Finalmente, ontem, uma forte chuva caiu sobre a Feira de Santana. Não vieram os raios e os trovões, mas a precipitação foi caudalosa. Por alguns minutos uma densa cortina d’água envolveu o horizonte e as nuvens baixas tornaram a atmosfera acinzentada. Só que durou pouco. A água acumulou-se em ruas e avenidas mas, na maior parte delas, logo escoou pelos bueiros. O trânsito congestionou-se durante algum tempo, mas fluiu em seguida.
A chuva me colheu embarcando num carro de aplicativo, os pingos encharcando a roupa. Na véspera, escrevera um texto reclamando das trovoadas que chegavam aqui e se dispersavam, recalcitrantes. Mesmo encharcado não reclamei, claro: afora o incômodo da roupa molhada, a precipitação foi muito bem-vinda: o calor declinou, o céu ardente ganhou uma acolhedora camada de nuvens e o cheiro agradável de terra molhada se irradiou por algum tempo.
Mas há gente preocupada: o Carnaval está aí logo à frente. Será que vai chover no Carnaval? Talvez o clima chuvoso atrapalhe nos circuitos soteropolitanos e nas praias que abrigarão levas de turistas. Mas aqui, na Feira de Santana, caso chova, o incômodo será pequeno. Afinal, a cidade se esvazia nos cinco dias de folia. Quem pode, pega a estrada.
Até o começo da tarde de sábado há o bulício comercial, há gente que vem de fora para fazer compras. Depois, resta a lufa-lufa de quem vai viajar e, já à noite, reina uma tristonha melancolia. É dilacerante o contraste entre o silêncio e a solidão da Princesa do Sertão e as imagens de multidões animadas e ruidosas nos circuitos momescos, sob a iluminação profusa.
Nem a luz alegre do sol na manhã do domingo de Carnaval espanta essa melancolia. O silêncio, persistente, parece que reverbera os ecos da cidade vazia, sem sua agitação habitual. A segunda-feira sem feira-livre e sem comércio é uma contradição violenta, que quase pulsa em meio à pasmaceira. Não se vê, mas se sente aquela requisição muda, indeterminada, por agitação e movimento.
Só na terça-feira a tensão e a inquietude diminuem, pois já prevalece aquela atmosfera de feriado que finda, para alívio de quem anseia retomar suas atividades mercantis, comprar, vender, fazer dinheiro, apurar o lucro. O silêncio também é menor, o ronco dos motores anuncia o retorno ruidoso de quem foi veranear pelas praias, refugiar-se nalguma fazenda.
É provável que não chova na Feira de Santana no Carnaval, conforme estima a previsão do tempo. Mas, se chover, o incômodo será pequeno. No máximo, atiçará só mais uma ponta de melancolia em quem ficará na Princesa do Sertão...
Ao longo do dia não havia nenhum sinal. Na metade da tarde ensolarada, porém, sombras plúmbeas despontaram a oeste, lá para os lados de Jaguara e mais acima um pouco. Avançaram devagar, trovões roncando, raios empalidecendo a amplidão cinzenta. À frente, nuvens altas, muito escuras; mais atrás, uma espessa camada esbranquiçada, prenunciando chuva.
O vento soprava sem piedade, sacudindo as copas das árvores, levantando a poeira das ruas, varrendo papeis e copos plásticos espalhados pelas calçadas. Nas janelas e nas quinas dos prédios a lufada até uivava, soturna. Durante o crepúsculo umas nuvens miúdas, baixas, azuladas, avançaram do leste, na direção contrária, desafiando a anunciada tempestade. Naquele momento, o céu assumia um fulgor de aço. O cenário lembrava filme impressionista.
Só que não choveu. Os clarões dos raios se amiudaram, trovões intensificaram a frequência, mas a aguardada tempestade mão caiu. Sobre a atmosfera feirense, as nuvens, empurradas pelo vento, deslocaram-se para o sudoeste, em demanda de Antônio Cardoso e Santo Estêvão. Quando a noite caiu, estrelas já reluziam, nas fendas entre as nuvens. O cenário impressionista feneceu.
As mídias digitais trouxeram muitos vídeos sobre chuvas Bahia afora desde janeiro. De Juazeiro a Vitória da Conquista – passando pelo entorno sertanejo da Feira de Santana – caíram copiosas tempestades. No litoral e no Recôncavo, então, nem se fala. Rios se encorparam, represas sangraram, tanques encheram e, nas cidades, houve torrentes e até alagamentos.
