O maior inimigo nem sempre veste o uniforme do adversário.
A história militar costuma celebrar batalhas. Monumentos lembram generais, mapas registram avanços de tropas, livros narram cercos, desembarques e grandes ofensivas. Mas existe outra guerra, quase sempre silenciosa, travada muito antes do primeiro tiro. É a guerra da informação. A guerra da infiltração. A guerra da inteligência e da contrainteligência.
Os jornais americanos e ingleses mencionam uma notícia que parece ter passado despercebida: a condenação à prisão perpétua do coronel ucraniano Dmytro Kozyura por espionagem em favor do serviço secreto russo. Esse acontecimento recorda uma verdade antiga: um exército pode sobreviver a derrotas em campo, mas dificilmente resiste quando o inimigo passa a conhecer seus planos, seus pontos fracos e o funcionamento de sua própria estrutura. O maior perigo nem sempre vem da trincheira à frente. Às vezes, ocupa uma sala ao lado.
Essa não é uma novidade do século XXI. É uma constante da história militar. Há mais de dois mil anos, Sun Tzu afirmava que "conhecer o inimigo e conhecer a si mesmo" era a essência da vitória. Não por acaso, dedicou um capítulo inteiro de A Arte da Guerra aos espiões. Para ele, nenhum comandante prudente deveria economizar recursos na obtenção de informações. O investimento mais valioso de uma campanha não era necessariamente um novo exército, mas uma boa rede de inteligência.
Os romanos compreenderam isso com igual clareza. Muito antes da criação dos modernos serviços secretos, o Império mantinha uma complexa estrutura de mensageiros, exploradores e informantes espalhados pelas províncias. As legiões marchavam acompanhadas por reconhecimento permanente do terreno e das intenções do adversário. O sucesso militar romano não decorria apenas da disciplina de suas formações, mas também da superioridade de suas informações.
Na era contemporânea, o princípio permaneceu inalterado, apenas ganhou novas ferramentas. Durante a Segunda Guerra Mundial, talvez o maior triunfo aliado não tenha sido o desembarque na Normandia, mas a gigantesca operação de contraespionagem que o antecedeu. A Operation Fortitude convenceu o alto comando alemão de que a invasão ocorreria em Pas-de-Calais. Tanques infláveis, transmissões falsas de rádio, agentes duplos e documentos cuidadosamente plantados produziram um efeito estratégico extraordinário: Hitler manteve divisões inteiras afastadas da verdadeira área do desembarque justamente quando mais precisava delas. A batalha decisiva havia sido vencida antes de os soldados colocarem os pés na praia.
O caso ucraniano revela que essa lógica permanece intacta. O oficial condenado não comandava blindados nem pilotava aviões. Seu poder estava no acesso privilegiado à informação. Conhecia estruturas de comando, procedimentos internos, movimentações militares e avaliações estratégicas. Em guerras altamente tecnológicas, esse tipo de conhecimento vale mais do que muitos sistemas de armas.
Há, porém, um aspecto ainda mais interessante nessa história. Segundo o próprio Serviço de Segurança da Ucrânia, antes da prisão o agente foi monitorado durante meses e utilizado para alimentar Moscou com informações cuidadosamente manipuladas. O espião transformou-se, sem saber, em instrumento da contraespionagem. A informação deixou de ser apenas roubada; passou a ser fabricada como arma.
Essa talvez seja a principal característica dos conflitos contemporâneos. A guerra não acontece apenas nas linhas de frente. Ela ocorre dentro dos servidores de informática, dos serviços de inteligência, das redes de comunicação e, sobretudo, das instituições. O objetivo não é apenas destruir o inimigo, mas penetrar sua capacidade de decidir corretamente.
Costuma-se afirmar que a guerra moderna é dominada por drones, satélites e inteligência artificial. É apenas meia verdade. Todas essas tecnologias dependem de algo muito mais antigo: informação confiável. Sem ela, o drone ataca o alvo errado, o míssil acerta um vazio e o satélite apenas fotografa a própria ignorância.
