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César Oliveira- Crônicas

A falta dos cadarços

César Oliveira - 30 de abril de 2019 | 20h 50
A falta dos cadarços
Sempre detestei sapatos com cadarços. O reclinar para dar o nó sempre me pareceu um desperdício de tempo e um esforço desnecessário, destes que não há razão alguma para se fazer. Lembro, no entanto, que minha mãe sempre me comprou sapatos com cadarços. Bem, não cheguei a amaldiçoar ninguém por isto, mas depois que passei a comprar meus próprios sapatos- ah, este momento que separa meninos de homens- só os comprei, lisos.
 
Também, nunca quis dez pares diferentes. Gosto de um, daqueles que se pudesse não tirava nem para dormir, que parece enluvado, macio, que se aconchega ao pé como se fosse um abraço sonhado, uma massagem permanente, na medida exata. Até ganhos alguns – creio que minha família não acredite que regulo bem, aliás, não vou dizer que estejam totalmente errados-, mas ficam lá, esperando um dia que justifique seu uso, enquanto sigo com meu companheiro, na saúde e na doença, no trabalho e no passeio, até sua exaustão, quando o trocarei por outro. Igual.
 
Dizem que as mulheres reparam muito nos sapatos masculinos e que eles anunciam todo nosso perfil, sucesso, recursos financeiros, e dizem a elas o que somos e nosso potencial. Confesso que temo o que devem pensar de mim olhando meus calçados. Talvez, tenha sido por conta desta escolha que nunca fiz sucesso com elas e a Paola Oliveira nunca me ligou para sermos bons amigos. Também não acho que casei porque o lustre do calçado tenha feito os olhos dela brilharem, aliás, é muito certo que ela não tenha reparado em meus sapatos.
 
Agora mesmo, quando escrevo, os pés estão meio para fora e os sapatos dobrados ao meio, o que lhes deixa uma marca permanente que só some quando passo um pouco daquele lustra-couro para enganar o envelhecimento. As cicatrizes do sapato, ao menos, me são possíveis.
 
Conta a lenda que foi o pintor grego Apeles que nos deu a recomendação: “Ne sutor ultra crepidam", ou,” não vá o sapateiro além das sandálias”, por isso respeito o abismo do que ignoro, conservo minha alma onde tenho meus pés e não vou aos corações e locais onde os meus velhos sapatos precisem de brilho, rigidez, ausência de vincos e feitura sem defeitos, para serem bem acolhidos.
 
Mas, talvez, talvez, tenha sido tudo a falta de cadarços.


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