A Síria está voltando ao Líbano?
Há frases que desaparecem do noticiário poucas horas depois
de pronunciadas. Outras, porém, possuem a estranha capacidade de despertar os
mortos. Quando Donald Trump sugeriu recentemente que Israel deveria deixar a
Síria "cuidar do Hezbollah", muitos observadores interpretaram a
declaração apenas como mais um episódio da diplomacia errática do presidente
americano. No entanto, para quem observa o Oriente Médio através da lente mais
ampla da história, aquela frase continha algo mais profundo. Ela evocava uma
memória política antiga, quase esquecida: a ideia de que o Líbano constitui uma
esfera natural de influência síria.
Não era apenas Trump falando. Eram séculos de história
sussurrando através dele. O Oriente Médio possui uma característica que
frequentemente escapa aos observadores ocidentais: ali, o passado raramente
está morto. Em muitos casos, ele sequer é passado.
Durante mais de quatrocentos anos, as terras que hoje
chamamos Síria e Líbano integraram o vasto corpo político do Império Otomano.
As fronteiras atuais simplesmente não existiam. Beirute, Damasco, Alepo e
Trípoli pertenciam a uma mesma estrutura imperial. As divisões nacionais que
hoje parecem naturais são, na verdade, construções relativamente recentes.
Foi apenas após a derrota otomana na Primeira Guerra Mundial
que a geografia política da região foi radicalmente redesenhada. Sob o sistema
de mandatos criado pelas potências vencedoras, a França recebeu o controle da
Síria e do Líbano. Coube aos administradores franceses traçar fronteiras, criar
instituições e, em certa medida, inventar Estados.
A independência não eliminou, contudo, as antigas percepções
geopolíticas. Para numerosos líderes sírios ao longo do século XX, o Líbano
jamais deixou de ser visto como parte de um espaço histórico comum. A
existência de um Estado libanês plenamente autônomo era frequentemente
percebida em Damasco menos como uma realidade permanente do que como uma
consequência temporária da intervenção colonial europeia.
Essa visão tornou-se especialmente evidente em 1976. Naquele
ano, em meio à devastação da Guerra Civil Libanesa, tropas sírias atravessaram
a fronteira sob o argumento de restaurar a ordem. Oficialmente, tratava-se de
uma missão de estabilização. Na prática, inaugurava-se quase três décadas de
predominância síria sobre a política libanesa.
Durante anos, nenhuma grande decisão em Beirute parecia
possível sem a aprovação de Damasco. Presidentes eram escolhidos sob influência
síria. Governos eram formados sob supervisão síria. Serviços de inteligência
sírios operavam amplamente em território libanês. A soberania formal do Líbano
coexistia com uma realidade muito mais complexa.
A retirada das tropas sírias em 2005, após o assassinato do
ex-primeiro-ministro Rafik Hariri e a intensa pressão internacional que se
seguiu, pareceu encerrar aquele ciclo histórico. Mas a história raramente
respeita os pontos finais que os diplomatas tentam impor.
Agora, em 2026, o simples fato de um presidente americano
cogitar a possibilidade de a Síria reassumir um papel central na contenção do
Hezbollah revela algo significativo. Não porque exista necessariamente um plano
concreto de retorno sírio ao Líbano, mas porque determinadas estruturas
históricas continuam disponíveis no imaginário estratégico da região.
Os nomes mudam. Os regimes caem. As bandeiras são
substituídas. Mas certas geografias políticas demonstram uma impressionante
capacidade de sobrevivência. O próprio Hezbollah, cuja existência molda o
debate atual, é em parte herdeiro desse longo entrelaçamento entre Síria,
Líbano e Irã. Da mesma forma, a queda de Bashar al-Assad não eliminou
automaticamente os interesses históricos de Damasco ao oeste de suas
fronteiras.
Talvez estejamos diante de uma das grandes lições da história
internacional: os impérios raramente desaparecem completamente. Eles permanecem
adormecidos nas memórias coletivas, nos mapas mentais dos estrategistas e nas
antigas rotas de influência que atravessam gerações.
