A História é mestra da vida, ensinava Heródoto de Halicarnasso, e o historiador é uma espécie de profeta com os olhos voltados para trás. Não prevê datas nem eventos, mas reconhece padrões, recorrências e ilusões persistentes. O tempo histórico não se repete mecanicamente, mas rima. E as rimas que hoje se acumulam no horizonte são difíceis de ignorar. Como nuvens carregadas antes da tempestade, tensões se adensam enquanto conceitos estratégicos outrora tratados como verdades consolidadas revelam fissuras profundas diante de uma audiência global atônita.
Após o fim da Guerra Fria,
difundiu-se no Ocidente a confortável crença de que os grandes conflitos entre
potências haviam sido definitivamente superados. A expansão do liberalismo
político, a globalização econômica e a proliferação de instituições
multilaterais alimentaram a convicção de que a interdependência tornaria a
guerra não apenas indesejável, mas improvável. Esse otimismo, porém, tinha
menos de conclusão histórica e mais de autoengano estratégico. O que se viveu
nas últimas décadas parece ter sido não o “fim da História”, mas um interlúdio
raro, e talvez irrepetível, entre ciclos mais longos de rivalidade.
O atual rearranjo de poder no
sistema internacional guarda paralelos inquietantes com a chamada Paz Armada
que antecedeu 1914. À semelhança daquele período, assistimos a uma corrida
armamentista acelerada, hoje marcada por arsenais nucleares, capacidades
cibernéticas e armamentos hipersônicos, ao endurecimento de alianças, à
reabilitação aberta do nacionalismo e à multiplicação de crises periféricas
usadas como testes de força. A diferença crucial é conhecida: a dissuasão
nuclear torna uma guerra total improvável. Mas convém não confundir
improbabilidade com impossibilidade. A dissuasão não elimina o conflito; apenas
o fragmenta, o desloca e o normaliza sob formas indiretas, híbridas e
regionalizadas. A ausência de uma guerra mundial não equivale, em absoluto, à
existência de paz.
O eco é ainda mais antigo. Tucídides
identificou no medo de Esparta diante da ascensão de Atenas o fator estrutural
que tornou a Guerra do Peloponeso quase inevitável. A chamada “armadilha de
Tucídides”, popularizada por analistas contemporâneos, ajuda a compreender a
rivalidade sino-americana ao expor o papel do medo, da desconfiança e da
percepção de declínio relativo. Tomá-la como determinismo, porém, seria um erro
grave. Estruturas pressionam, mas não absolvem. São as decisões políticas,
frequentemente tomadas sob ilusões de controle ou arrogância estratégica, que
transformam tensões administráveis em conflitos abertos.
O que se desenha hoje é o retorno
explícito de práticas que muitos preferiram acreditar superadas. Zonas de
influência voltam a ser reivindicadas sem pudor. Os Estados Unidos buscam
preservar sua primazia global e suas redes de alianças; a China afirma-se como
potência revisionista no Indo-Pacífico, tendo Taiwan como linha vermelha; a
Rússia procura reconstruir sua área de influência no espaço pós-soviético, com
a Ucrânia como peça central. Trata-se menos de um desvio ocasional e mais de um
ressurgimento imperialista do sistema internacional, fenômeno que o discurso normativo insiste em
negar, mas que a prática estratégica confirma diariamente.
Esse processo expõe a hipocrisia
crescente de conceitos centrais da retórica contemporânea. A chamada “ordem
internacional baseada em regras” subsiste, cada vez mais, como linguagem moral
aplicada de forma seletiva, dependente da correlação de forças e da
conveniência política. O direito internacional não desapareceu, mas tornou-se
instrumento assimétrico. O multilateralismo sobrevive, porém frequentemente
esvaziado. Sanções econômicas são apresentadas como alternativa civilizada à
guerra, embora produzam efeitos sistêmicos duradouros: aprofundam rivalidades,
aceleram o desacoplamento econômico e reforçam a lógica de blocos antagônicos.
As crises regionais funcionam como termômetros desse mundo em transição.
A guerra na Ucrânia desmontou de vez
a fantasia de um cenário pós-militar, recolocando o poder bélico convencional no
centro da política internacional. Taiwan configura um potencial ponto de
ruptura sistêmica. Na América Latina, a instabilidade venezuelana, as tensões
diplomáticas regionais e a crescente presença estratégica de potências
extra-hemisféricas indicam que o continente está longe de ser uma zona neutra.
Como em outros momentos históricos, as grandes rupturas raramente começam no
centro do sistema: são precedidas por conflitos localizados que testam limites,
sondam reações e redefinem linhas vermelhas.
As implicações desse cenário são
claras, ainda que desconfortáveis. Caminhamos para um mundo marcado pela
normalização da guerra limitada, pela aceitação tácita de esferas de influência
e pela erosão progressiva do universalismo liberal que estruturou a ordem do
pós-1945. Não se trata de anunciar catástrofes iminentes, mas de reconhecer que
o vocabulário moral do último meio século já não descreve com fidelidade a
realidade estratégica contemporânea. O papel do historiador, nesse contexto,
não é o de profeta apocalíptico nem o de guardião de ilusões reconfortantes.
Cabe-lhe advertir. A História não condena os homens à repetição mecânica, mas
pune severamente a amnésia. Ignorar padrões recorrentes em momentos de
transição e rearranjo de poder não é sinal de progresso, é, quase sempre, o
primeiro passo para revivê-los sob novas e perigosas formas.