A importância da beleza sempre foi um tema da filosofia.
Aristóteles afirmava que a beleza reside nas próprias coisas, caracterizando-se
por harmonia, proporção e ordem, fundamentando-a na simetria e grandeza.
Na contemporaneidade, o mito da beleza perfeita alcançou
dimensão quase sobre-humana. O humano começou a buscar, nos consultórios
médicos – além das academias, centros de estética e similares –, a perfeição do
corpo, o retardamento do envelhecimento e do ocaso sexual.
Como procura e demanda caminham em simbiose, surgiram
procedimentos invasivos e aplicações medicamentosas que visam corrigir o que
cada um considera imperfeito em seu mundo narcísico.
Muitos desses procedimentos são realizados por médicos
habilitados, mas surgiram oportunistas, que vendem condutas milagrosas e,
muitas vezes, com risco à vida. Exemplos incluem terapia de vitamina D em doses
excessivas; soroterapia inútil; "chip da beleza"; suplementação de polivitamínicos
sem deficiência; implantes sem autorização da Agência Nacional de Vigilância
Sanitária (Anvisa) e reposição indiscriminada de testosterona em mulheres
(indicada apenas em situações muito específicas). Vale lembrar que o aumento do
clitóris e a mudança na voz, efeitos da testosterona, são irreversíveis.
Já atendi pacientes que pagaram R$ 5 mil para retirar chumbo –
inexistente – do organismo. Outra apresentou nível de vitamina D no sangue de
5000 unidades – o maior já registrado na literatura médica –, após reposição
inadequada, indicada por ortomolecular.
Estou publicando esse caso em uma revista, pois a paciente sofreu
injúria renal e derrame no pericárdio. Tenho pacientes com lúpus que agravaram
a doença, porque interromperam a imunossupressão para controlar imunidade por vitaminas
em doses altas.
Há profissionais, de prática médica duvidosa, que indicam
injeção muscular do próprio sangue (auto-hemoterapia). Uma paciente perdeu a
visão de um olho, após procedimento na pálpebra, onde o médico injetou um
produto na artéria oftálmica.
Além desses, muitos outros casos resultaram em morte, como
vemos nos noticiários. Por vezes, a tentativa de vencer Cronos, o tempo, sai
caro demais. Há médicos que solicitam mais de 100 exames como
"pacote", antes mesmo de atender o paciente, e recomendam a
formulação de produtos no próprio consultório.
Não há critérios que justifiquem esse tipo de coisa, sendo
apenas mercantilismo. Essas violações se estendem a outras áreas da saúde, como
enfermagem, nutrição, odontologia e biomedicina. Entre as práticas mais
exploradas, destaca-se o surgimento das "canetas emagrecedoras", um
medicamento revolucionário no combate à obesidade, mas que ainda tem custo
elevado.
O médico Gabriel Almeida foi, recentemente, alvo de uma ação
da Polícia Federal (PF), amplamente divulgada na mídia, por manipular o
medicamento sem o insumo original fornecido pelo detentor da patente.
O insumo precisa ser rastreável e idôneo (conforme a Lei
6.360/1976 e RDC 62/2007); ter garantia da qualidade do produto, da cadeia de
custódia, da segurança do tratamento. No entanto, muitos profissionais estavam
vendendo e aplicando o produto em seus consultórios. Recentemente, uma paciente
desenvolveu insuficiência respiratória e renal, precisando ser entubada, após
uma dessas aplicações.
A medicina é uma arte ética baseada em rigorosa evidência
científica, exigindo caráter e honestidade em sua prática. Esta se estende a
outras áreas da saúde, como enfermagem, nutrição, odontologia e biomedicina.
A exploração do cliente apenas por motivos financeiros é uma
miséria moral de nossos tempos e deve ser enfrentada pela sociedade. A beleza
pode ser ajustada, mas a servidão a um padrão torna-se um meio de exploração
para aproveitadores de todas as áreas.