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  • Feira de Santana, sexta, 27 de fevereiro de 2026

Wellington Freire

O destino do prisioneiro na guerra da Ucrânia

27 de Fevereiro de 2026 | 07h 32
O destino do prisioneiro na guerra da Ucrânia
Foto: Reprodução/via BBC

Há guerras que se deixam narrar por mapas. A da Ucrânia, não. Ela se explica melhor pelos corpos que devolve  e pelos que não devolve. Entre trincheiras congeladas, cidades arrasadas e linhas de frente móveis, o destino do prisioneiro tornou-se um dos indicadores mais precisos da natureza deste conflito.

Desde 2022, relatórios internacionais acumulam evidências de tortura sistemática contra militares ucranianos mantidos em cativeiro russo: espancamentos reiterados, choques elétricos, privação de sono, humilhações públicas. Não se trata de excessos isolados. O padrão sugere método. O prisioneiro deixa de ser apenas inimigo neutralizado e converte-se em instrumento de coerção  psicológica, política, simbólica.

A guerra da Ucrânia reintroduziu na Europa algo que se julgava circunscrito a outros teatros: a utilização do cativeiro como extensão da batalha. O corpo capturado prolonga o front. Ele é pressionado para fornecer informações, para produzir vídeos, para servir como prova de vitória. A exibição pública, difundida em redes digitais, transforma o prisioneiro em mensagem estratégica.

Ao mesmo tempo, a troca de cativos tornou-se um dos raros canais diplomáticos ativos entre Rússia e Ucrânia. Em meio ao colapso das negociações políticas, os intercâmbios periódicos revelam uma forma mínima de reconhecimento mútuo: ambos os lados admitem que seus combatentes têm valor para além da morte. O prisioneiro é moeda, mas é também vínculo residual entre inimigos que já não conversam.

Esse paradoxo, brutalização no cativeiro e racionalidade na troca, define a ambiguidade moral do conflito. A guerra é apresentada como existencial por ambos os lados. Quando o adversário é descrito como ameaça civilizacional, a tentação de negar-lhe humanidade aumenta. O tratamento dispensado ao capturado passa a refletir essa radicalização da linguagem política.

O caso dos combatentes da Coreia do Norte introduz uma camada adicional de complexidade. Relatos indicam que soldados norte-coreanos capturados em solo ucraniano temem ser repatriados. Aqui, o prisioneiro se encontra entre duas soberanias potencialmente punitivas. A captura pode significar sobrevivência; o retorno, castigo.

Essa situação desloca o debate para além do confronto bilateral. A presença de norte-coreanos no teatro ucraniano sinaliza a consolidação de um eixo político-militar que ultrapassa a região. O prisioneiro deixa de ser apenas problema entre dois Estados e torna-se questão triangular: quem decide seu destino? A Ucrânia, que o capturou? A Rússia, que coopera com seu país de origem? Ou a própria Coreia do Norte, cujo regime não admite a possibilidade de rendição?

O direito internacional humanitário presume que a repatriação encerra o ciclo da violência. Mas, no caso norte-coreano, a devolução pode representar novo ciclo repressivo. Surge então uma tensão entre o princípio clássico da restituição e a lógica contemporânea de proteção contra perseguição estatal. A guerra da Ucrânia, assim, obriga a reconsiderar pressupostos jurídicos estabelecidos.

Há ainda o plano psicológico. Testemunhos de soldados ucranianos libertados falam de silêncio prolongado, de dificuldade em readquirir a fala, de sensação de irrealidade ao reencontrar a família. O cativeiro não se limita ao espaço físico; ele reorganiza a subjetividade. O prisioneiro retorna, mas algo nele permanece suspenso. A guerra inscreve-se na linguagem, no corpo, na memória.

Nesse contexto, o tratamento do capturado torna-se medida da própria configuração do conflito. Guerras convencionais entre Estados tendem a preservar certa reciprocidade: maltratar excessivamente o inimigo pode implicar retaliação simétrica. Guerras concebidas como absolutas corroem essa lógica. A Ucrânia, situada entre defesa territorial e narrativa de sobrevivência nacional; a Rússia, mobilizando discurso de confronto civilizacional; aliados externos reforçando enquadramentos ideológicos, todos operam sob forte pressão simbólica.

O prisioneiro está no centro dessa tensão. Ele é prova de que o inimigo não foi aniquilado, apenas dominado. Sua existência impõe a pergunta incômoda: que fazer com o adversário quando ele já não combate, mas ainda vive?

A guerra da Ucrânia mostra que a figura do prisioneiro moderno não está garantida por mera existência de tratados. Ela depende de equilíbrio político, cálculo estratégico e, sobretudo, da decisão de não ultrapassar certos limites. Quando esses limites cedem, o cativeiro volta a aproximar-se do poder absoluto sobre o corpo vencido.

Talvez o destino dos prisioneiros, ucranianos torturados, russos trocados, norte-coreanos temerosos do retorno, seja uma das chaves para compreender o conflito. Não apenas quem avança ou recua no mapa, mas quem reconhece ou nega a humanidade do capturado indicará que tipo de guerra está sendo travada  e que tipo de ordem poderá emergir dela.




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