As armas mudaram. O fator decisivo, não. Desde Sun Tzu até os atuais conflitos na Ucrânia, permanece válida a mesma lição: antes de conquistar o território do adversário, é preciso conquistar seus segredos. Porque, em toda guerra, existe uma batalha invisível. E, muitas vezes, é ela que decide todas as outras.
Nota: o presente artigo mobilizou temas fundamentais para a compreensão de operações militares em qualquer tempo. A bibliografia disponível é extensa. Recomendo duas obras introdutórias ao tema da espionagem militar: o clássico Arte da Guerra, de Sun Tzu; e O Jogo das Raposas, de Ladislas Farago.
Como a China está tentando eliminar a principal defesa natural de Taiwan
A imagem heroica da guerra costuma ser a do soldado avançando sob fogo inimigo. A imagem real, porém, é quase sempre menos gloriosa: navios descarregando suprimentos, caminhões transportando combustível, engenheiros construindo pontes e trabalhadores ampliando portos. A história das guerras é, em larga medida, a história da luta contra a distância. Por isso mesmo, poucas operações militares são tão complexas quanto uma invasão anfíbia. Conquistar uma praia é difícil. Sustentar uma força que desembarcou nela é infinitamente mais difícil.
Durante séculos, essa realidade conferiu aos portos uma importância estratégica extraordinária. Alexandre Magno compreendeu isso em sua campanha contra o Império Persa. Napoleão descobriu os limites do poder marítimo francês diante da supremacia naval britânica. Em 1944, os Aliados sabiam que o sucesso do desembarque na Normandia dependeria não apenas da conquista das praias, mas também da capacidade de alimentar continuamente o avanço para o interior da França. Mesmo conflitos muito mais recentes demonstraram a mesma lógica: sem infraestrutura portuária, o fluxo de homens, munições, combustível e equipamentos rapidamente se transforma em um gargalo.
É precisamente essa antiga dependência que a China parece estar tentando superar. As imagens divulgadas recentemente de plataformas elevatórias interligadas - apelidadas por analistas de "barcaças de invasão" - talvez representem uma das mais interessantes inovações logísticas militares das últimas décadas. A ideia é ao mesmo tempo simples e revolucionária: se o inimigo destruir os portos, se os ancoradouros forem sabotados ou se as instalações costeiras forem inutilizadas, o invasor poderá construir seu próprio porto.
Não se trata de uma metáfora. As plataformas observadas em testes formam uma espécie de estrada elevada que se projeta centenas de metros mar adentro. Ligadas a navios cargueiros e ferries criam um corredor artificial capaz de transportar veículos, tropas e suprimentos diretamente da embarcação para a terra firme. Em essência, transformam uma praia em terminal logístico.
A inovação pode parecer técnica, mas suas implicações estratégicas são profundas. Desde que Taiwan se tornou o principal foco de tensão no Indo-Pacífico, analistas militares vêm apontando a geografia da ilha como uma de suas maiores vantagens defensivas. O Estreito de Taiwan já representa um obstáculo natural considerável. Somam-se a isso as condições marítimas frequentemente adversas e o número relativamente limitado de praias adequadas para desembarques em grande escala. Se os portos fossem destruídos nos primeiros dias de um conflito, o desafio logístico para uma força invasora se tornaria colossal.
As novas plataformas chinesas parecem concebidas justamente para reduzir esse problema. Elas revelam uma mudança de paradigma. Durante séculos, a estratégia defensiva consistia em negar ao invasor o acesso à infraestrutura crítica. Queimar pontes. Afundar embarcações. Sabotar portos. Destruir ferrovias. A lógica era simples: sem infraestrutura, não há abastecimento; sem abastecimento, não há exército.
Mas o que acontece quando um invasor passa a carregar consigo a própria infraestrutura? Essa é a pergunta que emerge dessas imagens.
