. Aplica-se, sobretudo, a regiões de cidades que não dispõem de áreas disponíveis para parques e jardins. Como Feira de Santana, por exemplo.
O Censo 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) traz um diagnóstico nada alentador sobre a presença do verde em áreas públicas da Feira de Santana. Nada menos que 57,4% das residências não dispõem de árvores no entorno; 19,9% contam com, no máximo, duas árvores; 8,6% de três ou quatro árvores e só 13,8% dispõem do privilégio de cinco ou mais árvores.
Considerar os números agregados do município, porém, envolve um problema. Diversa, a cidade abriga múltiplas realidades, o que se observa também em relação à distribuição do verde. Metodologicamente, então, é bom aplicar algum recorte para entender melhor a realidade.
O bairro Capuchinhos, por exemplo, tradicionalmente habitado por gente abastada, enfrenta situação menos dramática. Lá, 30% da população reside onde há cinco ou mais árvores no entorno; 17,8% dispõem de três ou quatro árvores; vivem sem árvores (23%) ou com no máximo duas (28,3%) uma minoria em relação à média da população feirense.
Obviamente, não se pretende exaurir aqui o assunto, menos ainda chegar a conclusões científicas. Mas tome-se como exemplo outro bairro associado à elite local. O cenário no bairro Santa Mônica é menos vistoso, mas mais confortável que a média da cidade. Sem árvores (40,6%) e com apenas uma (25,1%) representam bem menos que o conjunto da cidade. E, claro, supera a média do município as residências com cinco ou mais árvores (18,3%) ou entre três e quatro (15,9%).
E nos bairros em que reside a população mais pobre? Nas Baraúnas, nada menos que 79% das residências não dispõe de nenhuma árvore no entorno; 19,4% contam com, no máximo, duas; só 1,36% contam com três ou quatro árvores e nenhuma residência tem cinco ou mais árvores no entorno. Não é à toa que a população local pena com as ondas de calor.
Bem perto das Baraúnas localiza-se a Queimadinha. Por lá, a realidade não é muito diferente: 69,4% dos imóveis não contam com árvores nas cercanias; em 18,7% há até duas; 5,5% dispõem de três ou quatro árvores e 6,7% são privilegiados, com cinco ou mais árvores. Ironicamente, no passado, os dois bairros possuíam vegetação abundante por abrigarem lagoas.
As informações acima constituem um recorte e não tem validade científica, claro. Mas sinalizam para o que diversos pesquisadores apontam em seus trabalhos: o aquecimento global não atinge as pessoas de maneira uniforme, penalizando sobretudo os mais pobres, que residem em áreas em que o verde é mais escasso.
Aqui ou ali, em datas específicas, anuncia-se o plantio de algumas dezenas de árvores em canteiros vazios, normalmente em avenidas de grande circulação. Estas iniciativas isoladas, porém, não significam que o município disponha de uma política ambiental, sequer de um projeto robusto de arborização.