Durante cinco anos o jornal Tribuna Feirense publicou um caderno de cultura de elevado padrão. Nele, resgatamos poetas e escritores, abrimos espaço para novos autores e diversos outros artistas, dando voz e registrando a memória cultural da cidade. Também de forma profícua lutamos pela preservação do patrimônio histórico. Tive a satisfação realizadora de o produzir neste período e a sensação ruim de encerrar sua publicação.
Agora, voltamos com uma página cultural, mais viável economicamente de ser mantida. Aos leitores, um alento na estreia com o poema de Jozailto Lima e ilustração de Juraci Dórea. Confira na página 12.
O vereador Isaias de Diogo, em entrevista, de forma muito oportuna e correta, chamou atenção para o abandono deste imóvel que pertence à Família Pedra. O antigo caderno de cultura da Tribuna Feirense foi um dos órgãos que mais batalhou por sua restauração, quando já havia tratores à porta para demolição. Recordo-me de um telefonema do prefeito Ronaldo, com a gentileza e respeito com o qual sempre trata este colunista, anunciando que a Pirelli faria a recuperação do imóvel. Não diria que a Pirelli fez uma restauração na acepção completa do termo técnico, mas preservou alguns trechos da construção de adobe ostras. De qualquer modo, foi importante porque preservou o sítio e uma importante ação de Zé Ronaldo, que a viabilizou.
Apesar das discussões aquele é o lugar em que chegamos mais próximo de nossa fundação. Agora, ao que parece, há um novo processo de degradação porque a família Pedra mostra-se incapaz de viabilizar a manutenção.
É chegada a hora de uma intervenção. A família precisa rever suas ações, precisa compreender que não pode permitir levar à bancarrota todo esforço que fizemos e ter limites.
Por outro lado o governo poderia considerar a desapropriação em algum momento, ou, já que aluga tantos imóveis, instalar ali a Secretaria de Cultura - à época, discutíamos esta opção (casamento perfeito) ou um museu do imaginário feirense -, ou o Instituto Histórico e Geográfico, que sonha com uma sede. Algo precisa ser feito. Está de parabéns o vereador pelo alerta.
O concreto ao sol chega a 47 C. Sob uma árvore a 37. O asfalto chega a 50. A grama vai de 17 a 35 de diferença entre a sombra e o sol. Assim, o incrível calor que Feira está sofrendo apenas realça a importância de termos um cinturão verde - e o governo municipal precisa fazer mais do que faz, neste tema - e preservarmos nossas lagoas. Elas resfriam o ar, facilitam a circulação dos ventos, reduzem a temperatura, logo, diminuem o consumo de energia.
É, como sempre, vergonhoso o papel dos líderes de nossa oposição. Segue a rigor a técnica do esconderijo até o furacão passar. É assim com Aécio Neves que não consegue firmar um discurso consistente e terceiriza a outros um lugar que seria seu; é assim com Marina Silva que parece ter sido levada no rompimento da barragem de Mariana ou diluída na clorofila das arvores e mostra-se incapaz de oferecer um discurso de líder, de opção, de cobrança, neste momento crítico. Ao chamado, sumiram no fundo da sala.
Amplia-se para 1250 casos já conhecidos o número de crianças com microcefalia pelo zika vírus, uma doença evitável transmitida pelo Aedes Aegypit, um secular habitante da fauna nacional. E ainda há muitos casos a serem notificados e gestantes em período gestacional. Embora não seja possível comparar tragédias, pois cada uma traz em si sua própria dor, esta é maior que Mariana, atentado em Paris, ou onde for. É a tragédia da incompetência administrativa, da miséria política, da omissão criminosa, do desvio de verba amoral, pois são vidas amputadas de seu destino natural, são famílias comprometidas com sua dor permanente, às quais o Estado não dará suporte, não oferecerá reparação, entregando exclusivamente a cada uma delas o enorme esforço econômico e emocional de criar um filho com microcefalia. A condição continua me causando espanto, solidariedade, horror e indignação e me fazendo pensar como suportamos os nossos governos.