A recente premiação de Fabrício Oliveira pela Academia Brasileira de Letras convida a uma pergunta que ultrapassa a celebração circunstancial do prêmio: afinal, que tipo de poesia ele está escrevendo? A resposta talvez surpreenda. Embora profundamente enraizada na paisagem cultural da Bahia, a obra de Fabrício parece dialogar com uma tradição literária que, à primeira vista, estaria muito distante do Recôncavo: a tradição do gótico.
Quando pensamos em literatura gótica, imaginamos castelos em ruínas, abadias abandonadas, cemitérios enevoados, espectros que regressam do passado e personagens perseguidos por culpas ancestrais. Pensamos em autores como Edgar Allan Poe, Mary Shelley ou Bram Stoker. Pensamos, sobretudo, numa estética da decadência, da assombração e da persistência dos mortos sobre o mundo dos vivos.
Mas o que acontece quando esse imaginário abandona os castelos europeus e se instala entre rios, terreiros, açudes, roças e pequenas cidades do interior baiano? É precisamente nesse ponto que a poesia de Fabrício Oliveira se torna singular.
Na poética de Fabrício Oliveira não encontramos os cenários clássicos do gótico europeu. Encontramos Cruz das Almas, o Paraguaçu, as lavadeiras, os quintais, as casas antigas, os sinos das catedrais, os terreiros e a memória rural. Entretanto, tudo isso aparece atravessado por uma atmosfera de permanente inquietação. As cidades são habitadas por mortos. Os rios carregam presságios. As noites parecem possuir vontade própria. As sombras adquirem densidade quase física.
A morte, aliás, talvez seja a grande protagonista desse universo poético. Os mortos não desaparecem. Eles permanecem. Deslizam pelas ruas. Habitam as casas. Espreitam das janelas. Escorrem dos rios. Falam através dos ventos. O passado não é uma dimensão encerrada. É uma presença ativa, uma força que continua moldando a experiência dos vivos. Em diversos momentos, a sensação é de que estamos diante de uma geografia assombrada pela memória.
Essa característica aproxima Fabrício de uma tradição que não passa apenas pelo gótico europeu, mas também por autores latino-americanos como Juan Rulfo e Gabriel García Márquez. Em suas obras, os mortos continuam convivendo com os vivos porque a história não foi completamente resolvida. Há feridas abertas. Há lutos inacabados. Há vozes que não encontraram repouso.
E aqui emerge um elemento fundamental da poesia de Fabrício: a relação entre fantasma e história. Os espectros que percorrem seus poemas não são apenas figuras metafísicas. São também resíduos da experiência social brasileira. Em vários momentos surgem referências à escravidão, à pobreza rural, à violência agrária, à fome e às desigualdades que atravessam o interior do país. Quando o poeta afirma que sua cidade ainda possui “hálito de açoites”, não está evocando apenas uma imagem poética; está apontando para a sobrevivência histórica de um trauma coletivo.
Nesse sentido, seu gótico não nasce da imaginação escapista. Nasce da memória. Talvez por isso as facas ocupem posição tão central em sua obra. Elas aparecem como instrumento, metáfora, ameaça e destino. São objetos concretos do universo rural, mas também símbolos da violência inscrita na formação histórica do país. Em Fabrício, as facas cortam corpos, sonhos, lembranças e genealogias. Elas são a linguagem material da ferida.
Outro aspecto notável é a fusão entre imaginário cristão e religiosidade afro-brasileira. Oxum, Iansã, Exu, catedrais, sinos e imagens apocalípticas convivem no mesmo horizonte simbólico. Não se trata de mero sincretismo decorativo. Trata-se da construção de uma cosmologia própria, profundamente baiana, em que diferentes tradições espirituais dialogam na tentativa de compreender o sofrimento, a perda e a permanência dos mortos.
