A declaração de Nuzman, presidente do Comitê Olímpico, de que ele fez o Pan, a Olimpíada, o vôlei brasileiro, e que por isso pode até desrespeitar a lei que recomenda não ser presidente por mais de oito anos já foi de uma descortesia e arrogãncia estupenda.
Nuzman não quer admitir que o governo além dos gastos indiretos irá bancar R$260 milhões de déficit dos jogos por isso disse que dinheiro de estatal não é dinheiro público.
É uma das maiores aberrações que já ouvi e de um cinismo olímpico. E já o desqualifica para cuidar do nosso dinheiro.
Volto ao assunto pela gravidade da questão. A crise atual do Brasil tem um pé em um projeto permanente de poder e outro na corrupção instalada para sua sustentação. O roubo, no entanto, não é inaugural. Aportou com as caravelas de Cabral e tomou impulso com a lassidão judicial e a falência moral que vivemos.
Um dos raros avanços que tivemos nos últimos anos foi a criação da Lei da Ficha Limpa, após iniciativa popular, que recolheu mais de 1,6 milhões de assinaturas. Com ela, 4339 prefeitos e ex-prefeitos corruptos estavam afastados das tetas públicas.
Agora, com a esdrúxula decisão do STF - que ao invés de correção de algum aspecto, preferiu suspender a lei-, afirmando que apenas as Câmaras de Vereadores deixarão um candidato com as contas desaprovadas pelos Tribunais de Contas, inelegível, todos aqueles afastados poderão voltar. E já estão se candidatando. É de dar calafrios.
Não fosse pouco, o Ministro Gilmar, deselegante, desrespeitoso, inconveniente, disse que a lei parecia " feita por bêbados".
Com a decisão do STF a Sociedade brasileira acordará mesmo de ressaca.
A relação de medalhas é uma forma tão verdadeira quanto qualquer outra de identificar o grau de desenvolvimento de um país. Não é a atoa que os EUA vão emplacar sua milésima medalha nestes jogos, mesmo sem ter um Ministério dos Esportes para chamar de seu. Lá, um Phelps, que anda aí pelas 29 medalhas olímpicas é fruto do talento e treinamento extremado. E só.
No Brasil, a cada medalha meus instintos mais primitivos entram no tatame, embarcam na canoa furada, dão piruetas nas argolas e atiram na hipocrisia narrativa. É só o atleta faturar uma medalha e sua biografia começa a ser possuída por alguma entidade dementadora, tal como naqueles livros do Harry Potter, alguma narrativa social. É a judoca lésbica, ginasta racista, o boxeador arrodeado de mulheres fortes, a nadadora negra, e por aí vai.
As notícias seguem como pautas xerox. Não se fala da rotina de treinamento, do tempo empregado na preparação, da técnica que resultou em vitória, do modelo que selecionou os melhores, do projeto que resultou em sucesso e qual fracassou. De quem treinou no exterior e quem treinou no Brasil, da importação de técnicos, do espaço de treinamento. Ou porque 9 dos 11 medalhistas são militares. Qual impacto e que diferença fez estarem inseridos nas Forças Armadas., por exemplo?
Enfim, não se fala do que fez aquele atleta se tornar um vencedor, pois, este é o verdadeiro diferencial e o retrato da atenção que o país dá ao esporte. Narrativas sociais, apropriação indébita do atleta por causas, não dá medalha a nenhum deles. Nem dará.
Em decisão apertada o STF aprovou que apenas as Câmaras de Vereadores podem decidir sobre as contas dos prefeitos e não mais os Tribunais de Contas. Assim, prefeitos que tenham suas contas reprovadas pelos Tribunais não ficarão mais inelegíveis como vinha acontecendo.
Na prática, trocando em miúdos e deixando de arrodeio foi um retrocesso porque esvaziou os Tribunais do poder fiscalizatório e botou a faca e o queijo na mão dos vereadores. A lei da Ficha Limpa, prezado pagador de impostos, começou a entrar pelo cano exatamente no momento em que a Sociedade mais exige transparência. Com a nova medida estima-se que 80% dos políticos que estavam inelegíveis poderão voltar às tetas públicas.
Trocando em miúdos: basta que a Câmara não se reúna e o parecer do TC desaprovando as contas fica no limbo, sem valor. Assim, o encontro com a lei vai sendo adiado e o prefeito vai poder continuar livre, leve e elegível. Rico, recatado e na política. Alto lá, não será assim!, pode ser que grite algum vereador, mas imagine uma bancada tradicionalmente produtora de amém em um cidade pequena que ousadia terá de se reunir para tornar inelegível o alcaide que garante sua reeleição? Ou numa cidade maior, imaginária, vai lá que o prefeito lhe conceda 100, 200, cargos na estrutura municipal. Que chance haverá de um prefeito se tornar inelegível?
A única certeza, neste surto produzido pelo STF, é que manter certos vereadores indispostos para esta reprovação vai custar muito convencimento, por assim dizer.
Não se concebe que uma cidade não possua um robusto núcleo de arquitetura, que intervenha em seu urbanismo, permanentemente, para além do seu planejamento.
Os conceitos que permeiam uma cidade mais confortável e acessível ao cidadão e ao transporte público em detrimento do privado tem vasta literatura.
Sempre defendemos esta posição. Ao andarmos nas ruas encontramos a cidade abarrotada de pequenos exemplos desta falta de atenção que torna a vida do cidadão um permanente e irritante desconforto cotidiano.