O Exame Nacional de Avaliação do Ensino Médico (Enamed)
revelou um cenário assustador, que vai além do dado estatístico: trata-se
de um diagnóstico grave sobre o colapso de nosso modelo de formação médica.
A abertura descontrolada de faculdades, movida mais por
interesses econômicos do que por zelo acadêmico, atingiu seu ponto crítico. Dos
351 cursos avaliados, quase um terço (107 instituições) obteve notas
insuficientes.
Na Bahia, o cenário é desolador: das 37 instituições que
temos, 26 foram avaliadas e 12 receberam nota 2. Outras 11 não foram
testadas, por ainda não possuírem alunos concluintes.
A raiz do problema reside na disparidade entre o crescimento
quantitativo e qualidade pedagógica. Instituições privadas apresentaram os
piores desempenhos, com 58,4% dos cursos reprovados.
A verdade nua e crua é que o país está produzindo diplomas em
escala industrial, mas falhando em formar médicos.
O dado que mais deve angustiar a sociedade, no entanto, diz
respeito aos 39 mil alunos na iminência de se formar. Destes, apenas 67% foram
classificados como "proficientes". Isto significa que quase 13 mil
novos profissionais podem ingressar no mercado de trabalho sem o domínio técnico
necessário para garantir a segurança do paciente.
Surge, então, um forte dilema ético e constitucional. Se, por
um lado, o direito garante, ao aluno concluinte, o acesso ao seu diploma, por
outro, o Estado detém o dever indeclinável de proteger a população.
Não é razoável detectar um risco de tal magnitude e
permanecer na inércia. Ignorar que milhares de egressos carecem de competências
básicas é, na prática, avalizar um potencial dano coletivo – negligência, cuja
responsabilidade recairá sobre o governo.
A solução exige coragem política e inovação regulatória. Não
basta punir as instituições, daqui para frente, como anuncia o Ministério da
Educação (MEC). É preciso reparar a formação desses jovens, que, em muitos
casos, foram enganados por promessas de excelência que não se concretizaram.
Uma medida possível seria a instituição de um ciclo de ensino
adicional, obrigatório e intensivo, sem custos ao aluno, com duração variável,
ou um ano, sob estrita supervisão ministerial.
Este programa seria focado na recuperação de competências práticas
e teóricas para os alunos não proficientes. A liberação definitiva do registro
profissional estaria condicionada à nova avaliação. É uma maneira de tentar
garantir que o diploma se aproxime da competência real.
Outras medidas podem e devem ser discutidas, mas a
passividade não é uma delas. Não podemos "bancar a avestruz" diante
desse abismo de formação médica. Agir, agora, não é meramente uma escolha de
política educacional. É um imperativo de segurança pública. Do contrário,
assistiremos, inertes, à crônica de mortes anunciadas que o Estado nos deixará
como legado.