Talvez seja justamente aí que resida a originalidade de sua poesia. Fabrício Oliveira não transplantou o gótico europeu para a Bahia. Fez algo mais complexo. Recriou essa sensibilidade a partir das experiências históricas, culturais e afetivas do Recôncavo. Seus fantasmas não habitam castelos medievais. Caminham por estradas de terra. Suas ruínas não são abadias inglesas. São cidades marcadas pela escravidão, pela pobreza e pela erosão do tempo. Seus espectros não emergem de lendas aristocráticas. Nascem da memória coletiva de um país que ainda convive com muitos dos seus mortos.
É por isso que sua poesia produz uma impressão tão duradoura. Ao ler seus versos, compreendemos que o Recôncavo de Fabrício Oliveira não é apenas uma paisagem. É uma assombração. E talvez toda grande literatura comece exatamente aí: quando uma região deixa de ser geografia e se transforma em destino.
Durante boa parte do século XX, bastava olhar para o Golfo Pérsico para compreender a direção da política mundial. Os grandes conflitos, as alianças militares, as disputas energéticas e as crises diplomáticas pareciam convergir para aquela estreita faixa de mar entre a Península Arábica e o Irã. O petróleo transformou uma região periférica em centro gravitacional da geopolítica global.
Mas a História possui o hábito de deslocar seus eixos. Enquanto o olhar do mundo permanece voltado para a Ucrânia, Taiwan ou o Oriente Médio, um movimento silencioso ocorre nas latitudes extremas do planeta. Rússia, OTAN, Estados Unidos e, em menor medida, China, voltam suas atenções para o Ártico. Novas bases são construídas. Tropas são deslocadas. Exercícios militares multiplicam-se. Satélites vigiam regiões que, há poucas décadas, eram vistas apenas como desertos de gelo.
A pergunta, portanto, deixa de parecer extravagante: estaria o século XXI transferindo seu centro estratégico para o extremo norte?
A hipótese merece ser considerada. O Ártico concentra uma combinação rara de fatores geopolíticos. Há reservas expressivas de petróleo e gás natural ainda pouco exploradas. Há jazidas de minerais estratégicos indispensáveis para a indústria tecnológica contemporânea. Há recursos pesqueiros valiosos. E, sobretudo, há algo que sempre moveu os impérios: rotas.
Durante séculos, a geografia impôs limites severos à navegação polar. O gelo funcionava como uma muralha natural. Contudo, o aquecimento global vem alterando essa realidade. À medida que as calotas recuam, corredores marítimos antes inacessíveis tornam-se navegáveis por períodos cada vez maiores do ano.
Quem controlar essas rotas controlará parte significativa do comércio do futuro. A História oferece precedentes eloquentes. Veneza floresceu porque dominou os caminhos do Mediterrâneo oriental. Portugal tornou-se potência ao abrir as rotas oceânicas do Atlântico. O Império Britânico ergueu-se sobre o controle dos estreitos e mares que ligavam continentes. Em todos esses casos, a prosperidade derivou da capacidade de controlar fluxos.
O Ártico pode estar prestes a tornar-se um novo espaço de circulação global.
Não surpreende, portanto, que a Rússia esteja investindo pesadamente na região. Para Moscou, o Ártico não é apenas uma fronteira distante; é uma dimensão fundamental de sua segurança nacional. A maior parte da costa ártica pertence ao território russo. Seus submarinos nucleares operam ali. Seus recursos energéticos dependem daquela área. O Kremlin enxerga o norte como uma extensão natural de seu poder.
A reação da OTAN segue uma lógica igualmente previsível. A entrada da Finlândia e da Suécia na aliança alterou profundamente o equilíbrio estratégico do norte europeu. O que antes era uma região relativamente estável tornou-se uma nova linha de contato entre forças militares rivais.
Há, entretanto, uma ironia histórica nessa transformação. O interesse pelo Ártico nasce, em parte, de um fenômeno que ameaça a própria estabilidade do planeta. O derretimento das geleiras, frequentemente apresentado como uma tragédia ambiental, converte-se simultaneamente em oportunidade econômica e militar. O gelo recua e os exércitos avançam.
