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Welligton Freire

Quando a América Latina se Torna Palco: o Brasil e a Era das Grandes Potências

Welligton Freire - 16 de Janeiro de 2026 | 16h 07
Quando a América Latina se Torna Palco: o Brasil e a Era das Grandes Potências
Foto: Reprodução/CCN

A operação dos Estados Unidos na Venezuela não é um incidente isolado, mas um marco na redefinição das zonas de influência no Hemisfério Ocidental, projetando uma nova era de competição global. O Brasil, maior potência da América do Sul, enfrenta uma tríplice tensão: proteger sua soberania, liderar regionalmente e negociar com potências globais cada vez mais assertivas. Para tanto, é necessário desenvolver uma dissuasão híbrida, que combine política externa, defesa estratégica e resiliência econômica, sem se submeter a pressões externas ou replicar práticas intervencionistas.

A captura de Nicolás Maduro por forças americanas evoca recorrências históricas que remontam à Doutrina Monroe, concebida em 1823, quando o Brasil consolidava-se como Estado independente, e ao Corolário Roosevelt, com sua política do “grande porrete”, que institucionalizou a intervenção militar americana na região. Ao longo da história, o Brasil navegou entre resistência à interferência externa e colaboração estratégica com potências hegemônicas, seja durante a Guerra Fria, seja na integração econômica do MERCOSUL, construindo uma memória de prudência e equilíbrio que torna a situação atual singular. A ação americana em Caracas projeta um precedente que combina força militar, pressão política e narrativa de legitimidade global, ameaçando o equilíbrio tradicional da região.

O conceito de segurança hemisférica, tradicionalmente associado à presença militar, precisa ser repensado diante de ameaças híbridas que incluem fluxos migratórios descontrolados, tráfico de armas e ataques cibernéticos, exigindo respostas multidimensionais. O Brasil tem reforçado suas fronteiras com a Venezuela e a Colômbia, integrando Exército, Marinha e Aeronáutica em exercícios de interceptação e vigilância, mas a experiência histórica demonstra que tanques e navios não bastam. A integração de inteligência, a cooperação regional e a coordenação com órgãos civis são fundamentais para dissuadir crises sem gerar escaladas desnecessárias. O historiador militar Clausewitz já advertia que “a guerra é a continuação da política por outros meios”, e, no caso brasileiro, a dissuasão deve incorporar política econômica, diplomacia e narrativa estratégica, além da força física.

A operação em Caracas revela que a hegemonia americana combina ação militar com pressão econômica e política. Para o Brasil, isso se traduz em vulnerabilidades indiretas, que vão desde possíveis sanções e monitoramento eleitoral até interferência em decisões judiciais e ameaças cibernéticas. Essa realidade exige resiliência híbrida, articulando diversificação econômica para reduzir dependência de potências externas, diplomacia ativa e multilateral para reforçar autonomia regional, e fortalecimento tecnológico e cibernético para garantir a proteção de infraestrutura crítica. Trata-se não de neutralidade passiva, mas de protagonismo estratégico, construindo uma soberania prática e operacional, e não apenas simbólica.

Além das implicações regionais, a operação americana projeta efeitos globais. Rússia e China podem interpretar o precedente como justificativa para ações em suas respectivas esferas de influência, como Taiwan e Ucrânia, e a narrativa de “direito de intervir para proteger interesses estratégicos” ameaça normas internacionais, corroendo o multilateralismo tradicional. Para o Brasil, essa nova configuração multipolar exige flexibilidade diplomática, combinando pragmatismo, liderança regional e capacidade de mediação entre blocos globais em disputa. A história demonstra que países médios que ignoram a multipolaridade correm risco de isolamento ou coerção externa, e que a prudência estratégica é uma forma de poder em si.

A segurança hemisférica brasileira não se define apenas por força militar. É, antes, uma questão de autonomia estratégica, sustentada por política externa inteligente, resiliência econômica e capacidade de mediar conflitos regionais. A operação americana na Venezuela não representa apenas um risco; oferece ao Brasil a oportunidade de reafirmar sua liderança regional, desenvolver dissuasão híbrida e consolidar uma política externa independente, capaz de proteger seus interesses sem replicar práticas intervencionistas externas. Em suma, a nova ordem hemisférica exige do Brasil não apenas força, mas visão estratégica, sofisticação política e disciplina histórica, atributos que determinarão se a região será protagonista de seu próprio destino ou mero palco de disputas entre grandes potências.



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