Não me alinho entre os que defendem o fechamento do Supremo Tribunal Federal ( STF). De modo geral os políticos que o fazem carregam em si uma vocação totalitária, e um desejo de personificação ilimitada do Estado, o que nunca resulta em boa coisa. A Suprema Corte e a imprensa são os únicos instrumentos disponíveis para o cidadão para resistir a essas tentações que ainda vicejam com varejeiras em democracias frágeis e não consolidadas. O enfraquecimento das instituições de forma mais sistemática vem desde a era PT e segue na era Bolsonaro, sob os mesmos instintos primitivos.
Eu me alinho, entretanto, entre os que criticam
ferozmente o STF por sua lendária omissão no combate a corrupção, a politização
oportunista da prisão em segunda instância, as décadas passadas sem condenar
políticos com processos na Corte, a transformação do Regimento Interno em um
terceiro código de leis ao lado da Constituição e do CPP, e a atual tentativa
de tutelar a Sociedade.
Não estivesse o STF tão desgastado por sua
instrumentalização política( inventando o impeachment sem perda de direito
político, como fez com Dilma; a proteção a Cesari Batistti, o terrorista; os
rápidos habeas-corpus para criminosos como André do Rap, ou Jacob Barata-e que
Gilmar disse não estar impedido de julgar apesar de ser padrinho de casamento
da filha ), além das seguidas reportagens sobre as complicadas relações entre
os escritórios de familiares de ministros e a Suprema Corte; faculdade, de ministro, que recebe doação de
empresas com demandas no STF; anulação das penas de Lula, ele não estaria sob o
ataque que está.
Estes e outros inaceitáveis casos tornaram a
Instituição um repositório da desconfiança, desrespeito, e até raiva, do
cidadão, que paga o caríssimo Tribunal! O STF se esfarela moralmente e isso
permite que aventureiros desejem que um cabo e um jipe resolvam a questão.
Não podemos defender o fechamento do STF. É plantar o ovo da serpente. Não
podemos, no entanto, nos calar diante dos seus desmandos, nem deixar de exigir
que o Congresso encontre novas maneiras de nomeação de ministros, de regulação
dos seus mandatos, de mecanismos de controle de sua atuação. Como está, não é
possível permanecer.
Há mais mistérios entre a terra e o ar do que imaginamos. Pelo menos, no
Aeroporto de Feira. Vivemos de adiamentos, explicações sem consistência
para sua inviabilidade crônica. Na última delas, mais uma vez, o governador Rui
Costa disse que aeroportos a menos de 100 quilômetros não se viabilizam. O jornal
Tribuna Feirense, em 2018, publicou uma ampla matéria sobre o assunto.
A reportagem revelou que um estudo da Secretaria de Aviação Civil
(SAC), feito ainda no governo Dilma, deixou claro que transformar a aviação em
um transporte de massa era uma política de governo e que nenhum município
deveria estar a mais de 100 km de um terminal aéreo. Feira, é claro, é
referência para um mínimo de 2 milhões de habitantes. Afinal, 60% das mais de 500 indústrias aqui
instaladas tinham interesse em usar o aeroporto, como afirmou o Diretor do CIS,
em entrevista à época.
O mesmo estudo do governo mostrou que o município teria potencial
para 266 mil passageiros por ano. Os
dados oficiais atestam a viabilidade do
aeroporto, já que o mesmo estudo sugere que 60 mil passageiros anuais já seriam
suficientes para garantir os voos necessários. E não falou-se sequer sobre cargas,
outro quesito sobre o qual a Tribuna não
conseguiu obter dados, para avaliarmos o volume de cargas embarcadas em
Salvador, originários da nossa região. Faz parte dos mistérios insondáveis
desse terminal aéreo.
Quanto ao argumento dos 100 quilômetros, ele é sobejamente desmentido
pela realidade. Há, pelo menos, sete aeroportos no Brasil, com essa distância.