Talvez este seja o aspecto mais revelador da questão. A geopolítica raramente tolera vazios. Quando uma nova fronteira se abre, os Estados logo se apressam em ocupá-la. Foi assim nas Américas do século XVI. Foi assim na África do século XIX. Foi assim no espaço durante a Guerra Fria. E pode estar acontecendo novamente no Ártico.
Não sabemos se o extremo norte substituirá o Oriente Médio como principal palco das disputas internacionais. A História dificilmente opera por substituições tão simples. Mas há sinais claros de que uma nova centralidade está emergindo. O mapa estratégico do século XXI está sendo redesenhado diante de nossos olhos.
E, talvez, o futuro da política mundial esteja menos sob o sol escaldante dos desertos árabes e mais sob as luzes silenciosas da aurora boreal.
Quando milhares morrem para que tudo volte ao ponto de partida
Às vezes, a História registra guerras que mudam o mundo.
Outras vezes registra guerras que apenas ampliam cemitérios. A pergunta parece
brutal. Mas ela se impõe sempre que os canhões silenciam, os diplomatas
retornam às mesas de negociação e os sobreviventes começam a contar os mortos:
para que serviu a guerra?
O recente acordo entre Estados Unidos e Irã recolocou essa
velha interrogação no centro da cena internacional. Depois de meses de
confrontos, milhares de mortos, cidades atingidas, navios ameaçados e mercados
em pânico, o mundo assiste a uma situação curiosamente familiar. O estreito de
Ormuz volta a ser aberto à navegação. As negociações sobre o programa nuclear
iraniano retornam à pauta. O regime de Teerã permanece no poder. Tudo isso
já existia antes da guerra.
Naturalmente, nenhuma guerra termina exatamente como começou.
Há sempre destruições, deslocamentos humanos, traumas e transformações
invisíveis. Mas a questão estratégica permanece. Quando observamos os objetivos
declarados pelos protagonistas do conflito e os comparamos com os resultados alcançados,
surge uma desconfortável sensação de circularidade histórica. Como se a
violência tivesse percorrido um vasto arco apenas para regressar ao ponto de
partida.
A História está repleta desses movimentos circulares. Em
1953, a Guerra da Coreia terminou praticamente onde havia começado. Depois de
três anos de combate e milhões de mortos, a fronteira permaneceu próxima ao
Paralelo 38. O mapa pouco mudou. Os cemitérios, porém, multiplicaram-se.
Entre 1980 e 1988, Irã e Iraque travaram uma das guerras mais
sangrentas do século XX. O conflito consumiu quase uma geração inteira de
jovens dos dois países. Quando terminou, as fronteiras eram praticamente as
mesmas do início. O território disputado continuava onde sempre estivera. O que
havia mudado era a paisagem humana.
O mesmo poderia ser dito sobre a longa aventura americana no
Afeganistão. Após vinte anos de ocupação, milhares de vidas perdidas e trilhões
de dólares gastos, o Talibã retornou ao poder. Em muitos aspectos, a situação
política fundamental do país voltou a se parecer com a existente antes da
invasão de 2001.
Os romanos conheceram experiência semelhante nas florestas da
Germânia. Durante séculos, legiões atravessaram o Reno em campanhas sucessivas.
Venceram batalhas, incendiaram aldeias, ergueram monumentos à vitória. Contudo,
a fronteira imperial permaneceu no mesmo lugar. A Germânia continuou sendo a
Germânia. O império descobriu, lentamente, que nem toda vitória militar produz
uma transformação política duradoura.
Clausewitz observou que a guerra é a continuação da política
por outros meios. A frase tornou-se célebre porque contém uma verdade
inquietante: o valor de uma guerra não pode ser medido apenas pelos seus êxitos
militares. Ele depende daquilo que a guerra consegue produzir politicamente.
É justamente aí que reside a tragédia de muitos conflitos.
Exércitos podem conquistar cidades, destruir bases inimigas e dominar os céus.
Ainda assim, fracassar em alcançar os objetivos que justificaram o recurso às
armas.
