Evidente que toda instituição paga pelo dinheiro público
está sujeita ao escrutínio da Sociedade. Apenas a arrogância e a soberba- que
tão frequentemente acontece no Judiciário- faz com que a crítica seja tomada
como ameaça institucional. O genial Millôr Fernandes costumava dizer que o
poder corrompe e o poder absoluto corrompe absolutamente. Há um consenso que o
STF foi importante em determinado momento para conter os arroubos golpistas de
Bolsonaro, mas é também consenso que a
partir daí a Corte tomou um caminho de violação jurídica, censura clara,
explicita e indiscutível.
Certamente, um dia, os livros de história irão registrar o
bisonho e indigno voto da ministra Carmem Lucia dizendo ser a favor da censura
“ só essa vez”. Um desses votos que cola na biografia e pesa por toda eternidade. Os inquéritos ilimitados de
Alexandre de Moraes é uma dessas aberrações de estados de poder de força.
O episódio mal explicado da agressão no Aeroporto de Roma e
as revelações das conversas de celulares de seus ajudantes são absolutamente
estarrecedoras e não seriam aceitas em um país realmente democrático. Elas
escancaram um Moraes investigador, acusador e julgador. Não foi à toa que
seu juiz auxiliar, Airton Vieira, disse:
"Formalmente, se alguém for questionar, vai ficar uma coisa muito
descarada, digamos assim. “ Aliás, um dos réus de 8/1 morreu na cadeia mesmo
após a PGR ter recomendando sua libertação por problema de saúde e o STF não
atender.
Por outro lado, há
evidente abuso do poder monocrático dos ministros, como Toffoli,
anulando sentenças e multas de condenados pela Justiça, incentivando a
impunidade e desmoralizando completamente o combate a corrupção.
Aliado a isso, é inegável o ativismo político do STF que
retirou Lula da cadeia para ser candidato- sim, é manipulação eleitoral-
esgarçando a democracia que tanto dizem defender. Temos a completa perda da liturgia do cargo e do
pudor ético. Ministros frequentam escolas de samba de bicheiros, iates de
investigados por crimes, viajam a Europa para dar aulas em eventos patrocinados
por empresas e lobistas com causas no Supremo. Tudo isso como se fosse normal.
Do mesmo modo além de censura a revistas, jornais, agora o fazem contra
a fala de um deputado na Tribuna, em clara tentativa de intimidação.
O avanço das medidas no Congresso que limitam o poder
monocrático dos ministros e, talvez, os mandatos, é uma urgência para um
reequilíbrio institucional. Antes do dilúvio que eles estão fomentando.
Apesar do crescimento eleitoral indiscutível das útimas campanhas, ainda não foi dessa vez que o PT derrotou José Ronaldo. É possível que tenha faltado afinamento com as alianças, ampliação de grupo ao invés de apenas uma liderança monolítica, entre outras razões, mas o capital político conseguido amplia a responsabilidade do governador Jerônimo com a segunda cidade da Bahia.
A duplicação da Contorno, inauguração do Centro de Convenções, conclusão da reforma das insalubres enfermarias do HGCA- atualmente destoantes do excelente padrão de hotelaria do restante do hospital-, viabilização do Aeroporto de forma defintiva, ampliação da rede de esgoto, são pautas que a cidade espera ver cumprida pelo governo. Evidente que não creio que o governador vá recuar no seu entusiasmo de resolver estas questões, pois não combina com seu perfil de governador de todos, líder político, e homem com ligações com a cidade.
É preciso, no entanto, manter a fé do eleitor que acreditou no projeto do governo nessa eleição.
Grandes
empresas não fazem investimentos sem análise do mercado, portanto, algo de
surpreendente deve estar havendo na economia de Feira, seja de forma momentânea
ou como perspectiva de futuro. O mercado imobiliário segue fazendo lançamento de
condomínios em ritmo acelarado, as farmácias proliferam como se esta fosse uma
cidade hipocondríaca. O mais surpreendente, no entanto, é a chegada de três
grandes redes de supermercados além das que já temos na cidade. O Economart,
Hiperideal e o Sams Club, desembarcaram ao mesmo tempo acirrando- ainda bem- a concorrência
pelo cliente. É um sinal, sem dúvida, que a economia de Feira tem vida própria
independente dos poderes públicos.
José Ronaldo foi eleito para seu quinto mandato à frente da Prefeitura, além dos dois mandatos- de Tarcísio e Colbert- de indicados por ele. É um feito marcante sem dúvida, e é preciso reconhecer a capilaridade, persistência, que seus governos deixaram no eleitor feirense. É um feito significativo, de liderança e popularidade. Ronaldo transformou o ar de simplicidade, modéstia, acessibilidade e amor a Feira em um capital político de resultados. Muitos apreciam a regularidade, constância, de seu modelo de governar .
Neste governo, José Ronaldo( 73
anos), pelo que já disse em entrevistas, deve fazer de sua administração o canto do cisne, construindo o melhor de seus
mandatos. E sem disputar a reeleição, embora político quase nunca seja dono do
seu destino. Para ele é importante sair sem ser derrotado em nenhuma das
eleições o que venhamos e convenhamos é um feito memorável.
Apesar de ter sido a mais
emocionante disputa eleitoral em Feira nos últimos 25 anos a verdade é que o
desenho já estava formado desde a eleição anterior. Em 2016, José Neto teve
46.912 votos ( 15,7%) e José Ronaldo teve 212.408 votos ou 71,2% do eleitorado.
Em 2020, na disputa contra Colbert, José Neto obteve 138.073 votos( 46%), um
crescimento de 94.000 mil votos, e
Colbert ficou com 164.000 ou 54% dos
votos. Os números sinalizavam um profundo desgaste do governo municipal. Nesta
eleição José Neto obteve 154.147 votos (46,7%), e José Ronaldo venceu com
165.970 votos (50,32%) uma diferença de 12 mil votos.
Pelos números é possível observar
que o crescimento de José Neto em relação a eleição anterior foi de 16.000 votos sugerindo que a forte
campanha contra Colbert serviu para desgastar a imagem do prefeito, mas rendeu
menos do que o esperado. Por sua vez, Ronaldo, manteve a mesma votação de
Colbert na eleição passada com apenas 2000 votos a mais. O resultado mostra que o eleitorado feirense
tem certa consistência nas escolhas. Os
votos que Ronaldo perdeu na eleição de 2020 não foram recuperados e se mantiveram
na oposição. Neto ainda conseguiu algum crescimento, mas certamente
desproporcional a intensidade e volume de ação de sua campanha. Ronaldo, por
sua vez, mostrou que seu recall é muito forte.
Ao que parece temos uma cidade
eleitoralmente dividida, com ambas as partes com um capital político muito
importante nas mãos e que está se mantendo nestes últimos anos. A mensagem de
alerta fica clara: ambos os lados vão ter de mostrar muito serviço para manter
o desempenho eleitoral. Quem não lutar para conservar o eleitorado obtido
estará fora nas próximas eleições.