Naturalmente, tais estruturas possuem vulnerabilidades. São grandes, relativamente lentas e potencialmente expostas a ataques de mísseis, drones e artilharia. Não representam uma solução mágica para os desafios de uma operação anfíbia contra uma ilha fortemente defendida. Contudo, elas demonstram algo igualmente importante: a determinação chinesa de resolver antecipadamente problemas que, tradicionalmente, inviabilizaram inúmeras invasões ao longo da história.
Talvez o aspecto mais impressionante desse projeto não seja sequer tecnológico. É conceitual. Estamos acostumados a imaginar que revoluções militares surgem na forma de armas novas: o arco longo inglês, o encouraçado, o tanque, o porta-aviões, o míssil balístico ou o drone. Entretanto, muitas das transformações decisivas da guerra ocorreram na esfera da logística. O sistema de estradas romanas, as ferrovias prussianas do século XIX e os comboios atlânticos da Segunda Guerra Mundial alteraram profundamente a forma de travar guerras sem necessariamente introduzir uma nova arma.
As barcaças chinesas pertencem a essa tradição. Elas lembram uma verdade frequentemente esquecida: as guerras raramente são vencidas apenas por quem possui as melhores armas. Em geral, vencem aqueles que conseguem fazer chegar mais homens, mais combustível, mais munição e mais equipamentos ao campo de batalha.
No fundo, a notícia não trata apenas de embarcações. Trata-se de uma tentativa de abolir uma das mais antigas limitações da guerra anfíbia. Se essa tentativa será bem-sucedida, ninguém sabe. Mas uma coisa é certa: quando uma potência começa a construir portos móveis para uma possível invasão, ela está nos lembrando que, no século XXI, a logística continua sendo a forma mais silenciosa, e talvez mais decisiva, do poder militar.
Durante séculos, os estrategistas acreditaram que era possível distinguir com relativa clareza entre guerras locais e guerras mundiais. Havia conflitos limitados a uma fronteira, uma província ou uma região específica. Havia também guerras que envolviam grandes coalizões e alteravam o equilíbrio internacional. Essa distinção, contudo, parece cada vez mais difícil de sustentar.
Uma recente movimentação naval dos Estados Unidos oferece um exemplo revelador. Uma crise envolvendo o Irã mobilizou porta-aviões e forças navais provenientes do Atlântico, do Pacífico e do Golfo Pérsico. Embora o foco da tensão estivesse concentrado em uma região específica do Oriente Médio, seus efeitos ultrapassaram imediatamente os limites geográficos do conflito.
A pergunta torna-se inevitável: ainda existem guerras regionais? Ou toda guerra relevante tornou-se automaticamente internacional? A história sugere que conflitos locais sempre tiveram potencial para se expandir. O assassinato do arquiduque em Sarajevo, em 1914, ocorreu em uma cidade periférica do Império Austro-Húngaro. Em poucas semanas, o episódio desencadeou a Primeira Guerra Mundial. Contudo, naquela época, a transformação de uma crise regional em uma guerra global dependia de decisões diplomáticas, mobilizações militares e semanas de escalada.
Hoje, o processo é quase instantâneo. Isso ocorre porque a globalização não conectou apenas economias. Ela conectou sistemas de segurança. O petróleo que atravessa o Golfo abastece indústrias na Europa e na Ásia. Os cabos submarinos que transportam dados ligam continentes inteiros. As cadeias logísticas dependem de rotas marítimas que atravessam estreitos e gargalos estratégicos. Quando uma dessas regiões entra em crise, o impacto deixa de ser local.
Uma interrupção no Estreito de Ormuz afeta preços de energia em Tóquio, Frankfurt e São Paulo. Um ataque no Mar Vermelho altera seguros marítimos em Londres. Uma crise em Taiwan repercute imediatamente nas cadeias globais de semicondutores.
A geografia permanece importante, mas o significado da geografia mudou. Certos espaços tornaram-se nós centrais de uma rede planetária. Quando um deles é ameaçado, toda a rede sente os efeitos.
