As cenas que vi em um canal de TV europeu me convenceram que
há um equívoco recorrente em nossa compreensão dos funerais de grandes líderes
políticos. Costumamos vê-los como cerimônias de despedida, expressão coletiva
de dor ou homenagem à trajetória de um indivíduo. A História, porém, ensina
que, quando o morto é um chefe de Estado, um fundador de regime ou um líder
religioso de alcance nacional, o funeral deixa de pertencer à esfera privada.
Ele se transforma em um acontecimento político. Mais do que lamentar uma
ausência, procura afirmar uma permanência.
As cerimônias organizadas pelo Irã para o aiatolá Ali
Khamenei ilustram, com clareza, essa lógica. O governo anuncia milhões de
participantes; mobiliza o aparato estatal; fecha repartições públicas;
reorganiza o trânsito; restringe o espaço aéreo; e transforma o cortejo em um
evento de vários dias, que atravessa cidades, fronteiras e importantes centros
religiosos do xiismo. Não se trata apenas de honrar um líder morto. Trata-se de
comunicar uma mensagem aos vivos.
Todo grande funeral é uma linguagem do poder. Essa percepção acompanha a história
das civilizações. Quando Alexandre, o Grande, morreu, na Babilônia, iniciou-se
uma disputa feroz pela posse de seu corpo. Não era uma questão sentimental.
Quem controlasse os restos mortais do conquistador reivindicaria, também, parte
de sua legitimidade. O cadáver tornou-se objeto de geopolítica.
Roma compreendeu, igualmente, essa força simbólica. O funeral
de Júlio César não apenas encerrou a vida de um ditador; ajudou a incendiar a
cidade e acelerou o colapso da República. A morte, cuidadosamente ritualizada,
produziu efeitos políticos que o homem vivo, talvez, já não conseguisse
alcançar.
Os séculos apenas sofisticaram esse mecanismo. O traslado das
cinzas de Napoleão para Paris, em 1840, foi concebido para restaurar parte do
prestígio nacional francês. O corpo de Lênin, preservado em um mausoléu,
converteu-se em instrumento permanente de legitimação do Estado soviético. O
funeral de Gamal Abdel Nasser reuniu multidões, que transformaram sua despedida
em manifestação de identidade árabe. Em 1989, milhões acompanharam o cortejo do
aiatolá Ruhollah Khomeini, num espetáculo que reafirmava a continuidade da
Revolução Islâmica, mesmo diante da perda de seu fundador.
Não é casual que regimes fortemente centralizados atribuam
enorme importância a esses rituais. A morte de um líder produz, inevitavelmente,
uma pergunta silenciosa: o poder sobreviverá ao homem que o encarnava? O
funeral procura responder antes mesmo que a dúvida se espalhe.
Assistindo as cenas do funeral de Khamenei, percebi que nada
ali era improvisado. O percurso do cortejo, a ordem das autoridades, os
símbolos religiosos, as bandeiras, a cobertura da imprensa, a presença de chefes
de Estado estrangeiros, a coreografia das multidões e até o tempo concedido
para que cada pessoa passe diante do caixão obedecem a uma lógica
cuidadosamente construída. O objetivo não é, apenas, organizar uma cerimônia. É
organizar uma narrativa.
A multidão desempenha papel central nessa dramaturgia
política. Sua presença comunica que o Estado continua capaz de mobilizar a
sociedade; seu silêncio transmite solenidade; sua emoção sugere unidade
nacional. Independentemente da espontaneidade ou do grau de participação
induzida, a imagem produzida é sempre dirigida a diferentes públicos: à
população interna, aos adversários políticos e à comunidade internacional.
Nesse sentido, funerais de Estado são menos voltados para o
passado do que para o futuro. Eles não procuram apenas recordar quem morreu.
Procuram estabilizar aquilo que permanece. Enquanto a biografia do líder se
encerra, a biografia do regime precisa continuar.
É por isso que a História Militar e a história política
raramente tratam esses eventos como simples cerimônias fúnebres. O
desaparecimento de um governante sempre representa um momento de
vulnerabilidade. Exatamente por isso, o poder procura converter a perda em
demonstração de continuidade. O ritual substitui a incerteza por ordem; a
emoção coletiva procura neutralizar especulações sobre sucessão, crise ou
fragmentação.
Talvez, essa seja a verdadeira função dos grandes funerais
políticos. Eles não existem apenas para sepultar um homem. Existem para
impedir que, junto com ele, seja enterrada a autoridade do Estado. Porque
os regimes compreendem uma verdade antiga: líderes morrem; instituições
sobrevivem somente quando conseguem convencer a sociedade de que a morte de um
indivíduo não significa a morte do poder. É essa convicção, cuidadosamente
encenada diante do mundo, que faz do funeral uma das mais sofisticadas formas
de linguagem política já produzidas pela História.