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  • Feira de Santana, quarta, 10 de junho de 2026

Wellington Freire

A Moeda Invisível das Potências

10 de Junho de 2026 | 12h 39
A Moeda Invisível das Potências

Há riquezas que não aparecem nos balanços econômicos. Não podem ser medidas em toneladas de ouro, barris de petróleo ou reservas cambiais. Ainda assim, sustentam impérios, derrubam governos e influenciam guerras. Uma delas é a credibilidade.

Poucos conceitos são tão importantes para a política internacional e, ao mesmo tempo, tão difíceis de enxergar. Ela não ocupa território. Não produz alimento. Não abastece exércitos. Mas quando desaparece, até as maiores potências descobrem que sua força possui limites.

Os acontecimentos recentes no Oriente Médio oferecem um exemplo revelador. Muito se discutiu sobre a capacidade militar do Irã, sobre os danos provocados pelos ataques e sobre os riscos de escalada regional. Mas talvez a questão central estivesse em outro lugar. Talvez o verdadeiro alvo da operação não fosse apenas Israel. Talvez fosse a preservação de algo mais abstrato: a credibilidade de Teerã perante seus aliados.

Durante anos, a liderança iraniana construiu uma rede de parceiros armados e movimentos políticos espalhados pela região. Hezbollah, milícias iraquianas, houthis e outros grupos não são apenas instrumentos de influência. Eles representam uma espécie de sistema de alianças informal que amplia o alcance estratégico da República Islâmica. Mas alianças não sobrevivem apenas pela convergência de interesses. Elas dependem de confiança. Um aliado precisa acreditar que não será abandonado quando a crise chegar.

Na Antiguidade, Tucídides já compreendia essa dinâmica. Ao narrar a Guerra do Peloponeso, ele mostrou que o poder de Atenas não dependia exclusivamente de seus navios ou de suas muralhas. Dependia da convicção de seus aliados de que Atenas continuaria sendo uma protetora confiável. Quando essa confiança começava a vacilar, a própria arquitetura do império era ameaçada.

A história está repleta de exemplos semelhantes. Roma construiu boa parte de sua expansão sobre uma complexa rede de aliados italianos. As legiões eram formidáveis, mas a credibilidade romana era igualmente importante. Os povos submetidos ou associados à República precisavam acreditar que Roma cumpriria suas promessas de proteção e puniria aqueles que desafiassem sua autoridade.

A força militar era visível. A credibilidade era invisível. Mas ambas eram indispensáveis. Essa lógica continua operando no mundo contemporâneo. Quando os Estados Unidos reafirmam seus compromissos com a OTAN, não estão apenas fazendo declarações diplomáticas. Estão preservando uma reputação construída ao longo de décadas. O valor estratégico do Artigo 5 não reside apenas na existência formal do tratado. Reside na crença de que Washington realmente cumprirá aquilo que prometeu.

Toda aliança repousa, em alguma medida, sobre um ato de fé. Por isso as potências frequentemente reagem a eventos que, à primeira vista, parecem periféricos ou desproporcionais. Muitas guerras não começam por causa da importância intrínseca de um território, mas pelo receio de que a inação seja interpretada como fraqueza. É uma lógica dura e frequentemente perigosa.

Em 1914, líderes europeus tomaram decisões que ajudaram a desencadear a Primeira Guerra Mundial porque temiam perder credibilidade perante aliados e adversários. Nenhuma potência queria ser vista como hesitante. Nenhuma queria transmitir a impressão de que seus compromissos eram negociáveis. O resultado foi uma catástrofe.

A credibilidade é uma moeda valiosa. Mas pode cobrar juros devastadores. Existe, contudo, uma ironia profunda nesse mecanismo. Quanto mais uma potência investe na manutenção de sua reputação, mais ela se torna prisioneira dela. O prestígio que fortalece também restringe. A promessa feita ontem transforma-se na obrigação de amanhã.

Talvez seja isso que torna a política internacional tão diferente da vida comum. Indivíduos podem se dar ao luxo de admitir dúvidas, rever posições ou reconhecer erros. Estados raramente possuem esse privilégio. Eles habitam um ambiente no qual cada gesto é observado, interpretado e arquivado por aliados e adversários. Uma ameaça não cumprida enfraquece. Uma promessa abandonada gera desconfiança. Um silêncio pode ser entendido como rendição.

Por trás dos arsenais, das bases militares e dos discursos oficiais, existe esse patrimônio invisível que as potências procuram preservar a qualquer custo. Não aparece nos mapas. Não surge nas fotografias dos campos de batalha. Não pode ser capturado por satélites.

Mas frequentemente decide o destino das guerras. Porque, no fim das contas, impérios não são sustentados apenas por exércitos. São sustentados pela crença, compartilhada por amigos e inimigos, de que suas palavras ainda possuem valor. E, no grande mercado da política internacional, poucas moedas são mais preciosas do que essa.






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