Mas, por aqui, nenhuma chuva digna de nota. Algumas garoas miúdas, uma ou outra chuva fraca, passageira. Nada capaz de encher os reservatórios, menos ainda de umedecer a terra para a lavoura. Vá lá que o calor é intenso, mas bem mais moderado que aquele do ano passado. Para quem labuta sobre a terra, porém, a escassez de chuvas frustra.
Fevereiro já vai avançando e, logo à frente, chega março e o dia 19, de São José. A ciência popular sinaliza que, para o ano ser bom, farto, é necessário que chova até lá. Ficarão as chuvas sobre a Feira de Santana para abril, que em anos anteriores molhavam os foliões na Micareta? Não se sabe.
Mas que é desolador atravessar o verão sem as tradicionais trovoadas, é...
Muitas personalidades de destaque visitaram a antiga feira-livre que acontecia no centro da Feira de Santana às segundas-feiras. Um dos relatos foi o do escritor, crítico literário e membro da Academia Brasileira de Letras, Tristão de Athayde, pseudônimo de Alceu Amoroso Lima. Colunista do prestigiado “Jornal do Brasil”, Athayde visitou a Feira de Santana em companhia do jornalista Zitelmann de Oliva. A viagem rendeu a crônica batizada com o singelo nome de “Feira”, na edição de 29 de março de 1962 do JB.
A visita aconteceu numa segunda-feira, depois de uma viagem pela rodovia que o escritor descreveu como “perfeita e moderna, quase em linha reta”. Ele prossegue, já descrevendo a feira-livre: “O mercado, propriamente dito, é apenas o centro da grande feira, que se estende pela Cidade inteira, enchendo ruas e praças a perder de vista. Dizem que outrora, quando havia também a feira de gado, hoje suprimida, as proporções eram incomparavelmente maiores”.
Na sequência, Tristão de Athayde revela suas impressões sobre o comércio e louva a farinha de mandioca: “A indústria é primitiva, os principais produtos industriais mais elaborados vem de fora. (...) Mas as farinhas, especialmente estas, são maravilhosas, perfumadas, coloridas, quentes de aspecto e fresquinhas das mãos que as prepararam nas humildes casas sertanejas de farinha”.
A descrição segue, vívida: “Os inhambus, os galos de catinga, os teiús, as próprias cobras [sic] ali estão espalhados pelo chão, esventrados, espetados em bambus”. As frutas também mereceram atenção: “Os licores de frutos, esses mesmos, os umbus, as mangabas, os maracujás, outros frutos silvestres de nomes inéditos e gosto adocicado”.
Outros produtos das feiras-livres nordestinas são notados: “Ao lado das barraquinhas da rústica cerâmica, em que os bonecos de barro do Vitalino e de seus discípulos e já numerosos imitadores, nos dão uma mostra primitiva dos costumes populares”. As ervas e a medicina popular não escaparam à sua observação: “As ervas medicinais constituem um capítulo saboroso, cada qual com sua direta aplicação para o peito, para os rins, para o estômago, até para os males da alma”.
Não faltaram também – é claro – referências à literatura de cordel: “a barraquinha dos folhetos de cordel, com suas capas decalcadas de cromos sentimentais da belle époque europeia, que ali continuam a alimentar o sentimentalismo sertanejo”. Havia fartura, mas havia miséria, como bem notou o pensador católico: “E no meio de toda aquela fartura – a miséria, os trapos, o reflexo trágico da seca, que há meses assola todo o sertão”.
Na sequência, Tristão de Athayde foi almoçar na fazenda do empresário e jornalista feirense João Falcão, - “figura típica de nordestino adiantado” – onde notou os efeitos da seca sobre uma lagoa e louvou a carne de sol servida na refeição. No retorno, comenta o ritmo lento dos sertanejos que retornam da feira: “Sertanejos que à tarde encontramos pela estrada, de volta da agitação acalorada da feira, com os cajás vazios, ao choto modorrento dos seus esqueléticos rocinantes”.
Tristão de Athayde – ou Alceu Amoroso Lima – foi uma dos mais destacados intelectuais brasileiros do século passado. Atuou em frentes diversas e a crônica em que rememora sua passagem pela Feira de Santana reflete suas qualidades literárias.
Repercutiu bastante, inclusive aqui na Tribuna Feirense, a divulgação de um estudo do Instituto Brasileiro de Planejamento Tributário (IBPT), indicando que a Feira de Santana ocupa a 97ª colocação em termos de arrecadação no Brasil. Isso considerando o ano-base de 2024. Da Bahia, figuram na mesma lista Salvador – na 14ª posição – e Camaçari, ocupando o 46º lugar. Segundo o levantamento, os 100 maiores municípios são responsáveis por 77% da arrecadação dos mais de 5,5 mil municípios brasileiros.
