Na história moderna das grandes potências europeias, o
recurso à força constituiu elemento recorrente, embora não exclusivo, das
relações políticas interestatais. Entre a Paz de Westfália, em 1648, e o
encerramento da chamada era das revoluções, em 1848, a diplomacia europeia
organizou-se fundamentalmente em torno do princípio do equilíbrio de poder,
entendido como um sistema flexível de alianças, contenções e acomodações
destinado a impedir a consolidação de uma hegemonia continental duradoura.
Ainda assim, momentos de predominância estratégica não podem
ser ignorados: a Monarquia Hispânica sob Felipe II, a França de Luís XIV e o
império napoleônico representaram tentativas, em graus distintos e com
resultados desiguais, de ruptura desse equilíbrio. Na contemporaneidade, a
política externa da Rússia sob Vladimir Putin insere-se nessa tradição
revisionista, ao empregar a força militar como instrumento de reconfiguração do
status quo europeu, não com vistas à hegemonia continental clássica, mas à
erosão deliberada da ordem política e de segurança estabelecida após o fim da
Guerra Fria.
O colapso da União Soviética, em 1991, não deu origem a um
novo equilíbrio de poder no continente europeu, mas a uma assimetria
estratégica inédita, marcada pela dissolução de um polo sem a correspondente
reconstrução de um sistema inclusivo de segurança coletiva. A expansão gradual
da Organização do Tratado do Atlântico Norte em direção ao Leste, embora
justificada no discurso ocidental como processo defensivo e voluntário, foi
percebida em Moscou como um movimento de cerco estratégico, incompatível com as
premissas clássicas da estabilidade sistêmica.
Nesse contexto, a Ucrânia emergiu como espaço
geopolítico decisivo: não apenas um Estado soberano em processo de afirmação
nacional, mas um território-chave na disputa entre uma ordem europeia baseada
na ampliação da esfera atlântica e uma Rússia empenhada em preservar zonas de
influência consideradas vitais à sua segurança. A guerra, portanto, não resulta
de um desvio irracional ou de uma anomalia histórica, mas da erosão prolongada
de um equilíbrio já frágil, no qual a diplomacia cedeu lugar à lógica da
dissuasão, da coerção e, finalmente, do confronto armado.
A falência desse equilíbrio pós-1991 está ligada menos a
decisões isoladas do que a uma ilusão estrutural compartilhada pelas elites
políticas europeias: a crença de que a superação da bipolaridade significaria,
automaticamente, a superação da lógica do poder. A substituição do equilíbrio
pela expansão normativa, democracia liberal, economia de mercado e
institucionalismo multilateral, ocorreu sem o correspondente reconhecimento de
que grandes potências raramente abdicam de interesses estratégicos vitais em
nome de princípios abstratos. A Europa, ao terceirizar sua segurança aos
Estados Unidos e diluir sua autonomia estratégica no interior da OTAN, renunciou
ao papel histórico de mediadora e reguladora do sistema continental.
Nesse contexto, a Rússia pós-soviética experimentou
simultaneamente declínio material, retração territorial e perda de prestígio
internacional. A década de 1990, longe de inaugurar uma integração equilibrada
de Moscou à ordem europeia, consolidou um sentimento de humilhação estratégica,
agravado pela percepção de que compromissos tácitos haviam sido
desconsiderados. A partir dos anos 2000, sob Putin, esse ressentimento foi
gradualmente convertido em doutrina: reconstrução do Estado, revalorização do
poder militar e disposição crescente para empregar a força como instrumento
legítimo de política externa. A intervenção na Geórgia, a anexação da Crimeia
e, por fim, a guerra na Ucrânia inscrevem-se nessa trajetória.
A Ucrânia, por sua vez, tornou-se o ponto de fratura desse
processo não apenas por sua posição geográfica, mas por seu significado
simbólico e estratégico. Para o Ocidente, sua incorporação à esfera
euro-atlântica representaria a consolidação de uma Europa “inteira e livre”.
Para a Rússia, significaria a perda definitiva de profundidade estratégica, a
ruptura de laços históricos e a confirmação de um cerco geopolítico
irreversível. O conflito, assim, não é apenas territorial, mas civilizacional
no sentido estratégico do termo: envolve concepções incompatíveis de ordem,
segurança e legitimidade.
