O anúncio, feito ontem, de uma nova missão da Otan no Ártico, com foco na Groenlândia, poderia ser lido como mais um capítulo previsível da rivalidade com Rússia e China. Mas essa leitura é insuficiente e confortável demais. O dado verdadeiramente novo não é a presença militar ocidental no extremo Norte, mas o fato de que ela surge como resposta indireta à ameaça de um aliado: os Estados Unidos.
Quando Donald Trump sugere, ainda que em tom mitigado, a
anexação da Groenlândia por razões de “segurança nacional”, ele rompe um dos
tabus centrais do pós-1945: o de que as fronteiras no interior do bloco
ocidental são intocáveis. A reação da Otan, coordenação, vigilância, comando
integrado, funciona menos como dissuasão externa e mais como mecanismo de
contenção interna. A aliança passa a operar não apenas contra inimigos
declarados, mas contra a instabilidade produzida por sua própria potência
hegemônica.
Há um precedente histórico que ilumina esse momento: o Alasca
durante a Guerra Fria. Incorporado aos Estados Unidos em 1959, o território
tornou-se rapidamente peça-chave do sistema de alerta antecipado contra mísseis
soviéticos. Radares, bases aéreas e sensores transformaram um espaço remoto em
nervo vital da dissuasão nuclear. A Groenlândia cumpre função análoga desde os
anos 1950, com a base de Thule, mas com uma diferença crucial: ela não pertence
aos EUA. E é justamente essa diferença que agora gera fricção.
A Crise dos Mísseis de 1962 também oferece uma chave
interpretativa. Naquele episódio, o mundo chegou à beira da guerra nuclear não
por uma invasão clássica, mas pela instalação de meios de vigilância e ataque
em um espaço considerado sensível demais para ser controlado pelo adversário.
Hoje, o Ártico reaparece como esse espaço liminar: não plenamente ocupado, não
plenamente regulado, mas decisivo para a arquitetura estratégica global. Quem
controla o Ártico vê antes, reage antes e, portanto, dissuade melhor.
A missão anunciada pela Otan revela ainda outra transformação
histórica: a passagem da ocupação territorial para a dominação informacional.
Pouco se fala em grandes contingentes. Fala-se em drones, aeronaves, sensores, comando unificado. A guerra
contemporânea, como já intuía Paul Virilio, não se trava apenas no espaço, mas
na velocidade da percepção. Ver primeiro é quase tão decisivo quanto atirar
primeiro.
Nesse contexto, a Groenlândia deixa de ser periferia e
torna-se centro. O degelo abre rotas marítimas, expõe recursos minerais e
encurta distâncias estratégicas entre América do Norte, Europa e Ásia. O que
era margem geográfica vira eixo geopolítico. Não por acaso, Rússia e China
ampliam sua presença na região e não por acaso, Washington reage de forma cada
vez mais direta.
O paradoxo é evidente: a Otan tenta preservar a estabilidade
de uma ordem internacional que seu principal fiador parece disposto a corroer.
Ao responder à retórica expansionista americana com mais institucionalização e
coordenação, a aliança atua como amortecedor de um sistema em fadiga. Trata-se
menos de preparar uma guerra iminente e mais de administrar um risco difuso: o
da normalização do uso da força como linguagem política entre aliados.
No século XX, o gelo do Ártico funcionava como barreira
natural e estratégica. No século XXI, seu derretimento expõe não apenas novas
rotas e ameaças, mas as fissuras profundas da ordem liberal. Quando o gelo
derrete, o que vem à tona não é apenas água, é a verdade incômoda de que a
estabilidade internacional depende, cada vez mais, de conter os impulsos
daqueles que juraram defendê-la.