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  • Feira de Santana, quarta, 15 de abril de 2026

Wellington Freire

Sonary Guimarães: a guerra sem heróis

Wellington Freire - 15 de Abril de 2026 | 08h 38
Sonary Guimarães: a guerra sem heróis
Foto: gravura de Sonary Guimarães

Há um ponto cego na escrita da guerra. Nós, historiadores militares, treinados na cartografia dos movimentos, na lógica dos cercos e na aritmética das perdas, tendemos a ver o conflito de cima, como se estivéssemos sempre sobrevoando o campo de batalha. Pensamos em linhas de abastecimento, em bloqueios, em teatro de operações. A guerra, para nós, é sistema. Mas, nas gravuras da artista feirense Sonary Guimarães, ela retorna ao seu estado mais antigo e mais incômodo: a guerra como experiência vivida, como matéria sensível, como ruína que respira.

As imagens que ela constrói, cidades esmaecidas sob o peso da fuligem, tanques que avançam como animais cegos, corpos que se dissolvem na fumaça, não são, propriamente, representações da guerra contemporânea; são, antes, a sua interiorização. Não há, aqui, o espetáculo do combate, mas o seu resíduo: aquilo que sobra quando o ruído cessa. É uma guerra vista de dentro, não do quartel-general.

Esse deslocamento de perspectiva é decisivo. Desde a Guerra de Troia, tal como cantada na Ilíada, a narrativa bélica foi majoritariamente moldada pelo olhar masculino e heroico. Aquiles, Heitor, Ulisses: figuras que encarnam a glória e a destruição em igual medida. Mas, mesmo nesse universo, há fissuras. Andrômaca, Hécuba, Briseida, mulheres que não combatem, mas suportam o peso final da guerra. São elas que assistem à queda, que sobrevivem à glória alheia, que carregam a memória do que foi perdido.

Sonary parece herdeira dessa linhagem silenciosa. Nas suas gravuras, a cidade não é um objetivo estratégico; é um corpo ferido. Os edifícios inclinados, quase em colapso, lembram não tanto alvos militares, mas organismos exaustos. O fogo não ilumina, devora. E os poucos traços humanos que emergem não são soldados identificáveis, mas presenças frágeis, quase espectrais. Há uma recusa deliberada do heroísmo. A guerra, nas gravuras de Sonary Guimarães, não é narrativa de vitória, mas de desgaste.

Esse olhar, que podemos chamar, com cautela, de feminino, não é apenas uma questão de autoria, mas de posição. Enquanto o guerreiro se projeta para fora, para o confronto, a mulher, historicamente relegada à retaguarda, experimenta a guerra como invasão do espaço íntimo. Na Antiguidade, isso era brutalmente literal: mulheres eram tomadas como espólio, deslocadas, reduzidas à condição de cativas. O destino de Briseida ou das mulheres troianas após a queda da cidade não é exceção, mas regra.

O que muda, nas gravuras de Sonary, é que essa condição, outrora silenciada, torna-se linguagem. Há, nelas, algo de profundamente tático, mas não no sentido militar do termo. Trata-se de uma tática da sobrevivência, da percepção fragmentária, do instante vivido sob pressão. Se a estratégia busca a totalidade, a visão panorâmica, a arte de Sonary insiste no detalhe que escapa: o incêndio que consome um quarteirão, o deslocamento caótico de corpos, a dissolução das formas. É a guerra como experiência descontínua.

E, talvez, seja justamente aí que se estabelece o contraste mais fecundo. Porque, enquanto a historiografia militar, na qual me inscrevo como praticante do ofício,  tende a organizar o caos em narrativa, a arte de Sonary opera no sentido inverso: ela devolve à guerra a sua opacidade. Seus traços não esclarecem; perturbam. Não explicam; insinuam. Há uma espécie de neblina ontológica em suas imagens, como se todo o ar tivesse sido retirado do mundo, restando apenas a suspensão, o silêncio pesado após o impacto.

Isso não significa que sua obra seja menos “política”. Ao contrário. Ao deslocar o foco da decisão para a consequência, do comando para o efeito, Sonary realiza um gesto crítico potente. Ela expõe o custo humano que a linguagem estratégica tende a abstrair. Cada edifício em ruína, cada mancha de vermelho que irrompe na tela, é uma recusa da neutralidade.

Se a guerra, para o estrategista, é um problema a ser resolvido, para a artista, ela é uma ferida que não se fecha. E, talvez, seja nesse diálogo, entre o alto e o baixo, entre o plano e o fragmento, que possamos reencontrar uma compreensão mais inteira do fenômeno bélico. Não para abandonar a análise, mas para contaminá-la com aquilo que ela, frequentemente, exclui: o sofrimento anônimo, a experiência ordinária, a voz subalternizada que, por séculos, permaneceu à margem dos relatos.

As gravuras de Sonary Guimarães não nos oferecem respostas. Elas fazem algo mais difícil: obrigam-nos a olhar para onde a história, muitas vezes, prefere não olhar.



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