Às vezes, basta uma crise para que esses velhos fantasmas
retornem à superfície. E então descobrimos que aquilo que julgávamos enterrado
estava apenas esperando. A pergunta que emerge do atual cenário do Levante é,
portanto, menos diplomática do que histórica. Os impérios realmente desaparecem
ou apenas aguardam, pacientemente, uma oportunidade para regressar?
A morte de um líder criminoso raramente significa o fim de uma organização
Os mortos continuam governando os vivos. Volto frequentemente
a essa ideia porque a história insiste em confirmá-la. Ela reaparece nos arquivos,
nos monumentos, nas guerras e, por vezes, nas manchetes dos jornais. A notícia
da morte de Héctor Rusthenford Guerrero Flores - o temido Niño Guerrero, líder
do Tren de Aragua - oferece mais uma oportunidade para refletirmos sobre uma
velha ilusão política: a crença de que a eliminação de um homem equivale à
destruição daquilo que ele representa.
É uma ilusão antiga. Talvez tão antiga quanto a própria
guerra. Ao longo dos séculos, governantes, generais e Estados depositaram
enorme confiança naquilo que os estrategistas modernos chamam
de decapitation strategy: a ideia de que a remoção da liderança produzirá
o colapso da organização inimiga. A lógica parece irrefutável. Se o chefe
desaparece, a estrutura perde direção. Se o comandante cai, o exército se
dispersa. Se o líder morre, a ameaça termina.
A história, contudo, costuma ser menos obediente às teorias.
Quando os romanos capturaram Vercingetórix após o cerco de Alésia, em 52 a.C.,
celebraram o triunfo sobre a resistência gaulesa. O líder arverno foi exibido
pelas ruas de Roma e posteriormente executado. O homem desapareceu. A memória
da resistência, porém, permaneceu viva por séculos.
Quando Marco Licínio Crasso esmagou a revolta de Espártaco,
milhares de corpos foram crucificados ao longo da Via Ápia. O escravo rebelde
desapareceu na poeira da história. Sua imagem, entretanto, atravessou dois
milênios e continua a simbolizar a rebeldia contra a opressão.
O mesmo fenômeno se repetiu em tempos mais recentes. A morte
de Lampião não encerrou o banditismo social no Nordeste. A morte de Pablo
Escobar não extinguiu o narcotráfico colombiano. A eliminação de Osama bin
Laden não significou o desaparecimento do jihadismo global. Os homens morrem.
As estruturas sobrevivem.
Talvez porque organizações não sejam apenas conjuntos de
indivíduos. São sistemas. São redes. São relações econômicas, sociais e
culturais. Possuem mecanismos de adaptação, sucessão e continuidade que
frequentemente independem da presença física de seus fundadores. Essa é uma das
lições mais desconfortáveis da história.
Gostamos de imaginar que os grandes acontecimentos são
produzidos por grandes indivíduos. É uma narrativa simples, quase épica. Ela
transforma conflitos complexos em dramas compreensíveis. Há heróis. Há vilões.
Há um protagonista cuja queda promete restaurar a ordem.
Mas a realidade raramente se organiza segundo as
conveniências da narrativa. O Tren de Aragua não surgiu porque Niño Guerrero
existia. O contrário parece mais próximo da verdade. Niño Guerrero emergiu
porque determinadas condições sociais, econômicas e institucionais permitiram o
surgimento do Tren de Aragua. A organização produziu o líder tanto quanto o
líder fortaleceu a organização.
Esse padrão repete-se continuamente. Os piratas do
Mediterrâneo sobreviveram à execução de inúmeros chefes. Os bandos de
mercenários atravessaram gerações de comandantes. Máfias italianas, cartéis
mexicanos e facções latino-americanas demonstraram notável capacidade de
adaptação diante da perda de lideranças.
O que desaparece é o rosto. O mecanismo permanece. Por essa
razão, as mortes de figuras como Niño Guerrero costumam possuir enorme valor
simbólico e efeitos operacionais reais, mas raramente representam o
encerramento definitivo do problema. Elas produzem impacto psicológico. Desorganizam
temporariamente cadeias de comando. Abrem disputas internas pelo poder. Criam
oportunidades para intervenções estatais.
