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  • Feira de Santana, sbado, 28 de fevereiro de 2026

Wellington Freire

Ataque ao Irã: a ilusão da guerra necessária

28 de Fevereiro de 2026 | 07h 08
Ataque ao Irã: a ilusão da guerra necessária
Foto: Majid Asgaripour/West Asia News Agency (Wana)

A operação conduzida por Donald Trump e Benjamin Netanyahu contra o Irã oferece menos uma novidade militar do que uma lição antiga: guerras precisam de linguagem antes de precisarem de mísseis. Não há conflito moderno que se sustente sem uma moldura moral que o torne suportável aos que combatem e legítimo aos que assistem.

Trump fala em “defender o povo americano”. Netanyahu evoca a “ameaça existencial”. Em ambos os casos, a ofensiva é narrada como defesa. A retórica não é detalhe  é condição de possibilidade. Desde Tucídides, sabemos que as cidades não guerreiam apenas por medo, honra ou interesse; guerreiam também por palavras que transformam agressão em necessidade.

A história moderna é fértil nesse expediente. Em 1914, as potências europeias declararam-se forçadas a agir para preservar equilíbrio e segurança. Em 1967, Israel justificou o ataque preventivo como resposta à asfixia estratégica iminente. Em 2003, os Estados Unidos apresentaram a invasão do Iraque como antecipação de uma ameaça intolerável. A gramática é recorrente: não se ataca; previne-se. Não se expande; protege-se. Não se escolhe a guerra; evita-se uma pior.

A distinção clássica entre guerra preventiva e guerra preemptiva, tão cara ao direito internacional, dissolve-se no discurso político. A preempção responde a um golpe iminente; a prevenção elimina um risco futuro. No entanto, no plano narrativo, ambas se fundem sob o signo da autodefesa. O efeito é duplo: absolve o decisor e mobiliza a opinião pública.

Há nisso um elemento literário profundo. A guerra precisa de antagonistas morais claros. Quando Trump descreve o regime iraniano como ameaça à civilização, insere o conflito numa dramaturgia binária: ordem contra caos, liberdade contra tirania. Netanyahu, ao falar em ameaça existencial, convoca o imaginário da sobrevivência histórica de Israel. Não se trata apenas de cálculo estratégico; trata-se de mitologia política.

Esse enquadramento produz um fenômeno curioso: a guerra torna-se não apenas instrumento, mas narrativa pedagógica. O inimigo deve ser apresentado como incapaz de dissuasão racional; caso contrário, a negociação pareceria alternativa plausível. Ao demonizar, elimina-se o meio-termo. A linguagem estreita o campo do possível.

Mas há outro elemento igualmente relevante: o retorno da guerra interestatal aberta.

Durante três décadas, habituamo-nos à ideia de que o conflito clássico entre Estados havia sido substituído por guerras assimétricas, insurgências, terrorismo e operações de baixa intensidade. O pós-Guerra Fria parecia confirmar a tese de que a grande guerra convencional era resquício do século XX.

No entanto, quando dois Estados atacam frontalmente outro Estado soberano, com forças aéreas, mísseis e alvos estratégicos declarados, algo do modelo clássico ressurge. Não se trata de milícias ou proxies apenas; trata-se de comando nacional assumindo responsabilidade explícita pela força. É a reestatização da guerra.

Essa tendência já vinha sendo ensaiada em outros teatros. O que se observa agora é a consolidação de um padrão: a normalização do uso direto da força entre Estados como mecanismo ordinário de gestão de ameaças. O léxico permanece o da segurança; o instrumento, porém, é o da destruição organizada.

Historicamente, a guerra interestatal clássica implicava limites reconhecidos — declaração formal, frentes definidas, objetivos territoriais ou estratégicos claros. O que vemos hoje é uma forma híbrida: meios convencionais aplicados sob justificativas preventivas e sem declaração formal de guerra. É o retorno do modelo clássico sem suas amarras rituais.

Esse movimento sugere algo mais amplo: a erosão da ordem construída após 1945, baseada na contenção institucionalizada do uso da força. Quando a negociação em curso é abandonada em favor da ação militar, o recado não é apenas dirigido ao adversário imediato, mas ao sistema como um todo. A mensagem é que a diplomacia é contingente; a força, decisiva.

Há, portanto, uma convergência entre os dois fenômenos. A narrativa moral permite o retorno da guerra aberta; a guerra aberta reforça a narrativa moral. Cada ataque exige nova justificativa; cada justificativa amplia o espaço para o próximo ataque. Clausewitz escreveu que a guerra é continuação da política por outros meios. Talvez estejamos testemunhando uma inflexão: a política passa a ser a continuação da guerra por outros meios, um intervalo retórico entre operações.

Se a ofensiva é sempre apresentada como defesa, e se a guerra interestatal volta a ser instrumento normalizado, o mundo entra numa fase em que a exceção se converte em regra. A linguagem prepara o terreno; a força o ocupa. E, como sempre na história, o que começa como necessidade termina como precedente.



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