A operação conduzida por Donald Trump e Benjamin Netanyahu
contra o Irã oferece menos uma novidade militar do que uma lição antiga:
guerras precisam de linguagem antes de precisarem de mísseis. Não há conflito
moderno que se sustente sem uma moldura moral que o torne suportável aos que
combatem e legítimo aos que assistem.
Trump fala em “defender o povo americano”. Netanyahu evoca a
“ameaça existencial”. Em ambos os casos, a ofensiva é narrada como defesa. A
retórica não é detalhe é condição de possibilidade. Desde Tucídides,
sabemos que as cidades não guerreiam apenas por medo, honra ou interesse;
guerreiam também por palavras que transformam agressão em necessidade.
A história moderna é fértil nesse expediente. Em 1914, as
potências europeias declararam-se forçadas a agir para preservar equilíbrio e
segurança. Em 1967, Israel justificou o ataque preventivo como resposta à
asfixia estratégica iminente. Em 2003, os Estados Unidos apresentaram a invasão
do Iraque como antecipação de uma ameaça intolerável. A gramática é recorrente:
não se ataca; previne-se. Não se expande; protege-se. Não se escolhe a guerra;
evita-se uma pior.
A distinção clássica entre guerra preventiva e guerra
preemptiva, tão cara ao direito internacional, dissolve-se no discurso
político. A preempção responde a um golpe iminente; a prevenção elimina um
risco futuro. No entanto, no plano narrativo, ambas se fundem sob o signo da
autodefesa. O efeito é duplo: absolve o decisor e mobiliza a opinião pública.
Há nisso um elemento literário profundo. A guerra precisa de
antagonistas morais claros. Quando Trump descreve o regime iraniano como ameaça
à civilização, insere o conflito numa dramaturgia binária: ordem contra caos,
liberdade contra tirania. Netanyahu, ao falar em ameaça existencial, convoca o
imaginário da sobrevivência histórica de Israel. Não se trata apenas de cálculo
estratégico; trata-se de mitologia política.
Esse enquadramento produz um fenômeno curioso: a guerra
torna-se não apenas instrumento, mas narrativa pedagógica. O inimigo deve ser
apresentado como incapaz de dissuasão racional; caso contrário, a negociação
pareceria alternativa plausível. Ao demonizar, elimina-se o meio-termo. A
linguagem estreita o campo do possível.
Mas há outro elemento igualmente relevante: o retorno da
guerra interestatal aberta.
Durante três décadas, habituamo-nos à ideia de que o conflito
clássico entre Estados havia sido substituído por guerras assimétricas,
insurgências, terrorismo e operações de baixa intensidade. O pós-Guerra Fria
parecia confirmar a tese de que a grande guerra convencional era resquício do
século XX.
No entanto, quando dois Estados atacam frontalmente outro
Estado soberano, com forças aéreas, mísseis e alvos estratégicos declarados,
algo do modelo clássico ressurge. Não se trata de milícias ou proxies apenas;
trata-se de comando nacional assumindo responsabilidade explícita pela força. É
a reestatização da guerra.
Essa tendência já vinha sendo ensaiada em outros teatros. O
que se observa agora é a consolidação de um padrão: a normalização do uso
direto da força entre Estados como mecanismo ordinário de gestão de ameaças. O
léxico permanece o da segurança; o instrumento, porém, é o da destruição
organizada.
Historicamente, a guerra interestatal clássica implicava
limites reconhecidos — declaração formal, frentes definidas, objetivos
territoriais ou estratégicos claros. O que vemos hoje é uma forma híbrida:
meios convencionais aplicados sob justificativas preventivas e sem declaração
formal de guerra. É o retorno do modelo clássico sem suas amarras rituais.
Esse movimento sugere algo mais amplo: a erosão da ordem
construída após 1945, baseada na contenção institucionalizada do uso da força.
Quando a negociação em curso é abandonada em favor da ação militar, o recado
não é apenas dirigido ao adversário imediato, mas ao sistema como um todo. A
mensagem é que a diplomacia é contingente; a força, decisiva.
Há, portanto, uma convergência entre os dois fenômenos. A
narrativa moral permite o retorno da guerra aberta; a guerra aberta reforça a
narrativa moral. Cada ataque exige nova justificativa; cada justificativa
amplia o espaço para o próximo ataque. Clausewitz escreveu que a guerra é
continuação da política por outros meios. Talvez estejamos testemunhando uma
inflexão: a política passa a ser a continuação da guerra por outros meios, um
intervalo retórico entre operações.
Se a ofensiva é sempre apresentada como defesa, e se a guerra interestatal volta a ser instrumento normalizado, o mundo entra numa fase em que a exceção se converte em regra. A linguagem prepara o terreno; a força o ocupa. E, como sempre na história, o que começa como necessidade termina como precedente.