Mas dificilmente eliminam as causas profundas que deram
origem à organização. Talvez exista aqui uma lição que a história procura
ensinar há séculos e que continuamos relutando em aprender. As guerras não são
travadas apenas contra homens. São travadas contra circunstâncias. Enquanto
essas circunstâncias permanecerem intactas, novos líderes surgirão para ocupar
os espaços deixados pelos antigos.
Por isso, quando leio notícias sobre a morte de chefes criminosos, lembro-me de algo que os historiadores conhecem bem: os mortos nem sempre abandonam o campo de batalha. Muitas vezes continuam presentes através das instituições, das memórias, das redes e das estruturas que ajudaram a construir. Os mortos continuam governando os vivos. E é precisamente por isso que a morte de um homem raramente encerra uma guerra. Ela apenas inaugura um novo capítulo dela.
O preço pago por aqueles que acreditam ser maiores que os limites
Os mortos continuam governando os vivos. Alguns deles exercem
esse governo de forma silenciosa. Outros, porém, retornam continuamente sob a
forma de advertência. Talvez nenhum conceito da Antiguidade tenha atravessado
os séculos com tanta vitalidade quanto a hybris. A palavra grega costuma
ser traduzida de maneira simplificada como orgulho, arrogância ou desmedida.
Todas essas traduções estão corretas. E todas são insuficientes.
A hybris é algo mais profundo. É a ilusão de que os limites
deixaram de existir. É o instante em que um homem passa a acreditar que sua
força o coloca acima da condição humana. É a embriaguez produzida pelo sucesso.
É a intoxicação da vitória. É a recusa em aceitar que até mesmo os mais
poderosos permanecem sujeitos à derrota, à velhice, ao acaso e à morte. Talvez
porque tenham sido uma civilização fascinada pela excelência. Ou talvez porque
compreendessem que toda busca pela grandeza traz consigo a possibilidade da
destruição. Por essa razão, a literatura grega está repleta de homens
extraordinários arruinados justamente por suas maiores virtudes.
Aquiles é o exemplo mais conhecido. Sua força física é
incomparável. Sua coragem parece ilimitada. Sua reputação aterroriza inimigos
antes mesmo do combate começar. Contudo, aquilo que o torna extraordinário é
também aquilo que o conduz ao desastre. Aquiles não aceita limites. Não aceita
a autoridade de Agamêmnon. Não aceita a condição de simples mortal. Não aceita
sequer a prudência. Quando retorna ao combate após a morte de Pátroclo, sua
fúria adquire proporções quase divinas. O guerreiro já não luta para vencer.
Luta para destruir. Luta para humilhar. Luta para afirmar sua superioridade
sobre homens e deuses. O resultado é inevitável. A glória chega. Mas a morte
também.
Na verdade, a tragédia grega inteira pode ser lida como uma
vasta meditação sobre esse mesmo tema. Édipo acredita poder escapar da
profecia. Agamêmnon acredita que a vitória militar o autoriza a tudo. Ajax
acredita que sua honra foi ferida de maneira intolerável. Creonte acredita que
sua autoridade está acima das leis não escritas. Todos caem. Não por serem
fracos. Caem porque se tornaram excessivamente fortes. Há uma diferença
importante. O fracasso raramente nasce da insuficiência. Frequentemente, nasce
do excesso.
Os gregos possuíam uma palavra para o limite que deveria
conter esse impulso destrutivo: métron. O homem virtuoso era aquele
capaz de reconhecer a própria medida. Aquele que compreendia a distância que
separa mortais e deuses .Aquele que sabia interromper o avanço antes do
precipício. A hybris começa exatamente quando o métron desaparece. Quando isso
acontece, a queda torna-se apenas uma questão de tempo.
É curioso perceber como essa antiga categoria moral continua
viva em nosso mundo. Mudaram os cenários. Mudaram as armas. Mudaram os
discursos. Mas a estrutura profunda permanece a mesma. Impérios sucumbem
frequentemente não por falta de poder, mas por excesso dele. Governantes deixam
de distinguir prudência de covardia. Empresários passam a acreditar que o
sucesso financeiro os torna infalíveis. Intelectuais confundem erudição com
sabedoria. Generais passam a enxergar a guerra como problema técnico facilmente
solucionável. Em todos esses casos encontramos a mesma lógica. A crença de que
a realidade pode ser dobrada à vontade humana.
