Há algo de profundamente novo na guerra da Ucrânia que talvez ainda não tenha sido plenamente compreendido. Costuma-se dizer que os drones revolucionaram o campo de batalha. É verdade, mas essa afirmação é insuficiente. A verdadeira transformação não está apenas no surgimento de uma nova arma. Está na mudança da própria natureza do combate terrestre.
Durante quase todo o século XX, o soldado temia principalmente o fogo inimigo. Artilharia, metralhadoras, tanques e aviões constituÃam as grandes ameaças. Hoje, antes mesmo de ser atingido, ele teme ser visto. Essa mudança parece sutil, mas altera toda a lógica da guerra.
Os drones criaram aquilo que ouso chamar de uma cobertura aérea permanente. Não se trata da aviação tática tradicional, que aparecia por alguns minutos para bombardear uma posição e depois desaparecia. Trata-se de uma presença contÃnua, persistente, formada por centenas de pequenos sensores espalhados sobre o campo de batalha. Cada drone observa uma rua, uma trincheira, um cruzamento, um telhado. Quando um retorna para trocar a bateria, outro já ocupa seu lugar.
A imagem que melhor traduz essa nova realidade talvez não venha da tecnologia, mas da mitologia grega. O campo de batalha passou a ser observado por um novo Argos, o gigante de cem olhos que jamais dormia completamente. Só que, desta vez, Argos não possui cem olhos. Possui milhares.
A consequência imediata é o comprometimento da capacidade de deslocamento. Desde as campanhas napoleônicas até a Blitzkrieg alemã, a velocidade sempre foi considerada uma virtude militar. Avançar rapidamente significava desorganizar o inimigo antes que ele pudesse reagir. Na Ucrânia, ocorre o oposto. A velocidade tornou-se uma vulnerabilidade. Quanto maior a coluna, quanto mais intenso o movimento, maior sua assinatura visual e maior a probabilidade de ser destruÃda minutos depois por drones, artilharia ou munições guiadas.
Paradoxalmente, a tecnologia produziu lentidão. Os grandes assaltos mecanizados cederam lugar a pequenas infiltrações realizadas por dois ou três soldados, frequentemente utilizando motocicletas ou quadriciclos. Avança-se cinquenta metros. Ocupa-se uma casa. Espera-se. Neutralizam-se os drones adversários. Avança-se mais uma rua. A guerra volta a ser medida em metros.
Essa realidade ajuda a compreender o que ocorre hoje em cidades como Kostiantynivka, no leste da Ucrânia. O combate urbano permanece sendo travado casa por casa, como em Stalingrado ou Fallujah, mas existe uma diferença decisiva: cada casa agora está inserida numa rede permanente de observação aérea. O edifÃcio deixou de ser apenas um objetivo tático; tornou-se um ponto de apoio dentro de um sistema de sensores que cobre toda a cidade.
Isso altera profundamente a teoria da guerra. Durante séculos, o pensamento militar organizou-se em torno de três elementos fundamentais: fogo, movimento e choque. Talvez seja necessário acrescentar um quarto elemento: a visibilidade.
Sempre houve reconhecimento. O que nunca existiu foi uma observação tão persistente, barata e disseminada. O problema central já não consiste apenas em romper a linha inimiga, mas em escapar do seu olhar. Antes de conquistar terreno, torna-se necessário conquistar alguns minutos de invisibilidade.
Essa transformação produz outra consequência, talvez ainda mais inquietante: a mudança da temporalidade da guerra. As grandes batalhas do século XX eram extraordinariamente violentas, mas relativamente concentradas no tempo. Hoje, cidades inteiras permanecem durante meses, por vezes mais de um ano, submetidas a drones, bombardeios, escaramuças e destruição progressiva. O horror não decorre apenas da intensidade da violência, mas de sua duração.
O espaço urbano deixa de sofrer um impacto súbito para ser lentamente consumido. Talvez seja essa a caracterÃstica mais trágica da guerra contemporânea. A tecnologia que prometia acelerar a história produziu batalhas mais lentas. A arma que ampliou a capacidade de observação reduziu a capacidade de movimento. E o drone, concebido inicialmente como instrumento de reconhecimento, acabou inaugurando uma nova condição da guerra: um céu que nunca deixa de olhar.
Sob os cem olhos desse novo Argos, mover-se tornou-se o maior desafio do combatente moderno. E sobreviver, antes de tudo, passou a significar não ser visto.