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Saúde

Cobranças acadêmicas podem estar adoecendo estudantes universitários

Karoliny Dias - 19 de fevereiro de 2020 | 10h 15
Cobranças acadêmicas podem estar adoecendo estudantes universitários

Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) afirmam que 4,4% da população mundial tem depressão. Isto significa que 322 milhões de indivíduos sofrem com os sintomas desse transtorno mental, nos seus mais variados níveis. No Brasil, o número chega a 5,8% da população. Em números, são 11,5 milhões de brasileiros depressivos.

Segundo o médico Dráuzio Varella, a depressão é uma doença psiquiátrica crônica e recorrente, que produz uma alteração do humor caracterizada por uma tristeza profunda, sem fim, associada a sentimentos de dor, amargura, desencanto, desesperança, baixa autoestima e culpa, assim como a distúrbios do sono e do apetite. Entre os jovens, sobretudo os universitários, essa realidade não é diferente.

Cada vez mais, estudantes têm ficado deprimidos. Problemas psicológicos dessa natureza se tornaram um grande desafio para as Instituições de Ensino Superior. Isto porque a doença tem levado muitos discentes a trancar matrículas. Os fatores que levam a isso são muitos, mas a cobrança acadêmica tem sido apontada como o principal deles. O ritmo da vida universitária é altamente desgastante. São muitos trabalhos, aulas, provas, estágios. E muitos estudantes acabam não dando conta, sobretudo se tiverem que trabalhar, paralelamente.

A assistente social Ana Alice Rodrigues, que faz parte do Núcleo de Apoio Psicossocial e Pedagógico (NAPP) da Universidade Estadual de Feira de Santana (Uefs), afirma que, na instituição, muitos alunos procuram o setor. Segundo ela, a demanda por ajuda também chega através de professores e de amigos dos estudantes, que percebem o problema e avisam ao setor.

De acordo com a assistente social, na Uefs, grande parte do alunado é de fora da cidade e até mesmo do estado, por isso muitos estudantes acabam passando um longo período longe de suas famílias. “Eles vêm morar aqui e seu grupo familiar fica fora. Longe dos familiares, eles se sentem sós e, muitas vezes, não têm com quem conversar”, observa, salientando que essa circunstância pode levar à depressão.

SUICÍDIO – Quando o caso envolve tendência suicida, Ana Alice destaca que a universidade direciona o estudante para o Centro de Atenção Psicossocial (Caps), órgão do município especializado no tratamento de transtornos mentais. “Infelizmente, nesse tipo de caso, há a necessidade de encaminhamento a um psiquiatra e não temos esse serviço na casa. Em casos menos graves, atuamos em conjunto com as famílias, a fim de ajudar os estudantes da melhor forma possível”, destaca.

O reitor da Uefs, professor Evandro do Nascimento Silva, explica que os alunos atendidos pelo NAPP, geralmente, apresentam quadros de ansiedade e depressão, muitas vezes decorrentes da falta de apoio familiar, nas questões específicas de gênero; de intenso sofrimento na infância, algumas vezes marcada por abusos e violências; do preconceito; das dificuldades de adaptação, aprendizado e concentração nos estudos e na apresentação de seminários e trabalhos acadêmicos.

Não há um número exato dos casos atendidos na Uefs. O reitor explica que a equipe do NAPP não trabalha com diagnóstico. “Isto porque o setor entende o estudante como um ser biopsicossocial. Dessa forma, não realiza um estudo quantitativo, para estratificar o sofrimento entre os estudantes da Uefs”, alega.

O professor Evandro do Nascimento diz ainda que a comunidade universitária se preocupa com os transtornos psíquicos. “Por isso a Saúde Mental no ambiente acadêmico já foi tema abordado em Aula Magna, no Semestre 2016.1. Em 2019, o Sindicato dos Trabalhadores em Educação do Terceiro Grau do Estado da Bahia (Sintest/ Uefs) realizou atividades no mês de setembro, fazendo referência ao Setembro Amarelo, período de ações em prol da Prevenção ao Suicídio, com representantes do NAPP e de outros Setores da universidade, bem como com a participação de membros do Centro de Valorização da Vida (CVV). Na ocasião, o suicídio foi um tema bastante discutido com a comunidade acadêmica”, destaca.

Conforme o reitor, o NAPP também vem realizando projetos de intervenção, com estagiários do Curso de Serviço Social, sob a supervisão técnica das assistentes sociais do setor. A ideia é chamar a atenção para um novo olhar sobre a saúde mental. “O NAPP realiza ainda oficinas sobre ansiedade, para os estudantes atendidos, em parceria com uma professora do Curso de Psicologia e com uma psicóloga voluntária, formada pela Uefs, que hoje é estudante do Mestrado em Saúde Coletiva da instituição”, ressalta.

Evandro do Nascimento Silva informa que a universidade está implantando um projeto de Extensão voltado ao assunto. Trata-se do Programa de Acolhimento Psicológico (PAPsi). O objetivo é acolher as demandas dos estudantes e servidores em situações de urgências subjetivas. Segundo o reitor, a implantação está aguardando os trâmites burocráticos da instituição.

A abordagem aos estudantes, professores e funcionários que sofrem com essa doença se realiza, na universidade, por meio do acolhimento da demanda, escuta qualificada, atendimento social, orientações e encaminhamento para atendimento psicológico no Serviço de Saúde Universitário (Sesu), Caps, unidades conveniadas pelo Planserv (no caso dos servidores) ou para a rede particular, a depender do caso.

