A nova Estratégia Nacional de Defesa dos Estados Unidos,
publicada pelo Departamento de Guerra no segundo mandato de Donald Trump, marca
mais do que uma inflexão de política externa: ela explicita uma mudança de
época. Ao proclamar que o Hemisfério Ocidental é área de interesse vital dos
EUA “do Ártico à América do Sul” e ao ameaçar o uso da força contra países que
não cooperem com seus objetivos, Washington não inaugura uma doutrina,
ressuscita uma antiga. Trata-se de um retorno explícito à Doutrina Monroe,
agora reformulada no que o próprio documento chama, sem pudor, de “Corolário
Trump”.
A Doutrina Monroe, anunciada em 1823, afirmava que o
continente americano não deveria ser objeto de novas intervenções europeias. Na
virada do século XX, Theodore Roosevelt acrescentou seu famoso corolário: os
Estados Unidos se reservavam o direito de intervir militarmente nos países
latino-americanos sempre que julgassem que a “ordem” ou a “estabilidade”
estivessem ameaçadas. Era o nascimento do intervencionismo preventivo no
hemisfério, legitimado pelo argumento da civilização, da dívida ou da
segurança. A estratégia atual ecoa esse passado com inquietante clareza. A
diferença é que, se no início do século XX o discurso era civilizatório e no
pós-1945 foi liberal-institucional, agora o verniz desapareceu. O documento
abandona a retórica da promoção da democracia e dos direitos humanos e assume
uma linguagem abertamente coercitiva, ancorada na força militar, na dissuasão
direta e na noção de soberania hierarquizada.
O Hemisfério Ocidental reaparece como zona de influência
exclusiva, não como espaço de cooperação. Países que não colaborarem no combate
ao narcotráfico ou que permitirem a presença econômica, política ou tecnológica
da China e da Rússia passam a ser tratados como ameaças potenciais. A
estratégia legitima ações militares “focadas e decisivas” e cita, como
precedente virtuoso, a operação que resultou na deposição de Nicolás Maduro na
Venezuela. A mensagem é inequívoca: a força deixa de ser último recurso e se
converte em instrumento regular de gestão regional. Esse deslocamento revela a
passagem de uma hegemonia que se pretendia “benevolente” para uma hegemonia
coercitiva explícita.
Durante décadas, os Estados Unidos combinaram poder militar
com instituições multilaterais, alianças e normas que mascaravam a assimetria
real. Agora, a própria estratégia reconhece que não busca consenso, mas
obediência funcional. Cooperação, quando existe, é definida como alinhamento;
divergência passa a ser vista como hostilidade. A América Latina, nesse
contexto, reaparece como aquilo que sempre foi nos momentos de retração liberal
americana: um espaço de exceção jurídica. O direito internacional, a soberania
e os fóruns multilaterais tornam-se condicionais quando colidem com interesses
estratégicos definidos em Washington. O narcotráfico cumpre aqui o papel que o
comunismo desempenhou no século XX: um inimigo difuso, transnacional e
moralmente absoluto, capaz de justificar intervenções sem declaração formal de
guerra.
O aspecto mais revelador do documento, contudo, é sua
coerência histórica. Ao mesmo tempo em que propõe “delegar” a contenção da
Rússia à OTAN e da Coreia do Norte a aliados asiáticos, os EUA concentram seus
próprios recursos no controle hemisférico e no cerco estratégico à China. A
lógica é clássica: assegurar o entorno imediato antes de administrar o
equilíbrio global. Não por acaso, o texto enfatiza o Canal do Panamá, o Caribe,
a Groenlândia e o Golfo das Américas, os mesmos pontos geoestratégicos centrais
do pensamento naval de Alfred Thayer Mahan no final do século XIX. O que muda
não é a lógica do poder, mas sua franqueza. A ordem liberal internacional, já
corroída por crises internas e guerras periféricas, dá lugar a uma ordem
declaradamente hierárquica, na qual zonas de influência voltam a ser
reconhecidas como legítimas.
Ao chamar essa política de “Corolário Trump”, o próprio governo admite que não está inovando, mas reivindicando uma tradição imperial americana, agora adaptada a um mundo multipolar. A grande ironia é que, ao agir assim, Washington contribui para aquilo que diz querer evitar. Ao tratar a América Latina como quintal estratégico e não como conjunto de Estados soberanos, empurra governos e elites regionais para a busca de contrapesos externos. Ao normalizar a coerção, legitima a coordenação estratégica entre China e Rússia. E ao substituir a diplomacia pela ameaça, acelera a fragmentação da ordem internacional que construiu após 1945. O século XXI, afinal, não caminha para a superação do século XIX. Ele o reencena, dessa vez agora com tecnologia avançada, linguagem direta e menos ilusões.