A guerra em curso expõe, de forma incontornável, a crise da
arquitetura de segurança europeia. A diplomacia preventiva falhou; os mecanismos
multilaterais revelaram-se impotentes; e o continente retornou a uma lógica que
julgava superada. Não se trata, contudo, de um simples retorno ao passado. O
atual cenário combina elementos clássicos, dissuasão, zonas de influência,
balanço de poder, com fatores novos, como a interdependência econômica, a
guerra híbrida e a centralidade da informação. O resultado é um sistema
instável, propenso à escalada e pobre em canais eficazes de acomodação.
Em última instância, a guerra na Ucrânia não representa uma
ruptura com a história europeia, mas sua continuidade mais sombria. O
continente que, após 1945, jurou ter aprendido com a própria devastação, voltou
a confundir estabilidade com negação do poder e paz com expansão normativa. Ao
recusar-se a reconhecer que o equilíbrio sempre foi o verdadeiro fundamento da
ordem europeia, substituiu a prudência estratégica pela ilusão de
irreversibilidade histórica. O resultado não foi a superação do conflito, mas
sua postergação até o momento em que ele retornasse sob formas mais violentas.
A tragédia não reside apenas na guerra em si, mas na
constatação de que ela era evitável apenas no plano retórico. Ignorar as
percepções de segurança de uma grande potência nunca foi receita para a paz;
foi, ao contrário, um convite à reação. Ao marginalizar a Rússia sem integrá-la
a um sistema efetivo de contenção e acomodação, a Europa renunciou ao papel que
historicamente lhe coube: o de administrar rivalidades antes que estas
degenerassem em catástrofe. O continente reaprende, assim, da maneira mais
custosa, uma lição antiga: quando o equilíbrio é abandonado em nome de
promessas abstratas, o vazio deixado por ele é invariavelmente preenchido pela
força.
Se a história ensina algo, é que ordens políticas não colapsam por malícia isolada, mas por cegueira coletiva. A guerra atual não é um acidente, nem uma anomalia moral, mas o sintoma tardio de uma arquitetura de segurança construída sobre pressupostos frágeis e expectativas irrealistas. A Europa, mais uma vez, encontra-se diante de seu dilema recorrente: reconstruir conscientemente um equilíbrio imperfeito, reconhecendo limites, interesses e assimetrias, ou persistir na recusa da realidade estratégica, condenando-se a reviver, sob novas roupagens, os ciclos de violência que marcaram sua própria formação histórica.
A História é mestra da vida, ensinava Heródoto de
Halicarnasso, e o historiador é uma espécie de profeta com os olhos voltados
para trás. Não prevê datas nem eventos, mas reconhece padrões, recorrências e
ilusões persistentes. O tempo histórico não se repete mecanicamente, mas
rima. E as rimas que hoje se acumulam no horizonte são difíceis de
ignorar. Como nuvens carregadas antes da tempestade, tensões se adensam
enquanto conceitos estratégicos outrora tratados como verdades consolidadas
revelam fissuras profundas diante de uma audiência global atônita.
Após o fim da Guerra Fria, difundiu-se no Ocidente a
confortável crença de que os grandes conflitos entre potências haviam sido
definitivamente superados. A expansão do liberalismo político, a globalização
econômica e a proliferação de instituições multilaterais alimentaram a
convicção de que a interdependência tornaria a guerra não apenas indesejável,
mas improvável. Esse otimismo, porém, tinha menos de conclusão histórica e mais
de autoengano estratégico. O que se viveu nas últimas décadas parece ter sido
não o “fim da História”, mas um interlúdio raro, e talvez irrepetível, entre
ciclos mais longos de rivalidade.
O atual rearranjo de poder no sistema internacional guarda
paralelos inquietantes com a chamada Paz Armada que antecedeu 1914. À
semelhança daquele período, assistimos a uma corrida armamentista acelerada,
hoje marcada por arsenais nucleares, capacidades cibernéticas e armamentos
hipersônicos, ao endurecimento de alianças, à reabilitação aberta do
nacionalismo e à multiplicação de crises periféricas usadas como testes de
força. A diferença crucial é conhecida: a dissuasão nuclear torna uma guerra
total improvável. Mas convém não confundir improbabilidade com impossibilidade.
