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César Oliveira- Crônicas

Legado democrático ocidental

César Oliveira - 01 de maio de 2019 | 16h 13
Legado democrático ocidental
Uma das notícias que mais me marcou, até hoje, foi sobre um barco com estudantes, na Coréia do Sul, que ao fazer um passeio escolar começou a afundar. Uma das adolescentes, no desespero, conseguiu ligar para a mãe e o pai. A ela disse: mãe, reza por mim, reza. A ele: pai, me salva, vem me salvar, vem.
De algum modo os filhos compõem em seu imaginário o que representamos, pois, sem sabermos damos a eles significados e simbolismos. No entanto, para isso não tem manual. Se tivesse, as normas não serviriam para as edições seguintes, pois filho é sempre inédito.
 
Ser pai, em verdade, é começar necessário e terminar nulo. No intervalo, cumprir o papel de andarilho que sinaliza caminhos, embora eles escolham por vontade própria, desacreditando de que saibamos alguma coisa. A intimidade parece ser demolidora do mito paterno. É que a natureza humana é autoral. Portanto, a dor e a experiência só vêm de autoria própria, apesar de sermos devotos da proteção dos filhos e enxergamos o que a inocência e ousadia da juventude desconhecem. Calejados, sabemos que o mundo é um moinho, com armadilhas. Mas alertar sem exceder, orar no escuro, e esperar mesmo o que nos corrói terminar, é sabedoria e ofício da paternidade.
 
Ser pai é corrigir seus defeitos – melhor não listar - na nossa versão melhorada, que são eles. Não lhes dando o legado de nossa imperfeição. E esperar que tudo, afinal, encontre sua razão de ser, inclusive, meu Deus, as músicas sertanejas. Ou o quarto de refugiado com cerveja e violão. Ser pai é estar perto o suficiente para ser aceiro e longe o bastante para permitir o crescimento. Afinal o pai deve morrer para que eles se afirmem.
 
Com o tempo aprendemos a coletar na memória uma participação que não tínhamos na criação dos filhos, uma intimidade que é recompensa e especiaria, os instantes luminosos que compõem o luminário da vida inteira.
 
É contar histórias inventadas antes do sono que eles repetirão aos seus filhos, nos perpetuando. E fazer memória das coisas improváveis, seja andar de bicicleta numa rua ligeiramente fria, ou ver o show do
mesmo ídolo do rock.
 
Alguns pais, como os de meu tempo, são eternos caçadores de javali e sonegam este tempo a seus filhos, ou melhor, a si mesmos. Perdem o tempo de ser herói, declinam da chance de ser exemplo e não deixam pontes para a travessia quando apenas a amizade unir as margens no futuro.
 
Ser pai é amar sem esperar, dar sem troco, ter afeto de inventor, trazer em fios de corda todas as orações e todos os santos de todos os mistérios, enquanto finge todas as certezas que não tem.
 
É lembrar que ser pai é ser bom, sem medo de exigir. Pois, conceder, apenas, não é ser pai.
 
É ser a possibilidade de socorro quando vier o medo, ou a dúvida, pois sua falta - eu sei - é apenas desamparo. E lembrar que o abraço, inegável, deve ser sempre o abrigo que acolhe e reedita, como a sentença de absolvição. Pai, é, sim, atitude de definir escolhas, limites éticos, o orgulho do trabalho e de ser grande consigo mesmo, o dever de ser honesto, a precisão de fazer o necessário. E ensinar os vinhos das melhores safras.
 
Ser pai é ir diluindo-se, esvanecendo, fazendo sua carpintaria tão bem feita que haverá, um dia, de ser apenas um legado, não mais uma necessidade, e, por ter sido bem sucedido, guardar, satisfeito e anônimo, sua desimportância como um troféu olímpico. Como guardo meu pai. Como gostaria de ser guardado.


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