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César Oliveira- Crônicas

O lado escuro da lua

César Oliveira - 29 de abril de 2019 | 19h 17
O lado escuro da lua

Está no Gênesis. Deus, disse: “ que exista a luz”. E a luz existiu. E suas palavras permitiram a vida no paraíso, sem pagode e taxa condominial. Depois veio a Coelba e nunca mais tivemos serviço com a mesma eficiência. A luz se tornou nossa metáfora predileta para justificar a esperança, pois, sempre acreditamos que há luz no fim do túnel, ainda que o túnel esteja cada vez maior e a luz cada vez mais difícil de ser vista.

Diógenes, com a luz de sua lanterna, vagava por Atenas, procurando um homem honesto. Hoje, o grau de dificuldade tornou-se tão acentuado que apesar de toda energia elétrica e cósmica consumida em Brasília, ainda não conseguimos completar sua busca. Goethe, autor de Fausto, antes de morrer, murmurou: “Luz! Mais luz! Não sabemos se já enxergava a volta à escuridão do lado de lá ou queria apenas deixar um grand finale, coisa que sabemos tão importante quanto a biografia. Como nunca se sabe quando vai ser nossa hora é bom estarmos prevenidos e pensando em algo, que uma frase pode ser tudo.

A primeira luz artificial, antropologicamente falando, foi o fogo, até que Edson inventou a lâmpada e as concessionárias de energia inventaram a selvageria da conta. Na evolução fomos iluminados de várias formas. Do tição ao óleo de tartaruga, passando aqui nas bandas sertanejas, pelos candeeiros e fifós.

Tenho terna lembrança dessa forma de iluminação, porque na fazenda onde cresci não tinha luz elétrica. Usávamos candeeiros, feitos com lata de óleo e um ou outro mais sofisticado, que ficava na sala de visitas. À noite, lia o jornal para meu pai, com o candeeiro correndo sobre as letras, e, sei lá porque, vou escrevendo isso e sendo tomado por uma súbita emoção e uma saudade que não sei bem do que é, que cronista, embora não pareça, também é humano e tem lá suas fraquezas. Tinha prazer quando me pediam para trocar o pavio de algodão, que havia apreendido a trançar, e que executava como um Da Vinci a pintar a Mona Lisa, embora eu nem goste muito dela.

A luz das lamparinas artesanais era muito acolhedora. Depois apareceu um, metido a besta, chamado Aladim, que passou a ocupar a sala, e, só na adolescência, chegou a luz elétrica e a televisão. Mas foi sob a luz do pavio, que mal disfarçava a escuridão, que descobri os segredos do corpo de uma moça escura, entre a desconfiança de minha mãe e a cumplicidade de meu pai.

A eletricidade produziu muitas mudanças. Não preciso mais bater leite na garrafa para fazer manteiga, nem raspar das panelas, as sobras do requeijão, ou rachar lenha para o fogão. Às vezes, durmo lá, com os filhos. A casa, atualmente forrada, infelizmente já não deixa passar sereno pelas telhas nas noites de chuva, - quem já morou em casa assim sabe o que estou dizendo e quem nunca experimentou não sabe a delícia que perdeu.

Uma noite, estávamos a beira do curral, onde ficávamos conversando. A menor cismou de perguntar porque tinha todas aquelas luzes no céu. Na Via Láctea - corrigiu meu filho maior, chamando a irmã de burra. Na falta do que inventar disse a eles que o céu era muito grande, infinito, mais do que nossos olhos juntos, ao mesmo tempo, podiam ver. E todos que tinham a alma pura, os honestos, todos que viveram seus amores finitos e infinitos, todas as famílias, iriam lá, se reunir. Mas, como era muito vasto e escuro, Deus, que amava a todos, precisava iluminar os caminhos e para isso usava candeeiros. E que eu os amava tanto, que um dia andaríamos por lá, juntos. Iluminados pelo candeeiro de estrelas



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