A dissuasão não elimina o conflito; apenas o fragmenta, o desloca e o normaliza
sob formas indiretas, híbridas e regionalizadas. A ausência de uma guerra
mundial não equivale, em absoluto, à existência de paz.
O eco é ainda mais antigo. Tucídides identificou no medo de
Esparta diante da ascensão de Atenas o fator estrutural que tornou a Guerra do
Peloponeso quase inevitável. A chamada “armadilha de Tucídides”, popularizada
por analistas contemporâneos, ajuda a compreender a rivalidade sino-americana
ao expor o papel do medo, da desconfiança e da percepção de declínio relativo.
Tomá-la como determinismo, porém, seria um erro grave. Estruturas pressionam,
mas não absolvem. São as decisões políticas, frequentemente tomadas sob ilusões
de controle ou arrogância estratégica, que transformam tensões administráveis
em conflitos abertos.
O que se desenha hoje é o retorno explícito de práticas que
muitos preferiram acreditar superadas. Zonas de influência voltam a ser
reivindicadas sem pudor. Os Estados Unidos buscam preservar sua primazia global
e suas redes de alianças; a China afirma-se como potência revisionista no
Indo-Pacífico, tendo Taiwan como linha vermelha; a Rússia procura reconstruir
sua área de influência no espaço pós-soviético, com a Ucrânia como peça
central. Trata-se menos de um desvio ocasional e mais de um ressurgimento
imperialista do sistema internacional, fenômeno que o discurso
normativo insiste em negar, mas que a prática estratégica confirma diariamente.
Esse processo expõe a hipocrisia crescente de conceitos
centrais da retórica contemporânea. A chamada “ordem internacional baseada em
regras” subsiste, cada vez mais, como linguagem moral aplicada de forma
seletiva, dependente da correlação de forças e da conveniência política. O
direito internacional não desapareceu, mas tornou-se instrumento assimétrico. O
multilateralismo sobrevive, porém frequentemente esvaziado. Sanções econômicas
são apresentadas como alternativa civilizada à guerra, embora produzam efeitos
sistêmicos duradouros: aprofundam rivalidades, aceleram o desacoplamento
econômico e reforçam a lógica de blocos antagônicos. As crises regionais
funcionam como termômetros desse mundo em transição.
A guerra na Ucrânia desmontou de vez a fantasia de um cenário
pós-militar, recolocando o poder bélico convencional no centro da política
internacional. Taiwan configura um potencial ponto de ruptura sistêmica. Na
América Latina, a instabilidade venezuelana, as tensões diplomáticas regionais
e a crescente presença estratégica de potências extra-hemisféricas indicam que
o continente está longe de ser uma zona neutra. Como em outros momentos
históricos, as grandes rupturas raramente começam no centro do sistema: são
precedidas por conflitos localizados que testam limites, sondam reações e
redefinem linhas vermelhas.
As implicações desse cenário são claras, ainda que desconfortáveis. Caminhamos para um mundo marcado pela normalização da guerra limitada, pela aceitação tácita de esferas de influência e pela erosão progressiva do universalismo liberal que estruturou a ordem do pós-1945. Não se trata de anunciar catástrofes iminentes, mas de reconhecer que o vocabulário moral do último meio século já não descreve com fidelidade a realidade estratégica contemporânea. O papel do historiador, nesse contexto, não é o de profeta apocalíptico nem o de guardião de ilusões reconfortantes. Cabe-lhe advertir. A História não condena os homens à repetição mecânica, mas pune severamente a amnésia. Ignorar padrões recorrentes em momentos de transição e rearranjo de poder não é sinal de progresso, é, quase sempre, o primeiro passo para revivê-los sob novas e perigosas formas.
