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César Oliveira- Crônicas

Nossos sonhos coletivos já morreram todos

César Oliveira - 30 de abril de 2019 | 20h 41
Nossos sonhos coletivos já morreram todos
Assim como nossos heróis morreram de overdose, os sonhos coletivos estão morrendo também. Nossas melhores intenções- a liberdade, fraternidade, igualdade, o esforço como meio para o sucesso, o amor eterno e a barriga sem Chopp- encheram o inferno de fracassos.
 
A combinação de um protagonismo insustentável que torna o indivíduo um universo autocentrado, ávido de recompensas e retroalimentação, a consumir o pior de si em canibalismo autofágico, e a lenta, continua e irreversível perda do idealismo como um bem e motivação, foram luindo continuamente a sociedade e seus valores. Crescer tornou-se nada menos que despedir-se das ilusões, todas aquelas que um dia já preencheram nossas melhores ações e esperanças.
 
Os discursos civis foram traídos, a pátria foi apartada de nosso pertencimento, e a exposição nua e crua dos podres poderes retirou o glamour de muitos heróis revelando facetas nunca antes imaginadas. Privados dos mitos, sem fio de Ariadne, estamos adentrando o labirinto, sem guia de retorno.
 
Já não temos líderes, e a verdade é que está ficando cada vez mais impossível ser herói nestes tempos de escandalosa e incontrolável exposição. Não há mais segredos ocultos nas biografias e, também, já não lutamos pelos corações e mentes; no máximo, pelo fim de noite.
 
Não sonhamos mais juntos pelo temor que pareçamos tolos, que abusem de nós, e que o mais puro de nosso coração seja explorado pelos aventureiros e oportunistas. Compartilhamos apenas mobilizações momentâneas, refreados na nossa entrega plena pelas incertezas e medos. E o medo é uma ilha.
 
A modernidade líquida não é só desapego e volatilidade, mas uma individualidade bruta, arcaica, devastadora, que superficializa todo nosso legado de humanidade, dessacraliza nosso imaginário e nos tira a ambição da perenidade que sempre nos conduziu ao infinito e além. Já não erguemos altares, ou catedrais.
 
De algum modo, entre a cozinha gourmet e a falência das ideologias, fomos nos tornando o que nunca fomos: mortais.
 
Não sei o caminho, nem como se faz esta lavoura da salvação, mas sei que devemos voltar a cobiçar a eternidade, pois, os ventos do norte já não movem moinhos e nossos sonhos coletivos já morreram todos.


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