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César Oliveira- Crônicas

O assalto ao homem com flores

César Oliveira - 29 de abril de 2019 | 19h 18
O assalto ao homem com flores

Tem uma floricultura essencial na esquina de meu prédio. Não que um bar intimista, para as mentiras; uma cuscuzeria, para as urgências da fome; um café, para os frios da alma, não sejam valores agregados de uma moradia, mas uma floricultura é a vizinhança mais necessária. Deveria, por decreto, haver tantas floriculturas quantas são as farmácias, na cidade, até porque os males do espírito costumam ser mais prevalentes do que os do corpo. Eu mesmo tenho, lá, certa freguesia, e amizade com as floristas.

Da janela da biblioteca onde escrevo vejo a pacata transversal da rua que vai até a loja. Nos finais de semana ela fica mais deserta. Num desses sábados, manhã amena, vejo um homem de média idade, bermuda, sandália, dobrar a rua abraçado a um ramo de rosas. Ia devagar e tranquilo, como quem sabe que está cumprindo uma missão superior: caminhar com flores para alguém. Sim, admitamos com alguma inveja, que alguém, naquela manhã de sábado, seria tão importante, que aquele homem saiu para comprar flores, a pé. E tudo que almejamos nessa vida é merecer flores na manhã de um dia qualquer. Poderia ter declarado seus sentimentos com palavras, mas optou pelas rosas que o poeta disse que não fala. E caminhava pela rua soberano e sereno, como quem ainda é capaz de delicadezas perecíveis, mas infinitas, em tempos de tanta desvalorização, talvez, apenas para dizer que começaria tudo outra vez. Ah, portanto, um conselho as mulheres: nunca amem um homem incapaz de andar na rua um sábado qualquer para lhes comprar flores.

Fui acompanhando-o, e, em exercício inútil do pensamento, fiquei a imaginar para quem seria: amada, filha, mãe, aniversariante, e torcendo que fosse uma mulher, em seu vestidinho de esperas, pronta para um abraço, uma concessão, uma chance de refiar os fios que nos conduzem adiante do labirinto e salvam nossa humanidade. Porque em toda mulher em que há amor, há a vastidão de uma pátria para nos acolher.

De repente, dois rapazes surgiram do nada, e um por cada lado, atacaram o homem, e com o celular e a carteira, saíram correndo. As flores não, que flores não têm valor. Por incrível que pareça ele não largou as rosas, mas já não era o mesmo. Assustado, continuou rápido até onde pude ver a rua. As rosas, agora, iam seguras na mão. Já não era o mesmo homem, nem as mesmas flores, nem o mesmo encanto.

Quis gritar, mas já era tarde; quis ser solidário, dar um abraço, me apresentar, pedir desculpas pelo tempo incerto e frágil em que amamos, mas nem o alcançaria. Assim, ficamos, ela, que a receberia, talvez, em pranto; e, eu, que a imaginei, sem a poesia daquele dia.

Nesse sábado fui a floricultura, um tanto desconfiado. Um homem fazendo o que aquele fazia deveria ser intocável, mas esse é um mundo em que já roubam até um homem com flores.



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