Longe de mim querer permanecer rezando ladainhas solitárias. Apenas, acuado, choro minhas pitangas como redenção. Não posso deixar de observar, no entanto, a mudança dos discursos em homenagem à mulher. Afinal elas compõem meu imaginário masculino. Sem que eu precise me envergonhar por isto ou me sentir culpado, como querem fazer com todo heterossexual que não abdicou deste direito hormonal, ainda que não seja um bruto e conjugue desde sempre lirismo e admiração pelos caminhos da mulher.
De consagração do viver, amadas, destino e razão, feiticeiras da composição masculina, os discursos, nesta data, mudaram para poderosas, guerreiras, lutadoras, empoderadas, competidoras, proprietárias corporais, trabalhadoras - como se já não o fossem, desde sempre - e atemporalmente (aliás, a palavra empoderamento, em qualquer sentido, me desperta os instintos mais primitivos). Enfim, é um marcante e justo discurso, sem dúvida, mas quase nenhuma manifestação de sentimento.
Não raro li homenagens, até de adolescentes, que não passavam de ataques aos homens com acusações generalizadas de sexismo – e não estou falando de violência ou força -, assédio e similares. Mas me espantei mesmo foi com uma frase que li em algum lugar que dizia que ao invés de rosas ela preferia receber respeito, como se fossem excludentes. Como se o espaço ocupado pelo que é direito de todo humano não pudesse compartilhar o lugar com o ameno, o afetivo, o carinhoso, o delicado. Como se a alma fosse apenas campo de doutrina e não precisasse de aulas vagas.
Evidente que nestes tempos de internet, leituras rápidas e péssima interpretação de texto, há o sério risco de qualquer um ser rotulado pelo que não é, e o que escrevemos ser entendido como uma recusa ou incompreensão da extraordinária luta e trajetória que as mulheres têm cumprido no mundo.
Não é, portanto, nada disso, deixo aviso prévio, que o mundo anda assim eivado de não me toques. É que eu, derradeiro sentimental, espécie condenada à extinção na atual máquina de moer almas, alegorias e figurações, senti falta deste olhar, também, sobre elas.
Noutros tempos, de tolerância e liberdade eu ousaria dizer, metaforicamente, que fui uma mulher a quem negaram flores, mas, hoje, não digo isso sem seguro de vida.
Então, registrado o salvo conduto em três vias, disponibilizado o Aurélio para interpretações, eu queria apenas dizer às que ousarem ouvir, ainda que escondidas, que toda vez que me senti glorificado foi quando estive diante de uma mulher que de tranças, vestido, ou verso, me disse que eu era seu domínio, me fazendo perder o rumo, sem perder o respeito.
E mandei flores...
Parabéns!
Repete-se há alguns anos a notícia que alunos, professores, vigilantes, foram vítimas de assaltos no campus da UEFS. Professores e alunos referem medo, inclusive nos períodos diurnos. Nada mais natural, afinal, aquele é um território autorizado apenas para bandidos, não para a Polícia. Em um recente episódio de ônibus incendiado havia mais pavor na Reitoria pela permanência policial no local do que pelo atentado nunca esclarecido.
A Universidade continua refém de uma pauta esquerdista anacrônica e inconcebível de ser mantida em um país com violência endêmica e uma cidade com taxa de 48 mortes por 100000 habitantes. A Universidade brasileira tornou-se um território livre do policiamento como forma de preservar a liberdade do pensamento e manifestação política nos tempos da ditadura. Vivemos em uma democracia desde 1985 e com um governo de esquerda há mais de 12 e, no entanto, continuamos fingindo que a Universidade com mais de 10 mil alunos, funcionários, professores, pode ser um território livre para o tráfico e outros criminosos.
Em São Paulo, a USP, após estupros, mortes de alunos em assaltos, resolveu permitir a entrada da Polícia, ainda que com adaptações, no campus. Custou a permanência de um estupro na memória de suas alunas e famílias enlutadas pela perda de seus filhos.
A Universidade deve ser preservada como espaço de liberdade política não de insegurança e concessão a bandidagem geral. Aliás, na crise, custaria menos Vigilância com mais segurança.
A homologação da delação premiada do ex-líder do governo no Senado, Delcídio Amaral, é uma bomba demolidora atirada implacavelmente no partido do governo, o PT, e em seu Ministro da Educação, Eduardo Mercadante, que após as gravações mostradas não tem a menor condição de continuar no cargo. Aliás, de continuar solto, visto que tentou obstruir a Justiça.
A denúncia aponta o que é óbvio: Lula era o líder de todo processo. Até os paralepípedos sabem que seria impossível montar dois esquemas gigantes, como o mensalão e o petrolão, sem seu aval, afinal, ele era a liderança incontestável do PT. As suas intervenções no superfaturamento de fazendas desapropriadas pelo INCRA são desavergonhadas demais.
A delação aponta, também, pela milésima vez, Aécio Neves, como beneficiário de doações, não sendo mais possível adiar a abertura de processo contra ele.
Fica, também, totalmente exposto, o Ministro Lewandovski, que encontrou-se com a presidente no exterior para discutir a Lava-jato. Deveria ter um pouco de pudor e pedir para sair.
A Dilma, abalroada, atordoada, só lhe resta o caminho da renúncia como último gesto grandioso que ainda pode fazer.
A maior manifestação da história política do Brasil, superando a Diretas Já, com 1,4 milhões em São Paulo, 1 milhão no Rio, 200 mil em Curitiba, 100 em Brasilia, enfim, em 21 estados e no Distrito Federal, seguramente com mais de 3 milhões de participantes, é um grito de alerta incontestável e que obriga aos atores políticos a pararem de esconder o sol com a peneira e a fazerem a nau Brasil remar no rumo de seus acordos espúrios.
É preciso, no entanto, enxergar mais adiante que a universal e marcante rejeição ao PT e ao governo Dilma, apenas. As vaias em Alckmin, Aécio, Aleluia, entre outros, sinaliza uma nítida e dura insatisfação com este modelo político falido e a líderes sem personalidade e oportunistas.
Certo que esta memorável mobilização nacional sinaliza, também, um cansaço das gestões corruptas, da impunidade judicial, que espolia recursos e gera serviços ruins e sofrimento a população, explícito no apoio unanime e firme ao excelente juiz Moro.
Então, não é apenas o desnorteado governo Dilma e seu mentor que foram à lona e que precisam responder a sociedade, mas toda classe política, legislativo, gestores, demais membros do judiciário, que precisam mostrar ao Brasil que valem mais que um dólar furado.
O Brasil fez o seu grito de alerta. Que não se façam de moucos pois sairá caro. E, qualquer desatenção, como diz a canção, pode ser a gota d'água.
Foi a maior manifestação da história política do Brasil, maior que a Diretas Já. Ela representa uma mudança de patamar na rejeição ao governo do PT e a Dilma. A situação obriga claramente aos envolvidos no processo político, aos atores governistas e oposiconistas, a uma tomada de posição.
Não há como tapar o sol com a peneira. No Brasil inteiro teve atos contra o governo. A paulista lotou.
Game over!
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