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César Oliveira

Cuidar da saúde não é se entregar a vendedores de canetas e bugigangas terapêuticas

César Oliveira - 16 de Janeiro de 2026 | 13h 38
Cuidar da saúde não é se entregar a vendedores de canetas e bugigangas terapêuticas

A importância da beleza sempre foi um tema da filosofia. Aristóteles afirmava que a beleza reside nas próprias coisas, caracterizando-se por harmonia, proporção e ordem, fundamentando-a na simetria e grandeza.

Na contemporaneidade, o mito da beleza perfeita alcançou dimensão quase sobre-humana. O humano começou a buscar, nos consultórios médicos – além das academias, centros de estética e similares –, a perfeição do corpo, o retardamento do envelhecimento e do ocaso sexual.

Como procura e demanda caminham em simbiose, surgiram procedimentos invasivos e aplicações medicamentosas que visam corrigir o que cada um considera imperfeito em seu mundo narcísico.

Muitos desses procedimentos são realizados por médicos habilitados, mas surgiram oportunistas, que vendem condutas milagrosas e, muitas vezes, com risco à vida. Exemplos incluem terapia de vitamina D em doses excessivas; soroterapia inútil; "chip da beleza"; suplementação de polivitamínicos sem deficiência; implantes sem autorização da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e reposição indiscriminada de testosterona em mulheres (indicada apenas em situações muito específicas). Vale lembrar que o aumento do clitóris e a mudança na voz, efeitos da testosterona, são irreversíveis.

Já atendi pacientes que pagaram R$ 5 mil para retirar chumbo – inexistente – do organismo. Outra apresentou nível de vitamina D no sangue de 5000 unidades – o maior já registrado na literatura médica –, após reposição inadequada, indicada por ortomolecular.

Estou publicando esse caso em uma revista, pois a paciente sofreu injúria renal e derrame no pericárdio. Tenho pacientes com lúpus que agravaram a doença, porque interromperam a imunossupressão para controlar imunidade por vitaminas em doses altas.

Há profissionais, de prática médica duvidosa, que indicam injeção muscular do próprio sangue (auto-hemoterapia). Uma paciente perdeu a visão de um olho, após procedimento na pálpebra, onde o médico injetou um produto na artéria oftálmica.

Além desses, muitos outros casos resultaram em morte, como vemos nos noticiários. Por vezes, a tentativa de vencer Cronos, o tempo, sai caro demais. Há médicos que solicitam mais de 100 exames como "pacote", antes mesmo de atender o paciente, e recomendam a formulação de produtos no próprio consultório.

Não há critérios que justifiquem esse tipo de coisa, sendo apenas mercantilismo. Essas violações se estendem a outras áreas da saúde, como enfermagem, nutrição, odontologia e biomedicina. Entre as práticas mais exploradas, destaca-se o surgimento das "canetas emagrecedoras", um medicamento revolucionário no combate à obesidade, mas que ainda tem custo elevado.

O médico Gabriel Almeida foi, recentemente, alvo de uma ação da Polícia Federal (PF), amplamente divulgada na mídia, por manipular o medicamento sem o insumo original fornecido pelo detentor da patente.

O insumo precisa ser rastreável e idôneo (conforme a Lei 6.360/1976 e RDC 62/2007); ter garantia da qualidade do produto, da cadeia de custódia, da segurança do tratamento. No entanto, muitos profissionais estavam vendendo e aplicando o produto em seus consultórios. Recentemente, uma paciente desenvolveu insuficiência respiratória e renal, precisando ser entubada, após uma dessas aplicações.

A medicina é uma arte ética baseada em rigorosa evidência científica, exigindo caráter e honestidade em sua prática. Esta se estende a outras áreas da saúde, como enfermagem, nutrição, odontologia e biomedicina.

A exploração do cliente apenas por motivos financeiros é uma miséria moral de nossos tempos e deve ser enfrentada pela sociedade. A beleza pode ser ajustada, mas a servidão a um padrão torna-se um meio de exploração para aproveitadores de todas as áreas.



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