Em levantamento feito para essa coluna, na população internada no Hospital Geral Clériston Andrade (HGCA), em três momentos diferentes (8/3, 30/3 e 12/06), é possível notar que o percentual da população de idosos entre 70-80 anos acometidos pela Covid-19 caiu de 22,4% para 10%. A população de 60-70 anos caiu de 42% para 11,6%. Em compensação, a população de 50-60 anos aumentou seu percentual de 18% para 35%.
Nota-se, também, o aumento de pacientes na faixa de 30-40
anos, que saiu de 2% para 8,3%. Quando dividimos em três faixas etárias, vemos
que esse perfil de mudança se mantém.
Nos pacientes abaixo de 40 anos, houve um aumento percentual
de 4% para 13,2%; na população entre 40-60 anos, houve crescimento de 38% para
55%; já na população acima de 60 anos, houve redução de 44,7% para 31,5%.
A mudança no perfil de pacientes sugere que a vacinação pode
estar protegendo a população idosa do surgimento de casos que demandem
internação e levando o vírus a atingir a população mais jovem e que ainda não
tem vacinação completa.
|
IDADE |
08/3 |
30/3 |
12/06 |
08/3 |
30/3 |
12/06 |
|
>90a |
01 |
00 |
2 |
02% |
0% |
3,3% |
|
80-90 |
01 |
05 |
4 |
02% |
8,60% |
6,6% |
|
70-80 |
06 |
13 |
6 |
12% |
22,4% |
10% |
|
60-70 |
21 |
08 |
7 |
42% |
13,7% |
11,6% |
|
50-60 |
09 |
12 |
21 |
18% |
20,6% |
35% |
|
40-50 |
10 |
11 |
12 |
20% |
18,9% |
20% |
|
30-40 |
01 |
07 |
5 |
02% |
12,0% |
8,3% |
|
20-30 |
01 |
02 |
2 |
02% |
3,40% |
3,3% |
|
10-20 |
1 |
1,6% |
|
IDADE |
08/03 |
30/03 |
12/06 |
|
< 40 ANOS |
04% |
15,4% |
13,2% |
|
40-60 ANOS |
38% |
39,7% |
55,0 % |
|
>60 ANOS |
58% |
44,7% |
31,5% |
O mundo precisa rever a estratégia de enfrentamento à
Covid, trocando as ações pontuais por uma estratégia de longo prazo. Não
podemos continuar sendo enganados por nossas esperanças de uma solução rápida e
objetiva.
No começo da pandemia, escrevi, incansavelmente, sobre
testagem maciça, para distanciamento controlado, mas foi chover no molhado.
Agora, temos essa tragédia indescritível. E, por mais que soe doloroso,
precisamos entender as lições que o vírus - vindo da China - nos dá. Ferozmente,
ele venceu todas as previsões: é um país tropical, a densidade urbana é baixa,
a imunidade de rebanho será atingida!
O vírus nos desmentiu e castigou nossa soberba de forma letal
e implacável. Nós é que não entendemos os alertas. Os eugenistas, que defendiam
a imunidade de rebanho natural - imortalizada na célebre, e canalha, frase do "morra
quem tiver de morrer" -, foram desmoralizados por Manaus e Suécia, que
demonstraram não ser possível.
Defendemos remédios ineficazes e, como em um ensaio sobre a
cegueira, nos dividimos, desestimulando o distanciamento e o uso de máscara e
vacinas, de forma criminosa. Tudo o que o vírus podia desejar.
Todos os prazos de controle foram vencidos. E emendamos uma
segunda e, depois, uma terceira onda. E quando todos apostavam no seu
crepúsculo, ele levantou-se na Índia, de forma feroz e aterradora.
A cada surto incontrolado, o vírus lança novas cepas, mais
resistentes, mais contagiosas e com mais chances de escapes das vacinas. Apesar
de nossa expertise, que já reduziu a mortalidade em UTI em 20%, tivemos 200 mil
mortos em quatro meses, enquanto, em 2020, foram necessários nove meses para
atingirmos o mesmo número. Acho que o vírus está sendo bastante loquaz no que
está nos dizendo.
Considerando que o mundo tem 8 bilhões de pessoas e que
apenas 1 bilhão está vacinado, dá para termos uma ideia do tempo necessário
para que a imunidade de rebanho pela vacina seja atingida e o risco que
corremos por essa assimetria vacinal. Novas ondas, por outras cepas, não
são improváveis.
É por isso que acho que precisamos vencer essa ilusão do
curto prazo e modificarmos nossa consciência sobre a pandemia. Ela irá durar,
será longa. E o tempo de seu controle é uma incerteza. Assim, temos de pensar
em uma guerra arrastada e fazermos um planejamento de longo prazo - eu diria
que até o fim de 2022, ao menos -, para não ficarmos criando falsas
expectativas e fazendo remendos, todos os dias.
Precisamos preparar uma estratégia longa e global: de saúde
pública; de suporte de insumos, com fábricas de material, fábricas de vacinas
independentes; de planejamento de apoio à economia e aos desassistidos; de
mobilidade; dentre outras; mas diferente do que estamos fazendo, com tudo
focado no curto prazo, como se ela fosse acabar amanhã.
Como disse Churchill, isso não é fim, não é nem mesmo o
começo do fim, mas apenas o fim do começo.
O país segue criando os elementos de uma tempestade perfeita, como se não houvesse amanhã. Com baixa vacinação, dependente da produção do Butantan; um progressivo número de vítimas da pandemia originada na China, que já alcança mais de 370 mil mortos e a expectativa de uma terceira onda da Covid-19; a expansão da fome; e o aumento do preço dos alimentos que penaliza os mais pobres, o brasileiro vai sendo levado a exaustão física, econômica e mental.
Como se isso não fosse o bastante temos a anulação das condenações de Lula- segundo o STF por competência de foro -que traz ebulição ao caldeirão político. Embora Gilmar Mendes- o grande responsável pelo processo de anulação- tenha dito que isso não significa absolvição, mas apenas mudança de juiz pelo qual será julgado, fica uma nítida sensação de impunidade na sociedade visto que toda vastidão de crimes de corrupção cometidos pelo PT parecem, agora, uma mera perseguição.
Ao lado disso, temos a instalação de uma necessária CPI da Covid, no Congresso, para investigar a conduta bizarra de Bolsonaro e governadores, mas vários de seus componentes são réus no STF, ou delatados, com vasta figuração no noticiário policial, mas que nem assim são impedidos de investigarem atos de corrupção de outros políticos- inclusive filhos- como se honestidade não fosse condição si ne qua non para assumir um cargo desse tipo. E temos a volta do grupo chamado Centrão, ao poder, com terríveis folhas corridas biográficas.
Todos esses atos, essa sensação devastadora de impunidade, de ameaça permanente à vida por uma pandemia que parece não ter fim, e de fragmentação da sociedade, produz uma profunda desesperança em todos. Foi com essa sensação de brasileiro, como todos, que fui a zona rural de Coração de Maria, hoje de manhã.
A chuva ainda é pouca, embora sinalize uma renovação da vegetação aqui e ali, o capim que começa a brotar, refazendo os pastos, mas o que me chamou atenção foi a quantidade de terra preparada, arada, sendo finalizada pelos moradores, que acreditam que a chuva virá, que as roças precisam ser plantadas, que o milho e o feijão precisam estar garantidos, para os dias futuros. É a fé inabalavel na continuidade da vida; a esperança, apesar das incertezas.
É isso, a vida continuará apesar da tempestade perfeita. Precisamos, apenas, nos prepararmos para, dessa vez, fazermos a colheita certa.