Talvez seja por isso que as guerras frequentemente produzam
uma estranha ilusão retrospectiva. Durante o conflito, tudo parece decisivo.
Cada batalha é apresentada como um momento histórico. Cada ofensiva é anunciada
como o prelúdio de uma nova era. Mas, quando a poeira baixa, os historiadores
descobrem algo desconcertante: muitas vezes os acontecimentos retornaram ao
mesmo lugar de onde partiram.
O mundo contemporâneo parece particularmente vulnerável a
esse tipo de impasse. As grandes potências possuem meios extraordinários de
destruição, mas uma capacidade cada vez menor de moldar realidades políticas
complexas. A força continua sendo capaz de derrubar edifícios. Tornou-se muito
menos eficaz para reconstruir sociedades.
Talvez a pergunta mais importante não seja quem venceu ou
quem perdeu a recente guerra entre Estados Unidos e Irã. A questão
verdadeiramente histórica é outra.
Quando as futuras gerações olharem para este conflito, verão
nele uma transformação genuína da ordem internacional ou apenas mais um
episódio da longa coleção de guerras que começaram com promessas grandiosas e
terminaram devolvendo o mundo ao mesmo lugar?
Os mortos, infelizmente, já não poderão responder. Mas a
História continuará fazendo a pergunta. E ela costuma ser implacável com
guerras cujos resultados não justificam o preço pago por elas.
Nota: ao leitor interessado em aprofundar aquilo que aqui é
meramente esboço, recomendo o clássico estudo de ARON, Raymond. A Paz e a
Guerra Entre as Nações. Brasília: UNB, 2002.
Quando uma potência emergente começa a falar em nome da ordem mundial
Durante grande parte da história moderna, houve uma curiosa
regularidade na linguagem do poder. As potências dominantes raramente se
apresentavam como dominantes. Preferiam falar em nome da ordem, da
estabilidade, da civilização ou da paz. Os impérios quase nunca se descrevem
como impérios. Descrevem-se como guardiões de uma necessidade universal.
No século XIX, era Londres. A Grã-Bretanha controlava
oceanos, rotas comerciais e mercados, mas justificava sua posição como uma missão
destinada a garantir a liberdade dos mares e o equilíbrio europeu. Paris, em
diferentes momentos, reivindicou para si a condição de porta-voz dos valores
universais da Revolução. Após 1945, foi a vez de Washington assumir a linguagem
da ordem internacional, das instituições multilaterais e da estabilidade
global.
Agora, um fenômeno singular parece desenhar-se diante de
nossos olhos. É Pequim que começa a falar em nome da governança mundial. A
recente defesa chinesa de uma ampla reforma da ONU, acompanhada de críticas ao
unilateralismo e à chamada "lei da selva", possui um significado que
ultrapassa a diplomacia cotidiana. Não se trata apenas de um documento
burocrático ou de uma disputa protocolar dentro das Nações Unidas. O que emerge
ali é algo mais profundo: a tentativa de uma potência ascendente de ocupar o
espaço simbólico que durante décadas pertenceu aos Estados Unidos.
Os símbolos importam. Muitas vezes, importam mais do que
tanques, porta-aviões ou mísseis. Quando um Estado passa a apresentar-se como
defensor da ordem internacional, ele está reivindicando uma forma superior de
autoridade. Não deseja apenas ser poderoso. Deseja ser reconhecido como
legítimo. Há uma diferença fundamental entre possuir força e possuir a
capacidade de definir quais usos da força são aceitáveis.
Os romanos compreenderam isso melhor do que ninguém. Roma não
afirmava conquistar povos para enriquecer suas elites ou expandir sua
influência. Declarava estar impondo a pax romana. O império era
apresentado como uma forma de ordem. Os vencidos podiam discordar. A narrativa
permanecia.
Algo semelhante ocorreu com o Império Britânico. E, mais
tarde, com os Estados Unidos. A liderança internacional dependia não apenas da
superioridade material, mas da capacidade de convencer outros povos de que seus
interesses particulares coincidiam com interesses universais.
