Ao longo destes últimos 20 anos, ao menos, o cenário político de Feira tem no deputado federal Zé Neto um de seus agentes políticos mais ativos. Muitos o acusam de ser desagregador, de ter afastado as demais lideranças do partido, o que teria limitado o crescimento da representação do PT na cidade. Os adversários aproveitaram para carimbar a marca de pouco controle emocional no deputado, em parte, pelas falas excessivas no rádio.
Não se pode, no entanto, ser negado o papel que ele teve em uma série de intervenções na cidade, sendo a maior, e mais transformadora, a Lagoa Grande, embora ela siga na espera infinita de ver cumprida a promessa do término das obras. É certo que esteve envolvido na grande infraestrutura de saúde montada aqui - reforma do HGCA, HGCA2, Hospital da Criança, Policlínica, UPA, e Unidade de Oncologia, no HDPA- e outras obras como abastecimento de água e Avenida Nóide Cerqueira.
Digo sempre que Feira tem menos do que merece por parte de todos os governos de Estado, mas menos na era petista do que na carlista, exceto com João Durval.
Mas voltando ao que falava, Zé Neto, nessa campanha adotou um tom inverso- foi menos agressivo que Colbert, ao menos nos debates que vi- e incorporou um empresário à sua chapa. A estratégia se mostrou adequada, tanto é que conseguiu liderar o primeiro turno e atingir quase 140 mil votos, no segundo turno, aproveitando o cansaço de parte dos eleitores com o longo tempo de poder do grupo que Colbert está filiado e superando sua marca histórica.
Não se pode negar a votação que teve, mesmo que parte seja volátil, e evidente que de forma legitima irá liderar a oposição e insatisfação que foi manifestada pelos eleitores feirenses. O que fará com essa responsabilidade é o que precisa ser observado.
O que ia comentar, no entanto, nada tem a ver com a política. Fiz um elogio no rádio, no Acorda Cidade, ao deputado, por seu exemplo de resiliência. Não é fácil perder tantas eleições e persistir buscando. Em um mundo de dificuldades, como o atual, essa é uma das maiores necessidades dos seres humanos. Resistir mesmo quando os resultados são adversos. E nisso, ele tem mostrado uma grande capacidade.
Com longa passagem pelo marketing político e a experiência de cinco campanhas anteriores do grupo de José Ronaldo- todas vitoriosas- e com campanhas fora do Estado como a de Ronaldo Caiado, em Goiás, o publicitário Xiko Melo enfrentou o maior desafio da carreira nessa campanha, em Feira. Não só porque tinha um adversário em crescimento, mas pela fadiga de material do longo tempo de ocupação do poder pelo mesmo grupo.
Em uma campanha sem comícios e sem corpo a corpo por conta da pandemia as redes sociais e o tempo de TV se tornaram cruciais. Depois de sair atrás no primeiro turno o marketing optou por uma jogada arriscada, mas decisiva: reduzir a participação de Ronaldo e tornar Colbert protagonista da campanha. Imagino que uma decisão desse tipo não deve ser fácil de ser tomada dentro de uma campanha de tempo curto, sem margem para recuperações, e com atores políticos experientes. Foi uma jogada muito importante e que deu certo.
Xiko Melo venceu sua sexta campanha e prova de fogo.
Foi uma eleição empolgante como não víamos há 24 anos. Depois de sair atrás no primeiro turno e ver seu adversário superar uma marca histórica de votos, Colbert Martins, do MDB, virou o jogo e ganhou a eleição por 26.758 votos.
Evidente que a mudança de estilo de campanha, com perfil mais moderado, e inclusão de um empresário em sua chapa, fez Zé Neto ( PT) crescer e obter uma votação significativa, a maior das cinco vezes em que disputou o cargo. É claro, também, que as desagregações que promoveu no passado cobrou seu preço no entusiasmo do grupo e limitou seu crescimento, em parte alimentado pelo cansaço da liderança de José Ronaldo ( DEM), um sentimento alardeado pela cidade.
Definido o segundo turno e a possibilidade real de vitória do PT, o que se viu foi o despertar de um sentimento inverso capitaneado por dois acertos da campanha de Colbert. Em primeiro, o protagonismo que assumiu na campanha, chamando para si a responsabilidade, reafirmando que era o prefeito e que só tinha dois anos de mandato e descolando-se do legado de vinte anos que o adversário havia colado no primeiro turno. Em segundo, o despertar do sentimento de antipetismo que levou a um esforço muito maior de seus partidários - antes, acostumados a uma vitória sem muito esforço- um trabalho intenso, e disposição de muitos feirenses que decidiram lutar pela vitória de Colbert e foram em busca de votos, inclusive publicamente, gerando a onda final que fez a virada e a vitória do candidato do MDB.
Escrevemos aqui no site, no sábado, que aquele que tivesse mais disposição, vontade, ação, e firmeza, na reta final, levaria a eleição.
Estavamos certos. Colbert venceu.
Rui Costa contava com a vitória nos dois maiores colégios eleitorais depois de Salvador para aumentar seu cacife na eleição de 2022 em que o PSD, do Senador Otto Alencar, deve ter candidato próprio, afinal, o partido ganhou musculatura enquanto o PT perdeu.
As coisas não deram certo para Rui Costa que perdeu em Feira, Conquista, ficando com os 32 prefeitos que elegeu no primeiro turno. Em compensação, ACM Neto, emplacou o prefeito de Salvador e dois aliados do MDB, em Feira e Conquista.
O PSD tem 105 prefeituras( cresceu 24). O PP ficou com 86 (cresceu 31). O DEM ficou com 37 ( 1 a menos). O PT com 32 e o PSB com 29 prefeituras. São os cinco partidos com mais cidades sob seus domínios.
O DEM, no entanto, foi a legenda que mais recebeu votos, com 1.581.991 eleitores . O PSD foi o segundo com 1.491.257 votos nos seus candidatos a prefeito. O PT ficou em terceiro com 1.257.771 já incluida a votação de Zé Neto, em Feira. Já o PP obteve 1.026.769 votos. O MDB surge entre os cinco com 655.370 votos já incluída a votação obtida em Feira de Santana e Vitória da Conquista.
As duas derrotas de ontem embaralharam o cacife de Rui e deram folêgo a ACM Neto.
O cansaço do Ronaldismo gerou o segundo turno; o antipetismo lhe deu a vitória.