A operação dos Estados Unidos na Venezuela não é um incidente
isolado, mas um marco na redefinição das zonas de influência no Hemisfério
Ocidental, projetando uma nova era de competição global. O Brasil, maior
potência da América do Sul, enfrenta uma tríplice tensão: proteger sua
soberania, liderar regionalmente e negociar com potências globais cada vez mais
assertivas. Para tanto, é necessário desenvolver uma dissuasão híbrida, que
combine política externa, defesa estratégica e resiliência econômica, sem se
submeter a pressões externas ou replicar práticas intervencionistas.
A captura de Nicolás Maduro por forças americanas evoca
recorrências históricas que remontam à Doutrina Monroe, concebida em 1823,
quando o Brasil consolidava-se como Estado independente, e ao Corolário
Roosevelt, com sua política do “grande porrete”, que institucionalizou a
intervenção militar americana na região. Ao longo da história, o Brasil navegou
entre resistência à interferência externa e colaboração estratégica com
potências hegemônicas, seja durante a Guerra Fria, seja na integração econômica
do MERCOSUL, construindo uma memória de prudência e equilíbrio que torna a
situação atual singular. A ação americana em Caracas projeta um precedente que
combina força militar, pressão política e narrativa de legitimidade global,
ameaçando o equilíbrio tradicional da região.
O conceito de segurança hemisférica, tradicionalmente
associado à presença militar, precisa ser repensado diante de ameaças híbridas
que incluem fluxos migratórios descontrolados, tráfico de armas e ataques
cibernéticos, exigindo respostas multidimensionais. O Brasil tem reforçado suas
fronteiras com a Venezuela e a Colômbia, integrando Exército, Marinha e
Aeronáutica em exercícios de interceptação e vigilância, mas a experiência
histórica demonstra que tanques e navios não bastam. A integração de
inteligência, a cooperação regional e a coordenação com órgãos civis são
fundamentais para dissuadir crises sem gerar escaladas desnecessárias. O
historiador militar Clausewitz já advertia que “a guerra é a continuação da
política por outros meios”, e, no caso brasileiro, a dissuasão deve incorporar
política econômica, diplomacia e narrativa estratégica, além da força física.
A operação em Caracas revela que a hegemonia americana combina
ação militar com pressão econômica e política. Para o Brasil, isso se traduz em
vulnerabilidades indiretas, que vão desde possíveis sanções e monitoramento
eleitoral até interferência em decisões judiciais e ameaças cibernéticas. Essa
realidade exige resiliência híbrida, articulando diversificação econômica para
reduzir dependência de potências externas, diplomacia ativa e multilateral para
reforçar autonomia regional, e fortalecimento tecnológico e cibernético para
garantir a proteção de infraestrutura crítica. Trata-se não de neutralidade
passiva, mas de protagonismo estratégico, construindo uma soberania prática e
operacional, e não apenas simbólica.
Além das implicações regionais, a operação americana projeta
efeitos globais. Rússia e China podem interpretar o precedente como
justificativa para ações em suas respectivas esferas de influência, como Taiwan
e Ucrânia, e a narrativa de “direito de intervir para proteger interesses
estratégicos” ameaça normas internacionais, corroendo o multilateralismo
tradicional. Para o Brasil, essa nova configuração multipolar exige
flexibilidade diplomática, combinando pragmatismo, liderança regional e
capacidade de mediação entre blocos globais em disputa. A história demonstra
que países médios que ignoram a multipolaridade correm risco de isolamento ou
coerção externa, e que a prudência estratégica é uma forma de poder em si.
A segurança hemisférica brasileira não se define apenas por
força militar. É, antes, uma questão de autonomia estratégica, sustentada por
política externa inteligente, resiliência econômica e capacidade de mediar
conflitos regionais. A operação americana na Venezuela não representa apenas um
risco; oferece ao Brasil a oportunidade de reafirmar sua liderança regional,
desenvolver dissuasão híbrida e consolidar uma política externa independente,
capaz de proteger seus interesses sem replicar práticas intervencionistas
externas. Em suma, a nova ordem hemisférica exige do Brasil não apenas força,
mas visão estratégica, sofisticação política e disciplina histórica, atributos
que determinarão se a região será protagonista de seu próprio destino ou mero
palco de disputas entre grandes potências.