Essa realidade explica por que uma crise envolvendo o Irã atrai a atenção simultânea de Washington, Pequim, Moscou, Bruxelas e Nova Délhi. Não se trata apenas do destino de um país ou de uma região. Trata-se da estabilidade de sistemas dos quais depende uma parcela significativa da economia mundial.
A consequência estratégica é profunda. Os planejadores militares contemporâneos raramente pensam em termos estritamente regionais. Um conflito no Oriente Médio exige avaliações sobre a disponibilidade de forças no Pacífico. Uma crise no Indo-Pacífico influencia a postura militar na Europa. O mundo tornou-se um único tabuleiro estratégico.
Durante a Guerra Fria, essa lógica já era parcialmente visível. Hoje ela alcançou um grau sem precedentes. Os Estados Unidos mantêm comandos militares distribuídos pelo planeta não porque esperem guerras simultâneas em todos os continentes, mas porque compreenderam que eventos ocorridos em uma região podem rapidamente produzir efeitos em outra.
Existe ainda um segundo elemento frequentemente ignorado. Não apenas as consequências das guerras tornaram-se globais; sua própria condução também se internacionalizou.
Drones podem ser produzidos em um continente, financiados em outro e empregados em um terceiro. Informações de satélites atravessam fronteiras em segundos. Operações cibernéticas ignoram completamente barreiras geográficas. Até mesmo conflitos aparentemente limitados costumam envolver armamentos, inteligência, financiamento e apoio político provenientes de múltiplos países.
A guerra deixou de ser um fenômeno exclusivamente territorial. Talvez a melhor forma de compreender o cenário atual seja abandonar a ideia de que existem conflitos isolados. O que vemos são diferentes pontos de tensão dentro de um mesmo sistema global. Alguns são mais intensos, outros menos. Alguns permanecem controlados, outros escapam ao controle. Mas todos estão conectados.
Por isso, a movimentação de porta-aviões americanos entre o Atlântico, o Pacífico e o Golfo não representa apenas uma resposta operacional a uma crise específica. Ela revela uma transformação mais profunda da própria natureza da guerra.
No século XIX, uma guerra podia permanecer regional. No século XX, uma guerra regional podia tornar-se mundial. No século XXI, a distinção começa a desaparecer.
Talvez a característica mais marcante do nosso tempo seja justamente essa: não porque todas as guerras sejam globais, mas porque nenhuma guerra importante consegue permanecer apenas local. O campo de batalha continua delimitado por fronteiras; suas consequências, porém, já pertencem ao mundo inteiro.
Nota: Um artigo publicado em jornal é apenas um convite ao debate. Uma boa introdução ao tema se encontra na obra do historiador Militar KEEGAN, John. Uma História da Guerra. São Paulo: Cia das Letras, 2000.
Por que os Estados Unidos mantêm navios de guerra mesmo quando a guerra termina?
À primeira vista, isso pode parecer contraditório. Se o bloqueio terminou e as negociações avançaram, por que manter porta-aviões, destróieres e submarinos nas proximidades? Não seria mais lógico regressar às bases e reduzir os custos de uma operação tão dispendiosa?
A pergunta é legítima. A resposta, porém, nos conduz a um dos princípios mais antigos e duradouros da história estratégica: o poder não consiste apenas em vencer guerras; consiste em permanecer presente.
Existe uma tendência recorrente, especialmente entre observadores não especializados, de associar forças militares exclusivamente ao combate. Imagina-se que exércitos, esquadras e aeronaves existem para destruir inimigos. A história, contudo, sugere algo diferente. As maiores potências frequentemente utilizaram suas forças não para lutar, mas para evitar que fosse necessário lutar.
Nesse sentido, a presença militar é uma forma de ação política. Um porta-aviões não é apenas uma plataforma de combate. É também uma mensagem. Sua simples permanência em determinada região comunica intenções, compromissos e capacidades. Para os aliados, representa uma garantia. Para os adversários, um aviso. Para os atores indecisos, uma demonstração de que determinada potência continua interessada nos rumos daquela área estratégica.
