A decisão de Donald Trump de atacar o Irã em conjunto com
Benjamin Netanyahu, mesmo após o anúncio de nova rodada de negociações
nucleares, não é apenas uma escalada militar. É um gesto conceitual: indica que
a força deixou de ser o último recurso da diplomacia para tornar-se seu
substituto.
Desde a Paz de Vestfália, em 1648, a ordem internacional
moderna se organizou em torno de um princÃpio simples e revolucionário: Estados
soberanos reconhecem-se mutuamente e limitam o uso da força a circunstâncias
extremas. O monopólio da violência é interno; externamente, vigora o
reconhecimento recÃproco. A guerra, embora nunca abolida, passa a ser
enquadrada por regras, ritos e justificativas.
Quando uma potência decide atacar no meio de negociações em
curso, a mensagem não se limita ao adversário imediato. O recado é sistêmico: o
diálogo é contingente; a coerção, decisiva. A diplomacia deixa de ser arena
principal de resolução de disputas estratégicas e passa a funcionar como
intervalo entre demonstrações de poder.
O argumento apresentado é o da prevenção: impedir que Teerã
consolide capacidade nuclear. Aqui reside a inflexão crucial. Preempção e
prevenção não são equivalentes. A preempção responde a uma ameaça iminente,
quase tangÃvel; a prevenção elimina uma ameaça potencial futura. O direito
internacional, herdeiro da tradição de Grotius, tolera a primeira sob critérios
estritos de necessidade e proporcionalidade. A segunda abre espaço para guerras
de escolha, nas quais a percepção do risco substitui sua materialidade.
Ao diluir essa distinção, amplia-se perigosamente o campo da
autodefesa. Se a mera possibilidade de fortalecimento estratégico do outro
autoriza o ataque, qualquer Estado pode reivindicar igual prerrogativa. A
segurança deixa de ser produto da contenção recÃproca e passa a depender da iniciativa
unilateral.
O precedente é ainda mais perturbador se considerarmos a
hipótese, mesmo não confirmada — de eliminação direta de um chefe de Estado em
exercÃcio. Nem mesmo no auge da Guerra Fria Washington assumiu formalmente a
morte de um lÃder adversário como objetivo central de polÃtica externa. Se isso
se torna aceitável, ingressamos numa era de decapitação de regimes como
instrumento legÃtimo de gestão estratégica. A soberania, pilar da ordem
vestfaliana, torna-se condicional à tolerância das grandes potências.
A experiência histórica recomenda ceticismo quanto à s
promessas implÃcitas nesse tipo de operação. A derrubada de Saddam Hussein
desestruturou o Estado iraquiano e abriu espaço para guerra sectária
prolongada. A queda de Muammar Gaddafi fragmentou a LÃbia em milÃcias rivais. O
vazio de poder raramente produz ordem liberal espontânea; produz competição
armada por legitimidade e controle territorial.
Há ainda o fator estrutural frequentemente subestimado na
retórica moral: o Estreito de Hormuz. Por ali transita parcela decisiva do
comércio global de energia. Um bloqueio, mesmo temporário, afetaria cadeias
produtivas, mercados financeiros e segurança energética em escala planetária. O
conflito, portanto, não é apenas regional. É sistêmico. A guerra no Golfo nunca
permanece no Golfo.
O que se desenha é a erosão progressiva da arquitetura
construÃda após 1945, cujo objetivo era conter a tentação da guerra preventiva.
O abandono do acordo nuclear de 2015 já sinalizava o enfraquecimento do
multilateralismo. O ataque durante negociações em andamento consolida a
percepção de que acordos são instrumentos táticos, não compromissos
estruturais.
Clausewitz escreveu que a guerra é a continuação da polÃtica
por outros meios. Mas essa fórmula pressupunha que a polÃtica precedesse a
guerra, que a moldasse e a contivesse. Quando a força passa a anteceder e
substituir a negociação, a equação se inverte. A polÃtica torna-se gestão das
consequências do uso da força; a diplomacia, mecanismo de administração do
dano.
Talvez estejamos diante de algo mais profundo do que uma
crise regional: uma mutação na hierarquia dos instrumentos de poder. Se a
guerra preventiva se normaliza e a soberania se torna relativa, o sistema
internacional retorna a uma lógica anterior à institucionalização pós-1945, uma
lógica em que a estabilidade depende menos de regras compartilhadas e mais da
capacidade de impor custos.
Se isso for verdade, o Oriente Médio não é apenas palco de mais um confronto. É laboratório de uma nova ou antiga ordem internacional, na qual a diplomacia não desaparece, mas perde centralidade. E quando a diplomacia deixa de ser eixo e se torna adereço, a guerra deixa de ser exceção e volta a ser método.