Enquanto multidões desafiam o regime iraniano nas ruas de
Teerã e de cidades periféricas do país, os Estados Unidos capturam o presidente
da Venezuela e declaram o direito de “governar” um Estado soberano até uma
transição considerada segura. À primeira vista, tratam-se de crises distintas,
separadas por geografia, cultura e história. Observadas em conjunto, porém,
elas expõem algo mais profundo: o retorno de uma ordem internacional marcada
pela instabilidade, pela força e pela suspensão seletiva das normas, uma
dinâmica que lembra a chamada “paz armada” que precedeu a eclosão da Primeira
Guerra Mundial.
As grandes rupturas da ordem internacional raramente começam
no centro do sistema. Antes de 1914, não foi Berlim, Londres ou Paris que
detonaram a crise geral, mas episódios periféricos, as crises do Marrocos, nos
confins do império colonial, e as guerras balcânicas, em regiões consideradas
instáveis e secundárias. Ainda assim, esses choques “laterais” foram
suficientes para expor a fragilidade das regras, das alianças e da capacidade
de contenção das grandes potências. Algo semelhante parece ocorrer hoje. À
primeira vista, os protestos que desafiam o regime iraniano e a captura do
presidente venezuelano Nicolás Maduro por forças dos Estados Unidos pertencem a
universos distintos. Observados em conjunto, porém, revelam um mesmo padrão:
Irã e Venezuela funcionam como elos fracos do sistema internacional, zonas onde
se testam os limites da tolerância global ao uso da força, à exceção jurídica e
à erosão das normas que estruturaram o pós-Guerra Fria.
No Irã, o que se desenrola já não pode ser compreendido como
mais um ciclo de protestos reprimidos pelo aparato estatal. A escala inédita
das manifestações, seu caráter nacional e transversal, atingindo grandes centros
e cidades periféricas, classes médias e regiões historicamente marginalizadas,
e, sobretudo, a ruptura simbólica com a figura do líder supremo indicam algo
mais profundo: uma crise de legitimidade. Essa crise interna se articula a um
contexto externo adverso. O Irã enfrenta isolamento regional, a perda ou
enfraquecimento de aliados estratégicos e pressões militares recentes que
abalaram o prestígio da Guarda Revolucionária, um dos pilares simbólicos do
regime. Estados pressionados simultaneamente por dentro e por fora tendem a
reagir de forma errática, o que amplia a instabilidade sistêmica.
Se o Irã expõe o colapso interno de um regime, a Venezuela
revela o enfraquecimento das regras externas. A captura de um chefe de Estado
em exercício por uma potência estrangeira constitui um evento sem precedentes
recentes. Não se trata apenas de uma operação contra Nicolás Maduro, mas de um
ataque direto ao princípio da soberania regulada por normas. A invocação
explícita da Doutrina Monroe, um artefato do século XIX, sinaliza um retorno a
uma lógica de esferas de influência e tutela direta, incompatível com a
retórica multilateral que marcou a ordem pós-1945. Ao declarar que os Estados
Unidos “governarão” a Venezuela até uma transição considerada segura,
Washington substitui o direito internacional por uma decisão soberana
unilateral. O perigo desse gesto não reside apenas no caso venezuelano, mas no
precedente que ele estabelece. Quando a exceção se torna aceitável, ela deixa
de ser exceção.
Irã e Venezuela também revelam outro fenômeno inquietante: o
esvaziamento prático dos sistemas de alianças. Rússia e China condenam as ações
americanas, mas evitam confrontos diretos. Moscou protesta, mas não protege;
Pequim critica, mas calcula. O padrão se repete: a queda do regime sírio aliado
da Rússia, a vulnerabilidade venezuelana, os ataques sofridos pelo Irã. As
alianças permanecem no discurso, mas falham na dissuasão. Antes de 1914, muitos
tratados tinham exatamente esse caráter: promessas cuja efetividade só seria
testada no momento crítico. Alianças que não dissuadem produzem insegurança, e
a insegurança, por sua vez, estimula apostas mais arriscadas.