Foi isso que compreendeu o almirante norte-americano Alfred Thayer Mahan no final do século XIX. Em sua visão, o poder marítimo não derivava apenas da capacidade de vencer batalhas navais, mas da habilidade de manter presença contínua nas principais rotas e pontos de estrangulamento do comércio mundial. A influência de uma potência dependia menos de sua disposição para guerrear do que de sua capacidade de estar onde os acontecimentos ocorriam.
Décadas depois, o britânico Julian Corbett refinaria essa percepção. Para ele, o objetivo central do poder naval não era destruir frotas inimigas, mas controlar situações políticas por meio do domínio dos espaços marítimos. A guerra era apenas um instrumento eventual. O verdadeiro objetivo era moldar comportamentos.
O que observamos hoje no Golfo Pérsico, no Mar da China Meridional ou no Pacífico Ocidental é, em grande medida, a aplicação contemporânea dessas ideias. Quando um grupo de ataque de porta-aviões permanece em determinada região após uma crise, sua função não é necessariamente combater. Sua função é impedir que a situação retorne ao estágio que tornou necessária sua chegada. Trata-se de uma lógica preventiva. O navio converte-se em uma espécie de garantia material da ordem desejada.
Essa realidade não é exclusiva da era moderna. Os romanos compreenderam isso há dois mil anos. A palavra imperium, frequentemente traduzida como "império", possuía originalmente um significado mais concreto. Designava o poder legítimo de comandar e fazer cumprir decisões. O Império Romano não existia apenas porque possuía legiões vitoriosas. Existia porque essas legiões permaneciam distribuídas pelas fronteiras, estradas, portos e províncias. A autoridade de Roma era inseparável de sua capacidade de estar presente.
O mesmo princípio reaparece em diferentes momentos da história. A Royal Navy britânica não dominou os mares apenas porque venceu a batalha naval de Trafalgar. Dominou-os porque permaneceu durante décadas nos principais corredores marítimos do planeta. Da mesma forma, a influência global dos Estados Unidos não repousa exclusivamente em seu arsenal, mas em sua capacidade de manter forças avançadas simultaneamente no Atlântico, no Mediterrâneo, no Oriente Médio e no Indo-Pacífico.
Por trás da notícia sobre navios que permanecem em uma região após o encerramento de uma crise encontra-se, portanto, uma verdade estratégica mais profunda. O poder raramente se manifesta apenas no momento da batalha. Muitas vezes ele se expressa na rotina silenciosa da permanência.
A história militar costuma celebrar os grandes confrontos. Salamina, Canas, Trafalgar, Midway. Entretanto, impérios não são sustentados apenas por vitórias. São sustentados pela capacidade de permanecer visíveis, previsíveis e influentes muito depois que os combates terminam.
Os porta-aviões que continuam navegando após o fim de uma crise não representam uma contradição. Representam a própria essência da estratégia. Afinal, para as grandes potências, a guerra pode acabar; a presença, não.
Nota: Ao leitor interessado, remeto ao clássico: PARET, Peter. Construtores da Estratégia Moderna. 2 v. Rio de Janeiro: Bibliex editora, 2000.
Como exércitos modernos gastam bilhões para conquistar uma rua
Menos do que a extensão de um quarteirão urbano. Menos do que a distância percorrida por um pedestre em poucos minutos.
E, no entanto, para conquistar esses cem metros, mobilizam-se satélites, drones, sistemas de inteligência artificial, artilharia guiada por GPS, munições de precisão, guerra eletrônica e redes de comunicação que conectam soldados no campo de batalha a centros de comando localizados a centenas de quilômetros de distância. A aparente contradição merece reflexão. Como chegamos a uma era em que a tecnologia militar alcançou níveis quase inimagináveis, mas o avanço territorial continua sendo medido em metros?
