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César Oliveira- Crônicas

Ser pai

César Oliveira - 01 de maio de 2019 | 16h 10
Ser pai
Uma das notícias que mais me marcou, até hoje, foi sobre um barco com estudantes, na Coréia do Sul, que ao fazer um passeio escolar começou a afundar. Uma das adolescentes, no desespero, conseguiu ligar para a mãe e o pai. A ela disse: mãe, reza por mim, reza. A ele: pai, me salva, vem me salvar, vem.
De algum modo os filhos compõem em seu imaginário o que representamos, pois, sem sabermos damos a eles significados e simbolismos. No entanto, para isso não tem manual. Se tivesse, as normas não serviriam para as edições seguintes, pois filho é sempre inédito.
 
Ser pai, em verdade, é começar necessário e terminar nulo. No intervalo, cumprir o papel de andarilho que sinaliza caminhos, embora eles escolham por vontade própria, desacreditando de que saibamos alguma coisa. A intimidade parece ser demolidora do mito paterno. É que a natureza humana é autoral. Portanto, a dor e a experiência só vêm de autoria própria, apesar de sermos devotos da proteção dos filhos e enxergamos o que a inocência e ousadia da juventude desconhecem. Calejados, sabemos que o mundo é um moinho, com armadilhas. Mas alertar sem exceder, orar no escuro, e esperar mesmo o que nos corrói terminar, é sabedoria e ofício da paternidade.
 
Ser pai é corrigir seus defeitos – melhor não listar - na nossa versão melhorada, que são eles. Não lhes dando o legado de nossa imperfeição. E esperar que tudo, afinal, encontre sua razão de ser, inclusive, meu Deus, as músicas sertanejas. Ou o quarto de refugiado com cerveja e violão. Ser pai é estar perto o suficiente para ser aceiro e longe o bastante para permitir o crescimento. Afinal o pai deve morrer para que eles se afirmem.
 
Com o tempo aprendemos a coletar na memória uma participação que não tínhamos na criação dos filhos, uma intimidade que é recompensa e especiaria, os instantes luminosos que compõem o luminário da vida inteira.
 
É contar histórias inventadas antes do sono que eles repetirão aos seus filhos, nos perpetuando. E fazer memória das coisas improváveis, seja andar de bicicleta numa rua ligeiramente fria, ou ver o show do
mesmo ídolo do rock.
 
Alguns pais, como os de meu tempo, são eternos caçadores de javali e sonegam este tempo a seus filhos, ou melhor, a si mesmos. Perdem o tempo de ser herói, declinam da chance de ser exemplo e não deixam pontes para a travessia quando apenas a amizade unir as margens no futuro.
 
Ser pai é amar sem esperar, dar sem troco, ter afeto de inventor, trazer em fios de corda todas as orações e todos os santos de todos os mistérios, enquanto finge todas as certezas que não tem.
 
É lembrar que ser pai é ser bom, sem medo de exigir. Pois, conceder, apenas, não é ser pai.
 
É ser a possibilidade de socorro quando vier o medo, ou a dúvida, pois sua falta - eu sei - é apenas desamparo. E lembrar que o abraço, inegável, deve ser sempre o abrigo que acolhe e reedita, como a sentença de absolvição. Pai, é, sim, atitude de definir escolhas, limites éticos, o orgulho do trabalho e de ser grande consigo mesmo, o dever de ser honesto, a precisão de fazer o necessário. E ensinar os vinhos das melhores safras.
 
Ser pai é ir diluindo-se, esvanecendo, fazendo sua carpintaria tão bem feita que haverá, um dia, de ser apenas um legado, não mais uma necessidade, e, por ter sido bem sucedido, guardar, satisfeito e anônimo, sua desimportância como um troféu olímpico. Como guardo meu pai. Como gostaria de ser guardado.


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