A operação dos Estados Unidos na Venezuela não é um incidente
isolado, mas um marco na redefinição das zonas de influência no Hemisfério
Ocidental, projetando uma nova era de competição global. O Brasil, maior
potência da América do Sul, enfrenta uma tríplice tensão: proteger sua
soberania, liderar regionalmente e negociar com potências globais cada vez mais
assertivas. Para tanto, é necessário desenvolver uma dissuasão híbrida, que
combine política externa, defesa estratégica e resiliência econômica, sem se
submeter a pressões externas ou replicar práticas intervencionistas.
A captura de Nicolás Maduro por forças americanas evoca
recorrências históricas que remontam à Doutrina Monroe, concebida em 1823,
quando o Brasil consolidava-se como Estado independente, e ao Corolário
Roosevelt, com sua política do “grande porrete”, que institucionalizou a
intervenção militar americana na região. Ao longo da história, o Brasil navegou
entre resistência à interferência externa e colaboração estratégica com
potências hegemônicas, seja durante a Guerra Fria, seja na integração econômica
do MERCOSUL, construindo uma memória de prudência e equilíbrio que torna a
situação atual singular. A ação americana em Caracas projeta um precedente que
combina força militar, pressão política e narrativa de legitimidade global,
ameaçando o equilíbrio tradicional da região.
O conceito de segurança hemisférica, tradicionalmente
associado à presença militar, precisa ser repensado diante de ameaças híbridas
que incluem fluxos migratórios descontrolados, tráfico de armas e ataques
cibernéticos, exigindo respostas multidimensionais. O Brasil tem reforçado suas
fronteiras com a Venezuela e a Colômbia, integrando Exército, Marinha e
Aeronáutica em exercícios de interceptação e vigilância, mas a experiência
histórica demonstra que tanques e navios não bastam. A integração de
inteligência, a cooperação regional e a coordenação com órgãos civis são
fundamentais para dissuadir crises sem gerar escaladas desnecessárias. O
historiador militar Clausewitz já advertia que “a guerra é a continuação da
política por outros meios”, e, no caso brasileiro, a dissuasão deve incorporar
política econômica, diplomacia e narrativa estratégica, além da força física.
A operação em Caracas revela que a hegemonia americana combina
ação militar com pressão econômica e política. Para o Brasil, isso se traduz em
vulnerabilidades indiretas, que vão desde possíveis sanções e monitoramento
eleitoral até interferência em decisões judiciais e ameaças cibernéticas. Essa
realidade exige resiliência híbrida, articulando diversificação econômica para
reduzir dependência de potências externas, diplomacia ativa e multilateral para
reforçar autonomia regional, e fortalecimento tecnológico e cibernético para
garantir a proteção de infraestrutura crítica. Trata-se não de neutralidade
passiva, mas de protagonismo estratégico, construindo uma soberania prática e
operacional, e não apenas simbólica.
Além das implicações regionais, a operação americana projeta
efeitos globais. Rússia e China podem interpretar o precedente como
justificativa para ações em suas respectivas esferas de influência, como Taiwan
e Ucrânia, e a narrativa de “direito de intervir para proteger interesses
estratégicos” ameaça normas internacionais, corroendo o multilateralismo
tradicional. Para o Brasil, essa nova configuração multipolar exige
flexibilidade diplomática, combinando pragmatismo, liderança regional e
capacidade de mediação entre blocos globais em disputa. A história demonstra
que países médios que ignoram a multipolaridade correm risco de isolamento ou
coerção externa, e que a prudência estratégica é uma forma de poder em si.
A segurança hemisférica brasileira não se define apenas por
força militar. É, antes, uma questão de autonomia estratégica, sustentada por
política externa inteligente, resiliência econômica e capacidade de mediar
conflitos regionais. A operação americana na Venezuela não representa apenas um
risco; oferece ao Brasil a oportunidade de reafirmar sua liderança regional,
desenvolver dissuasão híbrida e consolidar uma política externa independente,
capaz de proteger seus interesses sem replicar práticas intervencionistas
externas. Em suma, a nova ordem hemisférica exige do Brasil não apenas força,
mas visão estratégica, sofisticação política e disciplina histórica, atributos
que determinarão se a região será protagonista de seu próprio destino ou mero
palco de disputas entre grandes potências.