Para usar um bem próximo, citamos o terminal de Campina Grande, cidade que tem
uma população estimada em 403 mil habitantes e Produto Interno Bruto (PIB) de
R$ 7,5milhões (Feira tem PIB de R$12 milhões),com a mesma distância da capital
de seu estado que o nosso de Salvador e que movimentou 149 mil passageiros em
2017, 422 mil quilos de carga e faturamento de R$1,4 milhão só em serviços.
Para a implantação do IFR -pouso guiado por instrumentos- em
Feira, há, também, a necessidade de
ampliação das margens da pista. O Governo do Estado já fez o decreto de
desapropriação da área situada no entorno do equipamento. Falta, apenas, a
indenização dos proprietários. Não há informações sobre o investimento que
seria necessário para isso.
As matérias da Tribuna, publicadas em 2018, desmentem o argumento sobre
a distância e a viabilidade dos aeroportos. A verdade é que ninguém conhece os
termos da Concessão;o acordo de exclusividade da Azul (ela tem significativa
redução do ICMS do querosene, para manter voos regionais); o motivo do cancelamento do voo com maior taxa
de ocupação (98%) que a Azul operava (Feira - Campinas), de forma arrogante e
sem a menor satisfação aos feirenses, à época. Tampouco sabemos o porquê da retirada dos
equipamentos do terminal. Recentemente a Concessionária entrou com processo
contra o Estado para realizar obras pactuadas.
Precisamos saber qual seria o investimento em indenizações e em
ILS; qual o potencial de cargas; se há novos estudos de demanda de passageiros;
e se há outras empresas interessadas, além da Azul, que parece não gostar de
Feira. Essas questões têm sido tratadas de forma nebulosa, sem respeito ao
cidadão e ao eleitor de nossa Região Metropolitana (é bom lembrar),gerando
especulações desnecessárias. Não sabemos se há pressões da Concessionária do
Aeroporto de Salvador e de todos os que se beneficiam com ausência de
alternativas; se há problemas econômicos decorrentes das limitações das
construções no entorno; enfim, as verdadeiras razões que impedem que esse modal
seja implantado e cumpra a política traçada pelo governo federal.
A desculpa da viabilidade fere violentamente nosso senso, pois
sabemos que ninguém dos municípios localizados acima de Feira irá escolher ir a
Salvador para embarcar, tendo Feira no meio do caminho. O governo disse que
ouviu especialistas, então por respeito a nossa população deveria liberar uma
cópia do estudo para a imprensa, informar quem foi a empresa que fez o estudo
para que pudéssemos entrevista-los e esclarecer o assunto, parando de
subestimar a nossa inteligência.
O Ministério da Saúde - o mais importante para os
brasileiros, nesse momento - é um pardieiro. O mau cheiro que exala de suas
entranhas vem de sabermos que a compra de vacinas ficou, aparentemente, na mão
de um grupo que "mistura estelionatários, corruptos, ignorantes e
malucos", como disse o Senador Alessandro Vieira, e fiscais que não
fiscalizam nada, além de servidores que são acusados de praticar extorsão.
É um roteiro conhecido, mas que sempre estarrece, ao ser
revelado, e não consegue ser desmentido pelo governo, que se limita à
inutilidade de dizer que é narrativa, sem que ofereça nada que a negue.
A entrega do Ministério da Saúde à influência do Centrão não
poderia resultar em algo diferente disso, afinal, a folha corrida de seus
componentes é histórica. O que se lamenta é que isso ocorra durante a pandemia
e com vacinas - o salvo conduto para os brasileiros que estão vivos.
A tragédia começa a colocar uma mancha perigosa sobre os
militares, já que uma série deles parece muito próxima dos picaretas já
identificados.
Cabe ainda, outra preocupação: considerando o monstruoso
volume de compras que o MS faz, será que não há outros contratos aberrantes,
outras compras fraudulentas acontecendo por lá?
A sociedade brasileira que paga imposto, que vive sua derrama
fiscal, que está exposta precisa exigir que o Ministério da Saúde seja
devassado e passado a limpo. Custe o que custar.
O senador Otto Alencar, o vice-governador João Leão ou
qualquer outro político interessado em obter o apoio do PT para disputar a
sucessão de Rui Costa no Palácio de Ondina, em 2022, deve "tirar o cavalo
da chuva". A preferência dos petistas é um velho conhecido do partido e
ex-governador por dois mandatos: o atual senador Jaques Wagner.
