Enquanto escrevo, a Lavagem do Bonfim se desenrola em Salvador. Mas vi diversas fotografias e imagens e posso, desde já, reiterar que a tradicional celebração católica segue desfigurando-se, como muita gente aponta há tempos. A secular manifestação de fé transformou-se num interminável – e profano – cortejo político-partidário em que polos opostos se digladiam.
Neste 2026, a propósito, as demonstrações de força são ainda mais intensas, por conta das eleições que ocorrerão em outubro. Longos cortejos cercam os líderes políticos, distinguindo-se pelos balões, bonés, bandeiras, cartazes e camisetas personalizadas, orquestras particulares e – ao fim e ao cabo – comida e bebida à farta. Farra para eletrizar os cabos eleitorais...
É óbvio que as manifestações políticas são legítimas e compõem a festa há tempos. Esta, a propósito, não se limita aos rituais religiosos, envolvendo também as festas profanas que caracterizam o longo verão baiano. Mas é nítido que o Senhor do Bonfim – e Oxalá – perdem o protagonismo à medida que o enredo religioso cede lugar à instrumentalização política.
A própria imprensa, hoje, privilegia aquelas declarações protocolares dos políticos – qualquer político, aliás – ignorando a cobertura mais global da celebração. Dezenas destas declarações já estão disponíveis, a propósito, para quem quiser se entreter nos sites da vida.
Estas observações não refletem nenhuma inclinação ranzinza, mas buscam trazer uma reflexão mais abrangente – embora despretensiosa – sobre a pulsante sinergia entre fé, religiosidade e cultura na Bahia. É visível que o outrora festejado ciclo de festas populares da Salvador perdeu fôlego e, em grande medida, ganhou sentido diverso.
Na Lavagem do Bonfim, há a apropriação política. Quem não se identifica com os cortejos partidários fica deslocado, o desafio de percorrer os oito quilômetros da Conceição da Praia à Colina Sagrada impõe mil malabarismos a quem repele as claques. Mais à frente, a Festa de Iemanjá, por sua vez, ganhou uma inquietante conotação mercantil.
Com o tempo tudo muda, é verdade. As sociedades são dinâmicas e se transformam. Mas que é chato constatar que a mercantilização e a partidarização empobrecem a fé e a cultura baianas, lá isso é...