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Wellington Freire

O funeral como ato de poder

Wellington Freire - 04 de Julho de 2026 | 09h 04
O funeral como ato de poder
Foto: Reprodução/Reuters

As cenas que vi em um canal de TV europeu me convenceram que há um equívoco recorrente em nossa compreensão dos funerais de grandes líderes políticos. Costumamos vê-los como cerimônias de despedida, expressão coletiva de dor ou homenagem à trajetória de um indivíduo. A História, porém, ensina que, quando o morto é um chefe de Estado, um fundador de regime ou um líder religioso de alcance nacional, o funeral deixa de pertencer à esfera privada. Ele se transforma em um acontecimento político. Mais do que lamentar uma ausência, procura afirmar uma permanência.

As cerimônias organizadas pelo Irã para o aiatolá Ali Khamenei ilustram, com clareza, essa lógica. O governo anuncia milhões de participantes; mobiliza o aparato estatal; fecha repartições públicas; reorganiza o trânsito; restringe o espaço aéreo; e transforma o cortejo em um evento de vários dias, que atravessa cidades, fronteiras e importantes centros religiosos do xiismo. Não se trata apenas de honrar um líder morto. Trata-se de comunicar uma mensagem aos vivos.

Todo grande funeral é uma linguagem do poder. Essa percepção acompanha a história das civilizações. Quando Alexandre, o Grande, morreu, na Babilônia, iniciou-se uma disputa feroz pela posse de seu corpo. Não era uma questão sentimental. Quem controlasse os restos mortais do conquistador reivindicaria, também, parte de sua legitimidade. O cadáver tornou-se objeto de geopolítica.

Roma compreendeu, igualmente, essa força simbólica. O funeral de Júlio César não apenas encerrou a vida de um ditador; ajudou a incendiar a cidade e acelerou o colapso da República. A morte, cuidadosamente ritualizada, produziu efeitos políticos que o homem vivo, talvez, já não conseguisse alcançar.

Os séculos apenas sofisticaram esse mecanismo. O traslado das cinzas de Napoleão para Paris, em 1840, foi concebido para restaurar parte do prestígio nacional francês. O corpo de Lênin, preservado em um mausoléu, converteu-se em instrumento permanente de legitimação do Estado soviético. O funeral de Gamal Abdel Nasser reuniu multidões, que transformaram sua despedida em manifestação de identidade árabe. Em 1989, milhões acompanharam o cortejo do aiatolá Ruhollah Khomeini, num espetáculo que reafirmava a continuidade da Revolução Islâmica, mesmo diante da perda de seu fundador.

Não é casual que regimes fortemente centralizados atribuam enorme importância a esses rituais. A morte de um líder produz, inevitavelmente, uma pergunta silenciosa: o poder sobreviverá ao homem que o encarnava? O funeral procura responder antes mesmo que a dúvida se espalhe.

Assistindo as cenas do funeral de Khamenei, percebi que nada ali era improvisado. O percurso do cortejo, a ordem das autoridades, os símbolos religiosos, as bandeiras, a cobertura da imprensa, a presença de chefes de Estado estrangeiros, a coreografia das multidões e até o tempo concedido para que cada pessoa passe diante do caixão obedecem a uma lógica cuidadosamente construída. O objetivo não é, apenas, organizar uma cerimônia. É organizar uma narrativa.

A multidão desempenha papel central nessa dramaturgia política. Sua presença comunica que o Estado continua capaz de mobilizar a sociedade; seu silêncio transmite solenidade; sua emoção sugere unidade nacional. Independentemente da espontaneidade ou do grau de participação induzida, a imagem produzida é sempre dirigida a diferentes públicos: à população interna, aos adversários políticos e à comunidade internacional.

Nesse sentido, funerais de Estado são menos voltados para o passado do que para o futuro. Eles não procuram apenas recordar quem morreu. Procuram estabilizar aquilo que permanece. Enquanto a biografia do líder se encerra, a biografia do regime precisa continuar.

É por isso que a História Militar e a história política raramente tratam esses eventos como simples cerimônias fúnebres. O desaparecimento de um governante sempre representa um momento de vulnerabilidade. Exatamente por isso, o poder procura converter a perda em demonstração de continuidade. O ritual substitui a incerteza por ordem; a emoção coletiva procura neutralizar especulações sobre sucessão, crise ou fragmentação.

Talvez, essa seja a verdadeira função dos grandes funerais políticos. Eles não existem apenas para sepultar um homem. Existem para impedir que, junto com ele, seja enterrada a autoridade do Estado. Porque os regimes compreendem uma verdade antiga: líderes morrem; instituições sobrevivem somente quando conseguem convencer a sociedade de que a morte de um indivíduo não significa a morte do poder. É essa convicção, cuidadosamente encenada diante do mundo, que faz do funeral uma das mais sofisticadas formas de linguagem política já produzidas pela História.



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