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César Oliveira - 14 de Março de 2017 | 16h 54
Cultivar o deserto como um pomar às avessas, ensina João Cabral. Minha mãe não conhece o verso, mas é possível que o verso saiba de minha mãe. Ela tem 87 anos, mais juízo e disposição do que eu que venho avariado de vários avarios e ventanias. Por isso admiro a disposição com que todas as manhãs ela sai da cidade onde mora e vai pra roça passar o dia -às vezes, vai e volta duas vezes-, cuidar do quintal onde planta de tudo que em se plantando a terra dá. E rosas.
Sim, minha mãe planta rosas. Ela sempre plantou rosas. Até nos dias em que nada era possível plantar, ela plantou rosas. Às vezes açucenas, que minha mãe é de jardins e hortas, mas, sobretudo, rosas. Amarelas, vermelhas, grandes, pequenas, brancas, e rosas rosas. A vida inteira ela nunca deixou de plantar rosas. Nas tempestades e nas calmarias; nos dias perenes e nos escassos. Se lhe tirassem um jardim, ela plantava em caqueiros; se lhe faltava caqueiros ela plantava em baldes, até que se inaugurasse um outro jardim, todo dividido com tijolos, em leiras, com folhas pra rezas- sim, ela é dessas- chás, hortaliças e canteiros de rosas.
Sim, minha mãe sempre plantou rosas. E sempre riu nas pétalas. Muitas das folhas não passavam simplesmente de gargalhadas. Era muito fácil de ver. Meu pai não sabia enxergar isto e apenas olhava achando aquilo uma perda de tempo, mas deixava. Uma ou outra que podia parecer um choro, uma dor, nunca vingava. Esta, era logo trocada por uma ainda mais viçosa, resistente, bela, de textura delicadíssima e perfume terno, destas que até o orvalho, pela manhã, tem lamento de cair e se arrepende de seu destino de evaporar. Eram as minhas preferidas. Umas eram orgulho, ou travessia, outras eram esmero- podadas, polidas, adubadas- e, algumas, eram verdes, apesar dela dizer que nunca plantou rosas verdes. Estas, acho que só eu as vi. Umas eram rosas confessadas, outras eram distância e falta, mas eram todas flores da senhora das rosas. Às vezes, ela dizia: olha como está linda, olha, olha, admirada e a rosa, por vezes envergonhada, enrubescia.
Depois que meu pai se foi, lá na roça, encompridei o quintal, lhe dei um jardim. Desde então, todos os dias, ela vai pra sua arcaica lavoura de regar o deserto , semear, enredar a terra no ofício de fazer seu pomar avesso, e plantar muitas rosas. Ela as colhe a cada dois ou três dias para colocá-las aos pés dos santos de seu quarto e na pequena gruta na entrada da casa, onde ficam os outros. Minha mãe planta rosas e as oferta aos santos. Algum acordo ela há de ter com eles. Eu não sei o que é, mas desde que vi uma rosa verde por lá desconfio que tem algo a ver comigo e os meus. Minha mãe planta rosas. Ela sempre plantou rosas. E eu não sei nada de fé e amor que se pareça com mais do que isto.
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César Oliveira - 11 de Março de 2017 | 18h 54
Enquanto a agenda de reformas de Michel Temer segue necessária e correta -Teto de Gastos, Previdência, Educação, Trabalhista- a política parece seguir em surto esquizofrênico, totalmente distanciada da realidade, da necessidade e da esperança e cobrança do povo brasileiro.
Enquanto a economia, em recessão, e depois do PIB negativo de 3,6% - ao contrário do resto do mundo que cresceu- começa a dar sinais de recuperação, ainda que tímidos, a política se torna cada vez mais objeto de desqualificação e desprezo do eleitor. O próprio Temer pisa e repisa nas aspirações nacionais ao insistir em manter Jucá, líder do governo, e garantir o cada vez mais delatado, Padilha - o homem com 4 senhas na Odebrecht-, no governo. Ou, ainda, tentar salvar Moreira Franco com o foro privilegiado. Com o MP e o STF em jogo de empurra, o empresariado vai delatando e saindo para curtir a vida e os políticos seguem tocando seus mandatos e novos negócios escusos, sem que nada coloque fim na bandidagem eleita.
Resta a você, brasileiro, se convencer que país nenhum muda com revolta de whats-app, sem cobrança nas ruas. E partir para uma terapia de choque ou continuaremos carregando todos os velhos criminosos até os fins dos tempos sem controlar a doença.
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César Oliveira - 11 de Março de 2017 | 18h 52
Os depoimentos avassaladores da Odebrecht, inicialmente, colocam Dilma no centro da corrupção, ao revelar que ela sabia de tudo, não lhe restando menos que a prisão, o que fará dela a primeira presidente mulher e a primeira presidente mulher presa. Enquanto isto as forças mais diversas, apavoradas com a extensão da lesão para além do PT, começam a tentar transformar Caixa 2 de A diferente de Caixa 2 de B, sendo que o errado é apenas o do partido adversário.
O saque aos recursos públicos no governo PT atingiu um nível de pilhagem como nunca antes neste país. Vendiam-se leis, almas, biografias, oportunidades, controle do BNDES e tudo mais que fosse negociável. Foi a era da governabilidade de balcão.
