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Wellington Freire

O dia em que a guerra voltou a ser método

Wellington Freire - 28 de Fevereiro de 2026 | 07h 18
O dia em que a guerra voltou a ser método
Foto: Roberto Schmidt, Atta Kenare/AFP

A decisão de Donald Trump de atacar o Irã em conjunto com Benjamin Netanyahu, mesmo após o anúncio de nova rodada de negociações nucleares, não é apenas uma escalada militar. É um gesto conceitual: indica que a força deixou de ser o último recurso da diplomacia para tornar-se seu substituto.

Desde a Paz de Vestfália, em 1648, a ordem internacional moderna se organizou em torno de um princípio simples e revolucionário: Estados soberanos reconhecem-se mutuamente e limitam o uso da força a circunstâncias extremas. O monopólio da violência é interno; externamente, vigora o reconhecimento recíproco. A guerra, embora nunca abolida, passa a ser enquadrada por regras, ritos e justificativas.

Quando uma potência decide atacar no meio de negociações em curso, a mensagem não se limita ao adversário imediato. O recado é sistêmico: o diálogo é contingente; a coerção, decisiva. A diplomacia deixa de ser arena principal de resolução de disputas estratégicas e passa a funcionar como intervalo entre demonstrações de poder.

O argumento apresentado é o da prevenção: impedir que Teerã consolide capacidade nuclear. Aqui reside a inflexão crucial. Preempção e prevenção não são equivalentes. A preempção responde a uma ameaça iminente, quase tangível; a prevenção elimina uma ameaça potencial futura. O direito internacional, herdeiro da tradição de Grotius, tolera a primeira sob critérios estritos de necessidade e proporcionalidade. A segunda abre espaço para guerras de escolha, nas quais a percepção do risco substitui sua materialidade.

Ao diluir essa distinção, amplia-se perigosamente o campo da autodefesa. Se a mera possibilidade de fortalecimento estratégico do outro autoriza o ataque, qualquer Estado pode reivindicar igual prerrogativa. A segurança deixa de ser produto da contenção recíproca e passa a depender da iniciativa unilateral.

O precedente é ainda mais perturbador se considerarmos a hipótese, mesmo não confirmada — de eliminação direta de um chefe de Estado em exercício. Nem mesmo no auge da Guerra Fria Washington assumiu formalmente a morte de um líder adversário como objetivo central de política externa. Se isso se torna aceitável, ingressamos numa era de decapitação de regimes como instrumento legítimo de gestão estratégica. A soberania, pilar da ordem vestfaliana, torna-se condicional à tolerância das grandes potências.

A experiência histórica recomenda ceticismo quanto às promessas implícitas nesse tipo de operação. A derrubada de Saddam Hussein desestruturou o Estado iraquiano e abriu espaço para guerra sectária prolongada. A queda de Muammar Gaddafi fragmentou a Líbia em milícias rivais. O vazio de poder raramente produz ordem liberal espontânea; produz competição armada por legitimidade e controle territorial.

Há ainda o fator estrutural frequentemente subestimado na retórica moral: o Estreito de Hormuz. Por ali transita parcela decisiva do comércio global de energia. Um bloqueio, mesmo temporário, afetaria cadeias produtivas, mercados financeiros e segurança energética em escala planetária. O conflito, portanto, não é apenas regional. É sistêmico. A guerra no Golfo nunca permanece no Golfo.

O que se desenha é a erosão progressiva da arquitetura construída após 1945, cujo objetivo era conter a tentação da guerra preventiva. O abandono do acordo nuclear de 2015 já sinalizava o enfraquecimento do multilateralismo. O ataque durante negociações em andamento consolida a percepção de que acordos são instrumentos táticos, não compromissos estruturais.

Clausewitz escreveu que a guerra é a continuação da política por outros meios. Mas essa fórmula pressupunha que a política precedesse a guerra, que a moldasse e a contivesse. Quando a força passa a anteceder e substituir a negociação, a equação se inverte. A política torna-se gestão das consequências do uso da força; a diplomacia, mecanismo de administração do dano.

Talvez estejamos diante de algo mais profundo do que uma crise regional: uma mutação na hierarquia dos instrumentos de poder. Se a guerra preventiva se normaliza e a soberania se torna relativa, o sistema internacional retorna a uma lógica anterior à institucionalização pós-1945, uma lógica em que a estabilidade depende menos de regras compartilhadas e mais da capacidade de impor custos.

Se isso for verdade, o Oriente Médio não é apenas palco de mais um confronto. É laboratório de uma nova  ou antiga ordem internacional, na qual a diplomacia não desaparece, mas perde centralidade. E quando a diplomacia deixa de ser eixo e se torna adereço, a guerra deixa de ser exceção e volta a ser método.



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