Em termos de arrecadação a Feira de Santana também se sobressai no Nordeste, liderando o ranking entre os municípios do interior. No levantamento, o município figura com R$ 2,77 bilhão em receitas tributárias. O ranking, obviamente, é liderado pelas cidades localizadas nas regiões Sul e Sudeste, eixo dinâmico da economia brasileira.
A posição da Feira de Santana se deve à sua condição de polo econômico, sobretudo nos segmentos de comércio e de serviços. A população superior a 600 mil habitantes e o significativo afluxo de consumidores de municípios vizinhos ajuda a dinamizar a economia feirense e, por consequência, a arrecadação tributária.
É bom destacar que a Feira de Santana possui a 35ª maior população entre os municípios brasileiros, mas figura apenas na 97ª colocação em arrecadação. O que isso significa? Que a economia feirense é menos dinâmica do que a economia de boa parte dos municípios do seu porte, muitos deles localizados no já mencionado eixo Sul-Sudeste.
O que explica o menor dinamismo relativo da economia feirense? Em parte, a modesta participação percentual da indústria no PIB municipal, na comparação com o comércio e os serviços. Este segmento, a propósito, envolve produtividade menor do que a da indústria, o que ajuda a explicar o desempenho mais modesto da economia feirense.
Adicionalmente, é necessário apontar a modestíssima participação do setor primário na economia feirense. Enquanto diversos municípios tem sua economia baseada no moderno agronegócio, a Feira de Santana não dispõe de agropecuária com porte empresarial e sobrevive, em grande medida, da agricultura familiar.
Note-se que, em termo de Produto Interno Bruto – PIB feirense, por exemplo, é o 4º maior da Bahia, perdendo a terceira colocação para São Francisco do Conde. O valor soma R$ 21,8 bilhões, de acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística de 2023. O PIB é o somatório de riquezas produzidas num determinado intervalo em um local específico.
O PIB per capita – a soma das riquezas divididas pela população – reflete também este contexto. Em 2023 – os dados são do IBGE - o PIB feirense alcançou R$ 35.449,37, o que situa o município numa modestíssima 2348ª colocação entre os mais de 5,5 mil municípios brasileiros.
Assim, os números frequentemente divulgados sobre a economia feirense, situando-a em posição privilegiada no Brasil refletem muito mais o seu porte que, propriamente, o seu desempenho relativo. Se no coletivo a Princesa do Sertão vai bem – PIB e arrecadação – no individual - PIB per capita – é necessário avançar muito.
O prefeito José Ronaldo de Carvalho (União) anunciou a revitalização de dez praças da Feira de Santana. Parte delas está localizada no centro da cidade e encontra-se em situação lastimável. Espaços urbanos bem cuidados geram uma série ampla de impactos, transpondo a dimensão da zeladoria e produzindo efeitos sociais, econômicos e – sobretudo – ambientais.
Circular pelas praças do centro comercial da Princesa do Sertão, hoje, é bem pouco convidativo. Há sujeira, há equipamentos quebrados, há mato, há árvores mal-cuidadas e quase não há jardins. Há, também, muita insegurança. Ninguém busca as praças como espaços de lazer, entretenimento e socialização. Servem mais como pontos de vans e ônibus, para apressados embarques e desembarques.
Praças bem cuidadas, equipadas, iluminadas e seguras funcionam como atrativo – de forma gratuita - para a população. Nelas, há possibilidade de lazer e de práticas esportivas, o que se reverte em benefícios para a saúde. Também é um importante instrumento de socialização, pois contribui para aproximar as pessoas. Sem contar, claro, os benefícios para o comércio do entorno.
Os impactos sociais e econômicos são mais óbvios e alcançáveis no médio prazo. Há, porém, o complexo e negligenciado impacto ambiental, cujos efeitos são visíveis no mais longo prazo e exigem intervenções contínuas. É o caso de iniciativas de ajardinamento e, sobretudo, plantio e cuidado com as árvores. Qualquer observador sabe o quanto as árvores das praças feirenses estão maltratadas.
Não faz sentido falar em revitalização de praças, portanto, sem o cuidado permanente com suas árvores. Cuidar das árvores existentes, remover aquelas que estão condenadas e plantar novas mudas são atividades que precisam ser incorporadas à rotina da Feira de Santana.
Os efeitos das mudanças climáticas estão aí, sendo sentidos por todo mundo. Creio que, sensibilizada pela realidade que o noticiário traz todos os dias, a gestão municipal pretende promover uma guinada na forma de abordar a questão ambiental. Isso passa pelo cuidado com as árvores nas praças.
Fevereiro chegou com sensação térmica próxima dos 40 graus. Talvez exatamente por isso, o anúncio aconteceu em um momento oportuno.