É precisamente nesse terreno que a China parece avançar. O
aspecto mais interessante da atual retórica chinesa não está na crítica aos
Estados Unidos. Potências emergentes sempre criticaram as potências
estabelecidas. Atenas criticou Esparta. A França napoleônica criticou a ordem
europeia criada pelas monarquias. A Alemanha do século XIX contestou a
supremacia britânica. Nada disso é novo.
O que chama atenção é que Pequim não fala a linguagem da
revolução. Fala a linguagem da preservação da ordem. Em vez de anunciar a
destruição das instituições existentes, propõe reformá-las. Em vez de rejeitar
a ONU, reivindica seu fortalecimento. Em vez de negar o multilateralismo, apresenta-se
como sua defensora.
Esse deslocamento revela uma transformação histórica
relevante. Durante décadas, observadores ocidentais imaginaram que a China
surgiria como uma potência revisionista disposta a demolir a arquitetura
internacional criada após a Segunda Guerra Mundial. O que vemos, contudo, é
algo diferente. Pequim parece desejar herdar essa arquitetura, não destruí-la.
A questão decisiva, portanto, não é se a China ficará mais
rica ou mais poderosa. Isso já está acontecendo há décadas. A pergunta realmente
importante é outra: quem terá autoridade para definir o significado da ordem
mundial ao longo do século XXI?
A resposta ainda está longe de ser clara. Os Estados Unidos
continuam sendo a maior potência militar do planeta. Sua influência tecnológica,
financeira e cultural permanece extraordinária. Mas a própria necessidade de a
China apresentar-se como defensora da governança global revela que algo está
mudando.
As grandes transições históricas costumam ser percebidas
primeiro na linguagem e apenas depois nas estruturas materiais. Antes de os
exércitos mudarem de posição, mudam as narrativas. Antes da transferência do
poder, ocorre a transferência da legitimidade.
Talvez seja cedo para afirmar que o século XXI será chinês.
Mas já não parece exagero afirmar que vivemos um momento em que Pequim começa a
disputar algo ainda mais valioso do que mercados ou territórios: o direito de
falar em nome do mundo. E toda vez que uma potência reivindica esse direito, a
história costuma estar entrando em uma nova era.
*Nota: ao leitor
interessado em aprofundar a discussão, remeto a: KISSINGER, Henry. “A
Diplomacia das Grandes Potências”. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1999.
Toda paz carrega a próxima crise dentro de si
Os jornais anunciam tratados. Os governos anunciam cessar-fogos. Os mercados comemoram. Os diplomatas sorriem diante das câmeras. Por alguns dias, talvez algumas semanas, instala-se a sensação de que a tempestade passou. Os comentaristas falam em "novo capítulo", os investidores celebram a redução dos riscos e as sociedades exaustas permitem-se acreditar que o pior ficou para trás.
Mas a história, assim como eu, possui o desagradável hábito de desconfiar das celebrações prematuras. Ela sabe que a maioria das guerras não termina realmente quando os homens proclamam a paz apenas muda de forma.
Convido o leitor a observar o Oriente Médio neste exato momento. Os Estados Unidos e o Irã anunciam um acordo destinado a encerrar uma das mais perigosas crises internacionais das últimas décadas. O estreito de Hormuz, cuja interrupção ameaçou o comércio global, caminha para uma reabertura gradual. Os mercados respiram aliviados. O espectro de uma guerra regional de grandes proporções parece ter recuado.
Contudo, basta olhar um pouco além dos comunicados oficiais para perceber que a paisagem permanece repleta de brasas acesas. O Hezbollah continua armado. As tropas israelenses continuam ocupando partes do sul do Líbano. A navegação em Hormuz ainda depende da remoção de minas marítimas. As disputas entre Teerã e seus adversários permanecem vivas. E, enquanto isso, milhares de quilômetros ao norte, a guerra na Ucrânia prossegue sem qualquer perspectiva clara de encerramento.