A história, porém, possui um estranho senso de humor .Ela
costuma reservar suas maiores humilhações justamente para aqueles que se
imaginam invulneráveis. Napoleão entrou na Rússia convencido de que a Europa
estava derrotada. Hitler acreditou que podia travar uma guerra contra metade do
planeta simultaneamente.
Os arquitetos do Titanic declararam que haviam construído um
navio impossível de afundar. Em cada um desses episódios percebe-se algo que os
gregos reconheceriam imediatamente: a hybris. O excesso ou a perda da medida. A
intoxicação produzida pela própria grandeza.
Talvez seja por isso que Virgílio tenha construído Enéias
como o oposto de Aquiles. Enquanto o herói homérico avança impulsionado pelo
desejo de glória, o fundador mítico de Roma parece permanentemente consciente
de seus limites.
Ele hesita, reflete, duvida, sofre, carrega consigo uma
característica que os heróis gregos frequentemente desprezavam: a contenção. A
grande inovação virgiliana talvez resida justamente Não por acaso, Enéias
sobrevive. Aquiles torna-se uma lenda. Enéias torna-se fundador. Um conquista a
imortalidade da memória. O outro constrói uma cidade destinada a governar o
mundo.
Talvez essa seja a grande lição que os antigos tentaram
transmitir. A queda raramente começa no campo de batalha. Ela começa muito
antes. Começa no instante em que um homem deixa de reconhecer a própria
condição. Começa quando a prudência passa a parecer fraqueza. Começa quando a
moderação é confundida com mediocridade. Começa quando alguém olha para si
mesmo e já não enxerga limites. Nesse momento, a tragédia já começou.
Os gregos sabiam disso. Por essa razão transformaram a hybris
em uma das palavras mais importantes de sua civilização. Ela não era apenas uma
categoria moral. Era um aviso. Uma advertência dirigida a todas as épocas.
Inclusive à nossa. Porque os séculos passam. Os impérios desaparecem. As
cidades tornam-se ruínas. Mas a velha tentação de acreditar-se maior que os
limites continua tão viva quanto nos dias em que Aquiles caminhava pelas
planícies de Troia.
A névoa da guerra desapareceu ou apenas mudou de forma?
Há alguns mortos que se recusam a permanecer em seus túmulos. Continuam caminhando entre nós, silenciosos e atentos, observando os vivos repetirem velhos dilemas com novas ferramentas. Um desses mortos atende pelo nome de Carl von Clausewitz.
Imagino o velho general prussiano contemplando as imagens da
guerra contemporânea. Drones cruzam os céus do Oriente Médio. Satélites
monitoram continentes inteiros. Algoritmos processam milhões de dados em
questão de segundos. Inteligências artificiais identificam alvos, rastreiam
movimentações e produzem recomendações operacionais em velocidade impossível
para qualquer estado-maior do século XIX.
À primeira vista, parece que a antiga "névoa da
guerra" finalmente começou a se dissipar. Clausewitz definiu a guerra como
um reino de incertezas. O comandante jamais possui todas as informações
necessárias. Relatórios chegam atrasados. Informações contradizem-se
mutuamente. O inimigo esconde suas intenções. O acaso interfere nos planos mais
meticulosos. A guerra é o domínio da dúvida.
Durante séculos, generais sonharam em escapar dessa condição.
Sonharam com o campo de batalha transparente. Com a informação perfeita. Com a
capacidade de enxergar tudo. Talvez nunca tenhamos estado tão próximos desse
sonho.
Hoje, um operador pode acompanhar em tempo real a
movimentação de tropas localizadas a centenas de quilômetros de distância.
Sensores observam estradas, pontes, depósitos de combustível e centros
logísticos. Sistemas automatizados cruzam imagens, interceptações eletrônicas e
dados de geolocalização. O campo de batalha parece cada vez mais iluminado.