DIREITOS – Os estudantes que adoecem no ambiente universitário também têm direitos. O professor Evandro do Nascimento ressalta que aqueles que estão em acompanhamento médico, psicológico ou sendo atendidos na Rede de Serviços Especializados, com as devidas comprovações e acompanhamento pela equipe do NAPP e pelo Núcleo de Acessibilidade Universitário (NAU), podem solicitar flexibilidade de tempo para a realização de provas, bem como de outras atividades acadêmicas. Isso em comum acordo com o Colegiado e com os professores de seus respectivos cursos.

Também é assegurado o trancamento da matrícula, quando se tratar de motivo de saúde, total ou parcial, a qualquer tempo, conforme a Resolução Nº 117/2018 do Conselho Superior de Ensino, Pesquisa e Extensão (Consepe). “É preciso que o estudante apresente seu relatório médico ao Sesu. Uma vez de posse do relatório emitido por este setor, ele pode dirigir-se ao Expediente da Divisão de Assuntos Acadêmicos (DAA), a fim de dar entrada na solicitação de trancamento de matrícula”, esclarece o reitor.

SITUAÇÃO SEMELHANTE – Na Universidade Federal do Recôncavo Baiano (UFRB), a realidade não é muito diferente. Foram centenas de atendimentos realizados no ano de 2019, em todos os campi da instituição. No Centro de Artes, Humanidades e Letras (CAHL), que fica em Cachoeira e que conta com um psicólogo, foram 242 atendimentos. No Centro de Formação de Professores (CFP), em Amargosa, foram 137. No Centro de Ciência e Tecnologia em Energia e Sustentabilidade (Cetens), em Feira de Santana, 250.

Já no Centro de Cultura, Linguagens e Tecnologias Aplicadas (Cecult), localizado na cidade de Santo Amaro, a instituição registrou 75 atendimentos. No Centro de Ciências Agrárias, Ambientais e Biológicas (CCAAB) e no Centro de Ciências Exatas e Tecnologias (Cetec), em Cruz das Almas, que contam com duas psicólogas, 402 estudantes foram atendidos.

Milena Souza, psicóloga lotada no campus de Cruz das Almas, afirma que o trabalho realizado com os estudantes é voltado à psicologia da educação. “A depressão está ligada mais à psicologia da saúde, mas isso não significa que não damos o suporte necessário àqueles que sofrem com a doença, que pensam ou já tentaram cometer suicídio ou que são acometidos por transtornos de ansiedade”, observa.

Segundo a psicóloga, qualquer estudante pode ter acesso ao Serviço Psicológico da UFRB, independente de ser bolsista do Programa. O atendimento se dá através de livre demanda. “O estudante que perceber que tem o transtorno pode buscar nossa ajuda ou até mesmo algum colega que notar o problema. Trabalhamos mais com a prevenção. Inicialmente, realizamos uma entrevista, a fim de avaliar o caso. Após isso, encaminhamos o aluno a um serviço especializado, a depender da queixa”, informa.

Milena Souza salienta ainda que o atendimento pode ser individual ou em grupo. Para ajudar esses estudantes de forma mais efetiva, semestralmente, formamos os chamados grupos psicoeducativos. Quando a queixa é mais grave, o Núcleo encaminha o estudante para a área de saúde, no Sistema Único de Saúde (SUS), para a Clínica de Psicologia da UFRB ou para a rede particular, caso tenha condições. “Mas ninguém deixa de ser atendido. Estamos sempre entrando em contato, para saber como estão progredindo”, enfatiza.

FATOR DE RISCO – Leandro Muniz, psicólogo da UFRB nos campus de Cachoeira e Santo Amaro, afirma que, apesar das limitações institucionais do setor, todo o possível é feito para ajudar os alunos que procuram por ajuda. “Às vezes, o município não dá conta dos estudantes que buscam esse tipo de serviço. Prolongamos um pouco nossos atendimentos e damos orientações e aconselhamento psicológico, até que consigam acessar a rede de saúde”, explica.

O psicólogo diz que já fez quase 250 atendimentos no campus de Santo Amaro. Ele ressalta que são diversos os motivos que desencadeiam transtornos mentais dessa natureza e que muitos estudantes já têm histórico de passagem por profissionais da área, em suas respectivas cidades. “A universidade se tornou um fator de risco para a eclosão dessas doenças. Muitos desses alunos saem de seus locais de origem jovens, sem experiência de vida, para enfrentar uma nova realidade. E o ambiente acadêmico traz uma série de cobranças e responsabilidades, nesse novo lugar, no qual não conhecem ninguém”, lembra.

Leandro Muniz ressalta ainda que há uma iminente necessidade de ampliação do suporte a esses estudantes. “Como psicólogo de uma Pró-Reitoria, tenho diversas limitações, que me impedem de ir além de certo limite burocrático. A ampliação da rede de suporte dentro da universidade poderia fazer com que novas estratégias fossem traçadas, a fim de que os estudantes se sentissem mais acolhidos e tivessem a oportunidade de transformar o sofrimento em algo produtivo. Isso permitiria que encontrassem alguma saída que desse sentido às suas permanências na universidade, para além das tarefas acadêmicas”, avalia.

Para o terapeuta, todos os que fazem parte da comunidade acadêmica deveriam ter a responsabilidade de criar novas motivações para esses alunos. Segundo ele, as famílias também devem ajudar, já que são fundamentais no processo de tratamento. “Apenas uma pessoa da família pode ser o ponto de suporte. É preciso que haja a sensibilidade de perceber que não se trata de uma ‘frescura’ ou covardia, mas de um sofrimento acachapante e cruel, que deve ser cuidado também no ambiente doméstico”, adverte.



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