Há um ponto cego na escrita da guerra. Nós, historiadores
militares, treinados na cartografia dos movimentos, na lógica dos cercos e na
aritmética das perdas, tendemos a ver o conflito de cima, como se estivéssemos
sempre sobrevoando o campo de batalha. Pensamos em linhas de abastecimento, em
bloqueios, em teatro de operações. A guerra, para nós, é sistema. Mas, nas
gravuras da artista feirense Sonary Guimarães, ela retorna ao seu estado
mais antigo e mais incômodo: a guerra como experiência vivida, como matéria
sensível, como ruína que respira.
As imagens que ela constrói, cidades esmaecidas sob o peso da
fuligem, tanques que avançam como animais cegos, corpos que se dissolvem na
fumaça, não são, propriamente, representações da guerra contemporânea; são,
antes, a sua interiorização. Não há, aqui, o espetáculo do combate, mas o seu
resíduo: aquilo que sobra quando o ruído cessa. É uma guerra vista de dentro,
não do quartel-general.
Esse deslocamento de perspectiva é decisivo. Desde a Guerra
de Troia, tal como cantada na Ilíada, a narrativa bélica foi majoritariamente
moldada pelo olhar masculino e heroico. Aquiles, Heitor, Ulisses: figuras que
encarnam a glória e a destruição em igual medida. Mas, mesmo nesse universo, há
fissuras. Andrômaca, Hécuba, Briseida, mulheres que não combatem, mas suportam
o peso final da guerra. São elas que assistem à queda, que sobrevivem à glória
alheia, que carregam a memória do que foi perdido.
Sonary parece herdeira dessa linhagem silenciosa. Nas suas
gravuras, a cidade não é um objetivo estratégico; é um corpo ferido. Os
edifícios inclinados, quase em colapso, lembram não tanto alvos militares, mas
organismos exaustos. O fogo não ilumina, devora. E os poucos traços humanos que
emergem não são soldados identificáveis, mas presenças frágeis, quase
espectrais. Há uma recusa deliberada do heroísmo. A guerra, nas gravuras de
Sonary Guimarães, não é narrativa de vitória, mas de desgaste.
Esse olhar, que podemos chamar, com cautela, de feminino, não
é apenas uma questão de autoria, mas de posição. Enquanto o guerreiro se
projeta para fora, para o confronto, a mulher, historicamente relegada à
retaguarda, experimenta a guerra como invasão do espaço íntimo. Na Antiguidade,
isso era brutalmente literal: mulheres eram tomadas como espólio, deslocadas,
reduzidas à condição de cativas. O destino de Briseida ou das mulheres troianas
após a queda da cidade não é exceção, mas regra.
O que muda, nas gravuras de Sonary, é que essa condição,
outrora silenciada, torna-se linguagem. Há, nelas, algo de profundamente
tático, mas não no sentido militar do termo. Trata-se de uma tática da
sobrevivência, da percepção fragmentária, do instante vivido sob pressão. Se a
estratégia busca a totalidade, a visão panorâmica, a arte de Sonary insiste no
detalhe que escapa: o incêndio que consome um quarteirão, o deslocamento
caótico de corpos, a dissolução das formas. É a guerra como experiência
descontínua.
E, talvez, seja justamente aí que se estabelece o contraste
mais fecundo. Porque, enquanto a historiografia militar, na qual me inscrevo
como praticante do ofício, tende a organizar o caos em narrativa, a
arte de Sonary opera no sentido inverso: ela devolve à guerra a sua opacidade.
Seus traços não esclarecem; perturbam. Não explicam; insinuam. Há uma
espécie de neblina ontológica em suas imagens, como se todo o ar tivesse sido
retirado do mundo, restando apenas a suspensão, o silêncio pesado após o
impacto.
Isso não significa que sua obra seja menos “política”. Ao
contrário. Ao deslocar o foco da decisão para a consequência, do comando para o
efeito, Sonary realiza um gesto crítico potente. Ela expõe o custo humano que a
linguagem estratégica tende a abstrair. Cada edifício em ruína, cada mancha de
vermelho que irrompe na tela, é uma recusa da neutralidade.
Se a guerra, para o estrategista, é um problema a ser
resolvido, para a artista, ela é uma ferida que não se fecha. E, talvez, seja
nesse diálogo, entre o alto e o baixo, entre o plano e o fragmento, que
possamos reencontrar uma compreensão mais inteira do fenômeno bélico. Não para
abandonar a análise, mas para contaminá-la com aquilo que ela, frequentemente,
exclui: o sofrimento anônimo, a experiência ordinária, a voz subalternizada
que, por séculos, permaneceu à margem dos relatos.
As gravuras de Sonary Guimarães não nos oferecem respostas. Elas fazem algo mais difícil: obrigam-nos a olhar para onde a história, muitas vezes, prefere não olhar.