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Wellington Freire

A cartografia do medo no extremo Norte

Wellington Freire - 12 de Fevereiro de 2026 | 18h 53
A cartografia do medo no extremo Norte
Foto: Marko Djurica/Reuters

O anúncio, feito ontem, de uma nova missão da Otan no Ártico, com foco na Groenlândia, poderia ser lido como mais um capítulo previsível da rivalidade com Rússia e China. Mas essa leitura é insuficiente e confortável demais. O dado verdadeiramente novo não é a presença militar ocidental no extremo Norte, mas o fato de que ela surge como resposta indireta à ameaça de um aliado: os Estados Unidos.

Quando Donald Trump sugere, ainda que em tom mitigado, a anexação da Groenlândia por razões de “segurança nacional”, ele rompe um dos tabus centrais do pós-1945: o de que as fronteiras no interior do bloco ocidental são intocáveis. A reação da Otan, coordenação, vigilância, comando integrado, funciona menos como dissuasão externa e mais como mecanismo de contenção interna. A aliança passa a operar não apenas contra inimigos declarados, mas contra a instabilidade produzida por sua própria potência hegemônica.

Há um precedente histórico que ilumina esse momento: o Alasca durante a Guerra Fria. Incorporado aos Estados Unidos em 1959, o território tornou-se rapidamente peça-chave do sistema de alerta antecipado contra mísseis soviéticos. Radares, bases aéreas e sensores transformaram um espaço remoto em nervo vital da dissuasão nuclear. A Groenlândia cumpre função análoga desde os anos 1950, com a base de Thule, mas com uma diferença crucial: ela não pertence aos EUA. E é justamente essa diferença que agora gera fricção.

A Crise dos Mísseis de 1962 também oferece uma chave interpretativa. Naquele episódio, o mundo chegou à beira da guerra nuclear não por uma invasão clássica, mas pela instalação de meios de vigilância e ataque em um espaço considerado sensível demais para ser controlado pelo adversário. Hoje, o Ártico reaparece como esse espaço liminar: não plenamente ocupado, não plenamente regulado, mas decisivo para a arquitetura estratégica global. Quem controla o Ártico vê antes, reage antes e, portanto, dissuade melhor.

A missão anunciada pela Otan revela ainda outra transformação histórica: a passagem da ocupação territorial para a dominação informacional. Pouco se fala em grandes contingentes. Fala-se em drones, aeronaves, sensores, comando unificado. A guerra contemporânea, como já intuía Paul Virilio, não se trava apenas no espaço, mas na velocidade da percepção. Ver primeiro é quase tão decisivo quanto atirar primeiro.

Nesse contexto, a Groenlândia deixa de ser periferia e torna-se centro. O degelo abre rotas marítimas, expõe recursos minerais e encurta distâncias estratégicas entre América do Norte, Europa e Ásia. O que era margem geográfica vira eixo geopolítico. Não por acaso, Rússia e China ampliam sua presença na região e não por acaso, Washington reage de forma cada vez mais direta.

O paradoxo é evidente: a Otan tenta preservar a estabilidade de uma ordem internacional que seu principal fiador parece disposto a corroer. Ao responder à retórica expansionista americana com mais institucionalização e coordenação, a aliança atua como amortecedor de um sistema em fadiga. Trata-se menos de preparar uma guerra iminente e mais de administrar um risco difuso: o da normalização do uso da força como linguagem política entre aliados.

No século XX, o gelo do Ártico funcionava como barreira natural e estratégica. No século XXI, seu derretimento expõe não apenas novas rotas e ameaças, mas as fissuras profundas da ordem liberal. Quando o gelo derrete, o que vem à tona não é apenas água, é a verdade incômoda de que a estabilidade internacional depende, cada vez mais, de conter os impulsos daqueles que juraram defendê-la.



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