Mas talvez seja exatamente nesse ponto que o fantasma de
Clausewitz esboce um sorriso melancólico. Porque a informação abundante não
elimina necessariamente a incerteza.Em muitos casos, ela apenas a transforma.Os
comandantes do passado sofriam pela falta de dados. Os comandantes
contemporâneos frequentemente sofrem pelo excesso deles. A questão já não é
apenas obter informações. É saber quais delas merecem confiança.
O drone vê. O satélite registra. O algoritmo classifica. Mas
quem garante que a interpretação está correta? A inteligência artificial pode
identificar um caminhão. Pode estimar sua rota. Pode calcular probabilidades.
Contudo, continua existindo uma diferença fundamental entre reconhecer um
objeto e compreender uma intenção. A máquina pode dizer onde o inimigo está.
Nem sempre consegue explicar o que ele pretende fazer. E é precisamente
nesse espaço que nasce uma nova forma de névoa.
Não mais a névoa produzida pela ausência de informações, mas
aquela produzida pela ilusão de conhecimento absoluto. Toda tecnologia cria
suas próprias vulnerabilidades. Exércitos excessivamente dependentes de
sensores podem ser enganados por operações de camuflagem. Sistemas
automatizados podem amplificar erros de classificação. Algoritmos treinados em
guerras passadas podem interpretar mal situações inéditas.
A guerra continua sendo um duelo entre inteligências que
tentam enganar umas às outras. E nenhuma inteligência é mais criativa do que um adversário
lutando pela própria sobrevivência.
Talvez estejamos assistindo ao nascimento de uma nova etapa
da história militar. A névoa não desapareceu. Apenas mudou de composição. Já
não é formada apenas por silêncio, distância e falta de informações. Agora
também é composta por excesso de dados, falsas certezas e confiança excessiva
nos sistemas tecnológicos.
Os generais do século XXI enfrentam um paradoxo curioso.
Possuem mais informações do que qualquer comandante da história e, ainda assim,
continuam obrigados a decidir em condições de incerteza. Clausewitz
compreenderia isso imediatamente.
Porque a essência da guerra jamais esteve nos instrumentos
utilizados para travá-la. Não estava nos mosquetes, nos encouraçados, nos
tanques ou nos drones. A essência sempre residiu no conflito entre vontades
humanas. Enquanto seres humanos continuarem tomando decisões sob pressão,
medo, ambição e esperança, a névoa da guerra permanecerá conosco. Talvez mais
fina. Talvez mais tecnológica. Talvez produzida por linhas de código em vez de
fumaça de canhão. Mas ainda assim uma névoa.
E suspeito que, diante dos enxames de drones e dos algoritmos militares que prometem prever o futuro, o velho Clausewitz apenas ajustaria os óculos, observaria a cena e repetiria a mesma advertência de dois séculos atrás: na guerra, a certeza absoluta continua sendo a mais perigosa das ilusões.
*Nota: CLAUSEWITZ, Karl von. Da Guerra. São Paulo: Martins Fontes, 2010.
Há uma tendência recorrente em nossa época de acreditar que cada nova tecnologia militar inaugura uma guerra completamente nova. O surgimento dos drones, da inteligência artificial e dos sistemas autônomos parece reforçar essa impressão. As imagens que chegam da guerra entre Rússia e Ucrânia mostram pequenos artefatos voadores perseguindo caminhões em estradas distantes, identificando alvos por algoritmos e atacando depósitos de combustível a centenas de quilômetros da linha de frente. Para muitos observadores, trata-se do nascimento de uma nova era militar.
Mas a História costuma ser menos impressionável do que os noticiários. Por trás dos drones guiados por inteligência artificial empregados pela Ucrânia contra a logística russa, encontra-se uma ideia muito antiga. Tão antiga que remonta ao século XIX. Talvez até mais. Trata-se da percepção de que exércitos não sobrevivem apenas de coragem, patriotismo ou poder de fogo. Exércitos vivem de suprimentos. Alimentam-se de combustível, munição, alimentos, peças de reposição e fluxos contínuos de transporte. A guerra, em última instância, é uma disputa entre sistemas logísticos.
Ao ler as recentes declarações de oficiais ucranianos sobre a campanha de ataques contra caminhões, trens e tanques de combustível russos, não pude evitar a lembrança de uma figura histórica: o general William Tecumseh Sherman. Durante a Guerra Civil Americana, Sherman compreendeu algo que muitos de seus contemporâneos ainda relutavam em aceitar. A destruição do exército inimigo não era suficiente. Era necessário destruir também a infraestrutura que sustentava sua capacidade de continuar lutando.