Esse cenário é agravado por um traço comum às lideranças
envolvidas: a concentração extrema de poder decisório. Trump, Putin, Khamenei e
Maduro governam sistemas nos quais instituições funcionam como extensões da
vontade pessoal. A política externa assume contornos performáticos, marcada por
retórica maximalista, humilhação simbólica do adversário e decisões rápidas,
pouco filtradas por mecanismos de contenção. A analogia com a diplomacia de
corte do início do século XX é instrutiva. Quando a política internacional se
torna extensão do ego dos governantes, o risco de erros de cálculo cresce
exponencialmente. Talvez o aspecto mais perigoso do momento atual seja a
sensação de que tudo ainda pode ser administrado. Cada crise é absorvida,
relativizada, tratada como excepcional. Nenhuma, até agora, produziu uma guerra
geral. Foi exatamente essa confiança que marcou a Europa da chamada paz armada.
Sistemas internacionais raramente colapsam quando tudo falha de uma vez. Eles
colapsam quando todos acreditam que, apesar dos sinais, o risco ainda é
controlável.
Irã e Venezuela não explicam sozinhos o mundo atual, mas iluminam um padrão inquietante: a volta da força como linguagem legítima da política internacional e da exceção como método recorrente de ação. Como na Europa anterior a 1914, ninguém parece desejar conscientemente uma guerra de grandes proporções. Ainda assim, o acúmulo de crises, precedentes e ambiguidades sugere que o sistema voltou a conviver perigosamente com a instabilidade como norma. A história ensina que essa confiança, quase sempre, cobra um preço alto.
Uma cena surpreendente emergiu da mais recente onda de
protestos no Irã: a publicação, nas redes sociais, de vídeos do príncipe
herdeiro da antiga dinastia real. Reza Pahlevi, filho do último Xá – título do
monarca que governou o país antes da Revolução Islâmica de 1979 –, surgiu em
uma série de gravações posicionando-se como um líder da revolução no exílio.
Seu apelo é direto: convoca a população a persistir na insurreição até a
derrubada completa do regime teocrático. O paralelo histórico é irônico e cheio
de significado. Há menos de meio século, era um líder religioso carismático, o
Aiatolá Khomeini, quem, do exílio na França, dirigia uma campanha implacável
contra o Xá Reza Pahlevi, culminando na fuga do monarca e na instauração da
República Islâmica. Agora, testemunhamos um processo de erosão dessa mesma
revolução, enquanto um Pahlevi, do exílio, tenta reivindicar o papel de símbolo
máximo da alternativa ao regime. A história, parece, não se repete, mas ecoa de
forma perturbadora, abrindo espaço para a remota, porém publicamente evocada,
possibilidade de restauração de dinastias depostas.
A história recente do Oriente Médio demonstra que a queda de
regimes autoritários fortemente centralizados, sobretudo aqueles sustentados
por estruturas militares ideologizadas, tende a produzir mais instabilidade do
que democratização. No Iraque, a deposição de Saddam Hussein em 2003, conduzida
pela intervenção anglo-americana e pela dissolução deliberada do Exército e do
Partido Baath, resultou na desarticulação completa do aparato estatal, criando
um vácuo de poder explorado por milícias sectárias, pela Al-Qaeda no Iraque e,
posteriormente, pelo Estado Islâmico. A ausência de um plano de estabilização
pós-conflito e a lógica da de-Baathificação transformaram uma
derrota militar rápida em um conflito assimétrico prolongado, cujos efeitos
ainda se fazem sentir duas décadas depois.
Na Líbia, a derrubada de Muammar Kadafi em 2011, no contexto
das chamadas Primaveras Árabes e sob cobertura aérea da OTAN, seguiu trajetória
semelhante. A eliminação do líder não foi acompanhada da preservação de instituições
coercitivas nacionais, o que levou à fragmentação do monopólio da força, com o
surgimento de governos paralelos, milícias tribais e grupos jihadistas. O país
converteu-se em um espaço de guerra por procuração, envolvendo potências
regionais e globais, evidenciando os limites da doutrina de “intervenção
humanitária” quando dissociada de um projeto político-institucional de longo
prazo. A Síria oferece um modelo distinto, porém igualmente revelador. A partir
de 2011, o regime de Bashar al-Assad optou pela militarização total da crise,
sustentando-se por meio da lealdade das Forças Armadas, do apoio de milícias
aliadas e da intervenção direta da Rússia e do Irã. O resultado foi a
preservação formal do Estado, mas ao custo de uma soberania fraturada, com áreas
controladas por atores externos e não estatais. Trata-se de um exemplo clássico
de conflito híbrido e congelado, no qual a sobrevivência do regime não
corresponde à restauração da ordem nacional.