O que exatamente terminou? Talvez muito menos do que os anúncios sugerem.
Existe uma tendência recorrente, especialmente nas sociedades modernas, de imaginar a paz como uma condição definitiva. Como se os conflitos fossem acidentes temporários numa ordem naturalmente estável. Como se fosse possível estabelecer um momento preciso em que a guerra termina e a normalidade retorna.
Os historiadores, porém, costumam enxergar as coisas de maneira diferente. Eles sabem que os tratados raramente eliminam as causas profundas dos conflitos. Na melhor das hipóteses, administram seus sintomas. Congelam tensões. Criam mecanismos de contenção. Compram tempo. Mas o tempo não é a mesma coisa que a solução.
O Congresso de Viena, em 1815, prometia encerrar a era das guerras revolucionárias e napoleônicas. Conseguiu preservar uma relativa estabilidade europeia durante décadas. Ainda assim, sob a superfície da ordem restaurada, nacionalismos, rivalidades imperiais e disputas territoriais continuaram se acumulando até explodirem em novas crises.
O Tratado de Versalhes, em 1919, foi apresentado como a paz que encerraria todas as guerras. Menos de vinte anos depois, o mundo mergulhava em um conflito ainda mais devastador.
Mesmo a Guerra Fria, frequentemente descrita como um período de estabilidade estratégica, esteve repleta de conflitos indiretos, guerras civis, insurgências e disputas regionais que produziram milhões de mortos.
A paz, vista de perto, raramente é tão pacífica quanto parece.
Clausewitz talvez compreendesse isso melhor do que ninguém. Sua famosa definição da guerra como continuação da política por outros meios costuma ser citada à exaustão. Menos lembrada é a implicação inversa dessa ideia: a política frequentemente continua a guerra por meios diferentes.
Quando os combates cessam, as disputas não desaparecem. Mudam de terreno. Saem das trincheiras e entram nas negociações. Abandonam os campos de batalha para reaparecer nos mercados, nos tribunais internacionais, nos corredores diplomáticos ou nas campanhas de influência. Os instrumentos mudam. Os interesses permanecem.
É por isso que regiões como o Oriente Médio parecem viver em permanente estado de transição. Não porque estejam condenadas à guerra, mas porque carregam uma enorme concentração de conflitos históricos ainda não resolvidos.
Questões religiosas. Disputas territoriais. Memórias de derrotas. Humilhações nacionais. Ambições geopolíticas. Nenhum acordo assinado em uma mesa de negociações consegue apagar instantaneamente esse patrimônio de ressentimentos acumulados.
A mesma observação vale para a Ucrânia. Ainda que um cessar-fogo fosse assinado amanhã, ele não eliminaria os problemas que alimentaram a guerra. Apenas inauguraria uma nova fase da disputa.
Talvez o maior erro dos contemporâneos seja confundir silêncio com reconciliação. Os campos de batalha silenciam. Os exércitos recolhem-se. Os mercados recuperam a confiança. Mas a história continua trabalhando em profundidade.
Por isso, os historiadores costumam olhar para os tratados com menos entusiasmo do que os diplomatas. Eles sabem que os documentos celebrados como marcos da paz frequentemente se transformam, anos depois, nos prólogos de novos conflitos.
Os homens gostam de acreditar que encerraram uma guerra. A história, porém, costuma responder com ironia. Porque aquilo que uma geração chama de paz muitas vezes será reconhecido pelas gerações futuras apenas como um intervalo entre duas batalhas.
E talvez esta seja uma das verdades mais desconfortáveis da experiência humana: toda paz carrega, silenciosamente, a próxima crise dentro de si. Afinal, as guerras terminam nos mapas e nos comunicados oficiais. Mas raramente terminam na memória, nos interesses e nas ambições dos homens.
Nota: ao leitor interessado em aprofundar uma discussão sobre História Militar Moderna do Oriente Médio uma boa introdução está em\: FISK, Robert. Pobre Nação: As Guerras do Líbano no Século XX. Rio de Janeiro: Record, 2007