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  • Feira de Santana, sexta, 03 de julho de 2026

Wellington Freire

A guerra que começa antes da guerra

03 de Julho de 2026 | 10h 31
A guerra que começa antes da guerra
Crédito: fort.jor

Há um equívoco recorrente na maneira como imaginamos o início das guerras. A memória coletiva foi moldada por imagens de tanques cruzando fronteiras, bombardeios espetaculares ou declarações formais de hostilidade. Como se a guerra começasse apenas quando o primeiro disparo rompesse o silêncio. A História Militar, contudo, ensina outra coisa: as grandes guerras começam muito antes do primeiro tiro.

O recente relatório do Instituto Internacional de Estudos Estratégicos (IISS), segundo o qual a Rússia teria conduzido uma campanha sistemática de incursões com drones sobre instalações estratégicas da Europa, deve ser lido sob essa perspectiva. O aspecto mais interessante da notícia não está nos drones em si, mas na natureza de sua missão. Não se tratava, ao que tudo indica, de destruir alvos. Tratava-se de conhecê-los.

Há uma diferença decisiva entre atacar um inimigo e estudá-lo. O ataque busca produzir dano; o reconhecimento busca produzir conhecimento. E, desde a Antiguidade, conhecimento é uma das mais importantes formas de poder militar.

Nos exércitos de Alexandre, de Aníbal ou de César, a cavalaria frequentemente precedia o grosso das tropas. Sua função não era vencer batalhas, mas descobrir o terreno, medir distâncias, localizar obstáculos, avaliar a disposição do adversário e identificar seus pontos vulneráveis. O combate começava pela observação. Antes da força, vinha a inteligência.

Os drones desempenham hoje uma função análoga, mas com uma vantagem extraordinária: podem penetrar profundamente no território adversário sem expor soldados, sem provocar grandes repercussões diplomáticas e, muitas vezes, sem sequer oferecer um pretexto claro para uma resposta militar. São olhos voadores, persistentes e baratos.

Se o relatório estiver correto, a Rússia não estava apenas enviando pequenos aparelhos sobre bases aéreas, portos militares ou instalações nucleares. Estava realizando algo muito mais sofisticado: um mapeamento da reação ocidental. Quanto tempo leva para um radar detectar uma incursão? Quem toma a decisão de responder? A informação circula com rapidez entre as diferentes estruturas nacionais? Há coordenação entre governos e comandos militares? Em que circunstâncias um drone é simplesmente observado e em quais ele passa a ser considerado uma ameaça?

Cada voo torna-se um experimento. Cada incursão produz dados. Cada resposta, ou ausência dela, converte-se em informação estratégica. Esse talvez seja o aspecto mais inquietante da guerra contemporânea: ela já não depende exclusivamente da destruição. Muitas vezes, basta medir. A informação obtida hoje poderá definir a eficácia das operações de amanhã.

A guerra, nesse sentido, tornou-se cumulativa. Ela se constrói lentamente, por camadas sucessivas de conhecimento. Quando os mísseis finalmente são disparados, grande parte da batalha já foi travada no plano invisível da coleta de informações.

Essa transformação revela também uma mudança mais profunda na própria natureza do conflito. Durante séculos, reconhecimento e combate eram atividades distintas, separadas no tempo e no espaço. Hoje, essa fronteira praticamente desapareceu. Um simples drone que sobrevoa uma instalação militar já está produzindo efeitos estratégicos, ainda que não transporte qualquer explosivo.

Talvez estejamos presos a uma linguagem herdada do século XX, incapaz de descrever adequadamente as guerras do século XXI. Continuamos perguntando quando um conflito começa, como se houvesse um instante inaugural claramente identificável. Mas as novas formas de enfrentamento dissolvem essa certeza. Entre a paz e a guerra instala-se uma vasta zona cinzenta, onde espionagem, sabotagem, pressão econômica, ataques cibernéticos, campanhas de desinformação e operações de reconhecimento convivem sem que o mundo saiba exatamente como nomeá-las.

É possível, portanto, que estejamos formulando a pergunta errada. Talvez não devamos perguntar quando a próxima guerra começará. Talvez ela já tenha começado.

A História oferece um alerta constante: as batalhas decisivas raramente surpreendem aqueles que as prepararam durante anos. O verdadeiro espanto costuma atingir apenas quem confundiu ausência de tiros com ausência de guerra. Enquanto uns aguardam o estrondo dos canhões para reconhecer o início do conflito, outros já percorrem silenciosamente o campo de batalha, observando, medindo e aprendendo. E, na guerra, quem aprende primeiro costuma lutar em vantagem.

  • Nota: aos que desejam aprofundar o tema: KEEGAN, John. Inteligência na Guerra. São Paulo: Cia das Letras, 2006.




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