Sua famosa Marcha para o Mar, que tanto me impressionou, realizada entre novembro e dezembro de 1864, não foi apenas uma operação de deslocamento militar. Foi uma campanha sistemática contra a capacidade logística da Confederação. Ferrovias foram arrancadas do solo, pontes destruídas, depósitos incendiados, armazéns esvaziados e centros de transporte reduzidos a ruínas.
Sherman não estava simplesmente atacando soldados. Estava atacando a circulação de recursos. Mais de um século e meio depois, a Ucrânia parece ter chegado à mesma conclusão. A diferença está apenas nos instrumentos empregados.
Sherman enviava colunas de infantaria para destruir trilhos ferroviários. Os ucranianos enviam drones equipados com inteligência artificial para localizar caminhões-tanque em movimento. Sherman derrubava pontes. Os operadores de drones procuram interromper corredores logísticos que ligam Rostov, Mariupol, Donetsk e a Crimeia. Sherman buscava sufocar o sistema circulatório da Confederação. Os ucranianos falam explicitamente em atingir aquilo que chamam de “o sangue da guerra”: o combustível.
Mudou a tecnologia. Permaneceu a lógica. Essa continuidade histórica revela algo importante. Frequentemente confundimos os meios com os fins. Ficamos fascinados pelos drones porque eles são novos. Mas os objetivos estratégicos que perseguem seriam perfeitamente compreensíveis para um comandante do século XIX.
Na verdade, talvez fossem compreensíveis até para um general romano. Os exércitos de Roma dependiam de estradas. Os exércitos napoleônicos dependiam de comboios. Os exércitos da Primeira Guerra Mundial dependiam de ferrovias. Os exércitos da Segunda Guerra Mundial dependiam de caminhões e combustíveis fósseis. Os exércitos do século XXI dependem de redes logísticas ainda mais complexas e vulneráveis. A forma muda, mas a dependência permanece.
Existe uma ironia histórica particularmente interessante nesse processo. Durante décadas, muitos analistas acreditaram que os avanços tecnológicos tornariam a logística menos relevante. A precisão dos armamentos, a velocidade das comunicações e a sofisticação dos sistemas de combate pareciam deslocar o foco para o campo tático. A guerra na Ucrânia demonstrou exatamente o contrário.
Quanto mais sofisticado se torna um exército, mais dependente ele se torna de uma cadeia logística extensa e frágil. Tanques precisam de combustível. Drones precisam de baterias. Sistemas eletrônicos precisam de geradores. Mísseis precisam ser transportados. Nenhuma inovação tecnológica aboliu essa realidade. Ao contrário, tornou-a ainda mais evidente.
Por isso, ao observarmos drones ucranianos perseguindo caminhões russos em estradas distantes, talvez não estejamos contemplando o futuro da guerra. Talvez estejamos observando uma de suas mais antigas verdades. Sherman teria compreendido imediatamente o que está acontecendo. Talvez até sorrisse diante da engenhosidade técnica dos novos meios. Mas reconheceria sem dificuldade a lógica subjacente. Afinal, aquilo que os drones fazem hoje não é muito diferente daquilo que suas tropas fizeram nas ferrovias da Geórgia em 1864.
A inteligência artificial impressiona. Os algoritmos despertam fascínio. Os drones ocupam as manchetes. Mas, por trás de toda essa modernidade, continua a mesma guerra. A velha guerra dos trilhos, das estradas, dos depósitos e dos suprimentos. A guerra que Sherman conhecia tão bem. A guerra que, aparentemente, nunca deixou de existir.
*Nota: em tempos de anti-intelectualismo o rigor de pesquisa faz-se mais do que nunca necessário. A Partir de hoje passo a incluir uma bibliografia mínima para cada artigo publicado. O que faço aqui são apenas esboços de análises mais aprofundadas. Os títulos ao fim de cada texto publicado funcionarão como um convite a um aprofundamento posterior por parte de um leitor interessado.