É com um progressivo sentimento de esvaziamento do ânimo que caminho pelas ruas do centro da cidade. Como um destroyer que serve de força de cobertura para o avanço seguro de um porta-aviões, posiciono-me à esquerda de minha mãe enquanto marchamos lentamente pela Marechal Deodoro. Aos setenta e três anos, ela continua aferrada a uma cultura alimentar que a obriga a frequentar o velho comércio popular. Eu apenas a acompanho. Os olhos voltados para o chão. Sem olhar vitrines, sem procurar rostos, sem qualquer curiosidade pelo movimento da cidade.
Minha mãe conhece aquelas vendedoras há muitos anos. Em quase todas as bancas interrompe a caminhada para trocar algumas palavras. Perguntam pelos filhos, comentam o preço do tomate, reclamam da saúde, riem de pequenas banalidades. Permaneço alguns passos atrás. As vozes chegam até mim como sons indistintos, desprovidos de sentido, como se eu estivesse ouvindo uma estação de rádio muito distante.
Demoro alguns minutos para perceber que todos aqueles diálogos orbitam em torno de um único acontecimento. A derrota da seleção brasileira na noite anterior. Foi então que uma estranha sensação tomou conta de mim. Era como caminhar por uma cidade no dia seguinte a uma batalha.
Nada havia acontecido ali. Nenhuma casa fora destruída. Nenhum jovem deixara de voltar para casa. Nenhuma mãe vestia luto. Ainda assim, pairava sobre aquelas conversas um discreto sentimento de perda, difícil de definir, mas facilmente reconhecível. Não era sofrimento. Tampouco simples frustração esportiva. Parecia antes a melancolia produzida pelo retorno de uma expedição fracassada.
As pessoas falavam da seleção como, em outros tempos, talvez comentassem o destino de um exército enviado para terras distantes. Enquanto seguia caminhando, compreendi que talvez o futebol seja muito mais do que um esporte. As Copas do Mundo constituem uma das últimas formas de guerra ritualizada entre nações.
Os ingredientes permanecem surpreendentemente semelhantes. Há bandeiras, hinos, uniformes, estratégias, comandantes, reconhecimento do terreno, disciplina coletiva, heróis inesperados e derrotas humilhantes. Durante noventa minutos, onze homens deixam de representar apenas a si mesmos. Tornam-se uma condensação simbólica de milhões de pessoas. Carregam sobre os ombros algo muito maior que uma camisa.
Naturalmente, há uma diferença decisiva. Ninguém morre. Ou melhor, quase tudo o que existia na guerra permanece, exceto aquilo que a tornava insuportável. O sangue desapareceu. Em seu lugar resta o suor.
Sempre me chamou atenção a forma como admiramos um jogador completamente exausto. Dizemos que "deixou tudo em campo". Há algo de profundamente heroico nessa expressão. O suor converte-se numa espécie de equivalente moral do sangue. Ele testemunha a disposição para o sacrifício, mas sem exigir o preço irreversível da morte.
Talvez por isso o futebol mobilize afetos tão intensos. Ele preserva a dramaturgia da guerra e elimina sua tragédia.
Enquanto caminhava pela Marechal Deodoro, ocorreu-me, porém, uma ideia ainda mais inquietante. Talvez não seja apenas o futebol que explique esse fenômeno. Talvez seja o próprio ser humano.
Desde tempos imemoriais, comunidades constroem sua identidade alternando vitórias e derrotas compartilhadas. Povos celebram conquistas, elaboram fracassos, contam histórias de glória e de humilhação. Essas experiências produzem uma memória comum. Fazem indivíduos dispersos sentirem-se parte de algo maior do que suas existências particulares.
Durante séculos, as guerras cumpriram esse papel. Eram elas que forneciam os heróis, os vencidos, os sobreviventes e as narrativas capazes de unir uma coletividade.
Hoje, felizmente, a maior parte dessas batalhas já não precisa acontecer. Mas a necessidade humana de experimentar, ainda que simbolicamente, a glória e a derrota talvez continue intacta. O estádio tornou-se um lugar onde uma nação pode vencer sem conquistar territórios e perder sem enterrar seus mortos.
Talvez seja essa a extraordinária invenção do futebol. Ele oferece aos povos uma guerra em que o único líquido autorizado a escorrer é o suor. E, ainda assim, basta uma derrota para que, na manhã seguinte, senhoras conversem nas calçadas com a mesma gravidade reservada, em outros tempos, às notícias vindas do front.
Foi essa melancolia discreta que encontrei caminhando ao lado de minha mãe. Não era exatamente a minha. Mas era suficientemente coletiva para que até eu pudesse atravessá-la.