A resposta exige uma perspectiva histórica. Ao longo do século XIX, muitos observadores acreditaram que o progresso tecnológico tornaria as guerras mais rápidas e decisivas. A industrialização produziu armas mais letais; as ferrovias aceleraram deslocamentos; o telégrafo revolucionou as comunicações. Parecia lógico supor que os conflitos seriam resolvidos em campanhas breves.
A Primeira Guerra Mundial destruiu essa ilusão. Em Verdun, em 1916, franceses e alemães lutaram durante dez meses por colinas, trincheiras e aldeias cujos nomes se tornariam símbolos do absurdo da guerra industrial. Centenas de milhares morreram para que a linha de frente se movesse poucos quilômetros. No mesmo ano, no Somme, o exército britânico sofreu cerca de sessenta mil baixas apenas no primeiro dia de combate. Ao final da ofensiva, o ganho territorial obtido foi medido não em centenas de quilômetros, mas em parcelas reduzidas de terreno devastado.
A lógica era cruel. Quanto mais eficaz se tornava o poder de fogo, mais difícil se tornava avançar.
O século XX foi, em grande medida, uma tentativa de resolver esse dilema. Tanques, aviação, forças mecanizadas e doutrinas de guerra móvel surgiram para restaurar a capacidade ofensiva. Em alguns momentos, pareciam ter conseguido. As campanhas relâmpago alemãs de 1939 e 1940 sugeriam que a era das guerras de atrito havia ficado para trás.
Mas bastou que os exércitos encontrassem posições defensivas adequadas para que a realidade reaparecesse. Monte Cassino, em 1944, é um exemplo eloquente. Durante meses, forças aliadas empregaram enormes quantidades de homens, blindados, aeronaves e munições para romper uma posição defensiva relativamente limitada. O resultado foi uma sucessão de ataques sangrentos e progressos lentos, obtidos a um custo extraordinário.
Hoje, em Kostyantynivka, vemos uma nova versão desse velho problema. A diferença é que o campo de batalha está saturado por sensores. Drones observam estradas, edifícios, veículos e até pequenos grupos de soldados. Satélites monitoram movimentações logísticas. Sistemas eletrônicos interceptam comunicações. Qualquer concentração de tropas pode ser detectada e destruída em questão de minutos.
Paradoxalmente, essa capacidade de observação permanente fortalece a defesa. Mover-se tornou-se perigoso. Concentrar forças tornou-se arriscado. Ocultar-se tornou-se cada vez mais difícil. Por isso, os avanços voltam a ser medidos em metros.
A tecnologia transformou quase tudo na guerra contemporânea, exceto uma realidade fundamental: territórios não são ocupados por drones, algoritmos ou satélites. São ocupados por seres humanos.
Nenhum software pode substituir o soldado que entra em uma casa, limpa um edifício ou mantém uma posição sob fogo inimigo. Nenhuma inteligência artificial pode hastear uma bandeira sobre uma cidade conquistada.
Essa talvez seja a maior lição histórica da guerra na Ucrânia. Durante décadas, acreditou-se que a tecnologia reduziria progressivamente a importância da infantaria. O que vemos hoje aponta na direção oposta. A tecnologia ampliou a letalidade, aumentou a vigilância e sofisticou os sistemas de combate, mas não eliminou a necessidade do combatente que ocupa o terreno.
A guerra dos cem metros não é um anacronismo. É uma advertência.
Ela nos lembra que, por trás de toda inovação tecnológica, permanece uma verdade tão antiga quanto as campanhas de Alexandre, as legiões de Roma ou as trincheiras de Verdun: a guerra continua sendo, em última instância, uma disputa pelo controle do espaço físico.
E esse espaço ainda é conquistado passo a passo, rua por rua, metro por metro.
Nota: ao leitor interessado em aprofundar os temas de uso de táticas de infantaria remeto a: MARSHALL, General George S.L. Homens ou Fogo? Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército Editora. S/D.