A pista foi dada, recentemente, por ninguém menos que o deputado federal Zé Neto, em entrevista ao Acorda Cidade. Era para falar sobre a candidatura dele próprio à reeleição, mas, no meio da conversa, deixou escapar a seguinte frase: "espero que possamos, com Wagner e Lula, fazer aquele trio que sempre ajudou muito a nossa cidade e que quer continuar ajudando".
Com o governo do estado na mão e o forte nome de Wagner - que tem um bom "recall" -, seria difícil o partido abrir mão de tentar manter sua hegemonia. Como diz antigo e verdadeiro ditado popular, para bom entender, meia palavra basta. O "trio" dos seus sonhos, ao qual se refere, é formado por ele próprio em Brasília, Wagner governador e Lula presidente.
Apenas para lembrar, há poucos políticos, na Bahia, mais
próximos de Rui e Wagner do que o deputado feirense. Ele foi nada menos que
líder do Governo de ambos, na Assembleia Legislativa. Como se diz no jargão da
política, é da "cozinha" dos dois ex-governadores.
Muito provavelmente, nessa altura do campeonato, está tudo
muito bem combinado, restando apenas um anúncio oficial mais adiante e, mais
difícil, o jogo de acomodação de cometas que arrodeiam a constelação.
O governo Bolsonaro chega ao seu momento mais difícil,
exatamente porque a parceria com o Centrão começa a cobrar o seu preço, com as
suspeitas de corrupção na compra da vacina Covaxin, isso após o ex-Ministro
Ricardo Salles ser afastado, ter o passaporte retido pelo STF, e estar ameaçado
de prisão.
Agora, Bolsonaro é suspeito de prevaricação, porque o
funcionário Ricardo Miranda e seu irmão, deputado Luís Miranda, foram
à residência oficial do presidente e relataram a pressão no
Ministério da Saúde em favor da Covaxin, uma agilidade não vista em outras
vacinas.
Os irmãos entregaram a ele uma nota fiscal com
discordâncias graves em relação ao contrato. A empresa que receberia
o dinheiro era uma offshore
com sede em paraíso fiscal e patrimônio de US$ 1 mil. O valor era de US$ 45
milhões e o pagamento seria, inacreditavelmente, antecipado. As vacinas tinham
prazo de validade prestes a vencer e havia discordância entre as doses, no
contrato e na nota fiscal.
Embora a vacina sequer tivesse estudo de fase 3
e não fosse reconhecida pelas agências do Brasil e da Índia,
custaria mais cara do que a da Pfizer. Além disso, a representante
no Brasil, a Precisa, é suspeita de superfaturamento e de má
qualidade de testes Covid e sócia da Global, processada por receber
pagamento e não entregar os medicamentos para o
Ministério da Saúde. É uma combinação de terror.
Os irmãos Miranda levaram a informação a Bolsonaro, que
prometeu botar a Polícia Federal (PF) na pista, mas nada fez e, agora, diz que
a culpa foi do general goleiro Pazuello, trágico ex-ministro da Saúde.
Segundo o deputado Miranda - de tétrica folha corrida -,
Bolsonaro citou o líder Ricardo Barros como culpado, sendo que ele é apontado
como autor da nomeação da funcionária responsável pela gestão do contrato no MS
e de liderar mudanças na legislação - inclusive, ameaçando a Anvisa - que
favorecesse a importação.
O negócio tem aparência de corrupção, jeito de corrupção,
forma de corrupção, mesmo que interrompida antes da conclusão do pagamento. A
CPI não poderá deixar de aprofundar a investigação, até esclarecer o papel de
cada um.
Enquanto isso, Bolsonaro continua seus ataques à imprensa, retirando máscara de criança, construindo uma base militante entre policiais militares, com um pacote de benesses e com pensamento fixo na reeleição - mais uma promessa que deixa de cumprir -, mas sem conseguir retomar o controle do seu governo, infiltrado pelo Centrão.