A destruição de estatais, fundos, Petrobrás, BNDES, entre tantas outras fontes de verbas irrigou as biografias mais devassas da República- apartidariamente, sejamos justos- e levou o empresariado brasileiro a um estado de desmando e selvageria que jamais poderia ter sido levado à frente e tolerado pelas autoridades. O projeto internacional de corrupção da Odebrecht – uma usina do crime- internacionalizou o regime brasileiro de administração corrupta levando insegurança a todo continente, afinal, não é a toa que se diz que a América Latina irá para onde for o Brasil.
Apesar dos fatos, Lula ousa dizer que será candidato; Dilma diz que seu governo só teve sucesso e os velhacos de sempre do noticiário do Congresso se recusam a morrer e dizem que o país vai bem.
Deu onda...
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César Oliveira - 23 de Fevereiro de 2017 | 19h 24
Impressionante o estágio de degradação que toma conta da política brasileira, como se fosse algo tolerável e aceitável.
Lobão-sem contar o filho, com contas bloqueadas na Suíça- é investigado na Lava-Jato, em 2 inquéritos, e preside a Comissão de Constituição e Justiça, que acaba de julgar e aprovar o novo Ministro indicado ao Supremo, Alexandre Moraes, ex–Ministro de Temer. Comissão esta, que tem 10 de seus membros citados nas delações premiadas.
Ao mesmo tempo, o presidente interino, Temer, nomeia seu dileto amigo, Moreira Franco, supracitado em delações, para o cargo de Ministro, fingindo ser algo normal, quando até as carpas do lago Paranoá, sabem que foi para lhe dar o foro privilegiado.
Do seu grupo já havia sido apeado o baiano Geddel, por tráfico de influência, e, agora, acusado em várias outras situações de possível fraude na CEF. Padilha, que atua como seu auxiliar técnico na contabilidade da bancada, é, também, acusado em delações.
Como se tudo isto não bastasse, Romero Jucá, nomeado Ministro, mas afastado por acusações, reassumiu como líder do governo Temer- que parece nunca ficar constrangido por nenhum nível de imoralidade- e não para de tentar medidas que tragam impunidade ou bloqueie a Lava-Jato. Jucá, o Cajú, da lista da Odebrecht, servidor universal de todos os governos, useiro e vezeiro no noticiário policial, assume um protagonismo inacreditável. Em 2005 ficou conhecido como o "fazendeiro do ar", por oferecer fazendas fantasmas na Amazônia como garantia de empréstimos ao Banco da Amazônia (Basa). Como sempre, ressalte-se, escapou ileso. Este Jucá, ao se referir a Ministros do STF, que discutiam uma proposta de restringir o alcance da prerrogativa de foro, disse que "Se acabar o foro, é para todo mundo. Suruba é suruba. Aí é todo mundo na suruba, não uma suruba selecionada". Este linguajar de cabaré revela a alma e o nível de degradação dos ocupantes dos cargos mais poderosos da República. Este homem é o líder do governo. Imaginem.
Há, no entanto, sinais de agravamento. Operação da PF, hoje, revela propina de U$S40 milhões que teria sido destinada a Senadores do PMDB.
Enquanto isto, Temer, avança nas medidas econômicas, inclusive com redução dos juros, controle da inflação, e nas reformas necessárias, mas finge não ver, ou aprova silenciosamente, o comportamento francamente criminoso de seus principais auxiliares. Esquece que seu capital político é uma ninharia e que não há vestal em meio à lama. Temer devia lembrar-se.
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César Oliveira - 23 de Fevereiro de 2017 | 19h 19
Não caminho sem avarias, mas não atiço lamentos. Não margeio perdas ou danos. Não cobiço sesmarias além daquelas da alma. Celebro as especiarias, os pratos elaborados, o maturi, a abóbora com leite, e as taças da embriaguez. Os abraços dados, em silêncio, ou comunhão; as palavras que confessei onde se confessava palavras, e muitos de mim habitaram.
Sou de melancolias e solidões, mas um amigo perdido me dilacera. Cometi vilanias - demasiado humano-, mas apanhei mais que o merecido. Tenho sérias reclamações a meu respeito, mas sou bom filho e pai. Toquei, por vezes, ah Deus, o inacessível chão, como milagre pessoal. Fiz-me, nem sempre por escolhas, mas, sim, por arrebatamentos. Ouvi música, como reza, e dancei imaginariamente o infinito baile dos corpos.
Não sei muitas coisas simples, que todo mundo sabe. Sou de rara inabilidade, mas tenho coração. Afirmo, com certeza, ainda que cambaleante. Sou de boas intenções, embora saiba que o inferno tem algumas minhas. Embriago-me com tanto da vida: a roça com um verde virgem, quando chove; cartas em papel, um ciclista que entrega flores, papel jornal, os textos que invejo não ter escrito, ruas de pedra, vestido de flores, vinhos de sobremesa.
Coleciono sinos dos lugares que vou, imaginando que dobram por mim; amo doces e sou perene com o de tomate. Quero as coisas certas, bem feitas, mas sem exageros doentios. Sou de sol, lua e neblinas. Peixes, do segundo decanato. Com ascendente em esperança. Sou.