O Irã reúne elementos dos três casos, mas em escala mais
complexa. Diferentemente do Iraque de 2003, o país não enfrenta uma intervenção
externa direta; contudo, como na Líbia, observa-se uma erosão interna da
legitimidade do regime. Ao mesmo tempo, à semelhança da Síria, Teerã mantém um
aparato militar altamente politizado, em especial a Guarda Revolucionária
Islâmica, treinado em doutrinas de guerra assimétrica, repressão interna e
projeção regional. Essa capacidade reduz a probabilidade de colapso imediato,
mas aumenta o risco de um processo prolongado de desgaste, com ciclos de
repressão, insurgência difusa e radicalização. Dessa forma, a hipótese mais
plausível não é a de uma transição ordenada nem a de uma restauração monárquica
clássica, mas a de uma crise prolongada de autoridade, capaz de comprometer a
coesão do Estado iraniano e desestabilizar os equilíbrios regionais. Tal
cenário reforça a tese de que o Irã pode tornar-se mais um epicentro da crise
da Nova Ordem Internacional, na qual regimes colapsam ou sobrevivem de forma
disfuncional, enquanto o sistema internacional revela-se incapaz de administrar
transições, conter guerras internas ou evitar a disseminação do caos para além
das fronteiras nacionais.
Portanto, o discurso do príncipe Pahlevi é menos uma solução
e mais um indicador da magnitude da crise de sucessão política que se abre no
Irã. A revolução islâmica, como projeto geracional e ideológico, mostra sinais
de exaustão. No entanto, as instituições coercitivas que ela criou são robustas
e têm interesses vitais a defender. A hipótese de uma transição pacífica para
uma monarquia constitucional ou uma república democrática parece remota face à
história militar recente da região. O diagnóstico aponta para um longo inverno
de turbulência. A alternativa mais realista não está entre a república islâmica
e a monarquia, mas entre diferentes graus de desordem controlada e colapso
violento. O regime pode se manter, cada vez mais autoritário e menos
ideológico, em um estado de conflito latente com sua própria população. Ou pode
rachar, desencadeando uma luta pelo poder dentro do establishment que abriria
as portas para uma desintegração tipo líbia, porém em uma escala geopolítica
infinitamente mais perigosa. A comunidade internacional, fracturada e sem
consenso, mostra-se incapaz de gerir tais transições, como a história recente
prova. O mundo pode, mais uma vez, ser pego de surpresa por um terremoto
geopolítico no Irã, limitando-se a reagir aos destroços, em vez de moldar um
resultado estável. O regresso do Xá, como ideia, é um espelho das aspirações de
ruptura de muitos iranianos. Mas o espectro que verdadeiramente ronda o Irã e a
região é o do vazio de poder e da guerra multifacetada, heranças malditas das
transições traumáticas no Oriente Médio do século XXI.
A crise iraniana não se anuncia como revolução redentora nem como simples continuidade autoritária, mas como um interregno perigoso, no qual o velho perdeu sua legitimidade e o novo é incapaz de nascer. Nesses momentos, a história ensina, não triunfam projetos, mas forças. O retorno simbólico de um Pahlevi não é sinal de restauração, mas de esgotamento: quando o passado é convocado como futuro, é porque o presente entrou em colapso. O verdadeiro espectro que ronda o Irã não é o da monarquia nem o da república islâmica, mas o da dissolução do poder político como princípio ordenador. E quando o poder se fragmenta em sociedades armadas, a violência deixa de ser exceção e se converte em método. O Oriente Médio do século XXI já conhece bem esse roteiro, e o sistema internacional, mais uma vez, parece condenado a assistir à tragédia sem coro, sem catarse e sem saída.