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Saúde

Mesmo levando a quadros graves, depressão não integra lista de doenças incapacitantes, mas pacientes têm alguns direitos

Karoliny Dias - 22 de fevereiro de 2020 | 13h 02
Mesmo levando a quadros graves, depressão não integra lista de doenças incapacitantes, mas pacientes têm alguns direitos
Cristine Nascimento, advogada e professora de Direito Previdenciário (Foto: Reprodução)

A Organização Mundial da Saúde (OMS), no ano de 2018, fez uma estimativa assustadora: em 2020, a depressão seria a doença mental mais incapacitante do mundo. Mesmo frente a esse dado, a depressão ainda é uma doença não levada a sério, da forma como deveria. Enquanto isso, as cobranças sociais e, consequentemente, as pressões só crescem.

A depressão é um transtorno que traz uma sobrecarga física e psíquica muito grande, para os seus portadores. As pressões que um indivíduo com depressão sofre (para que se encaixe nos padrões impostos pela sociedade) destroem a sua autoestima. E trata-se de uma doença perigosa, por se desenvolver silenciosamente.

A psicóloga Jô Alvim, em matéria publicada no site G1, diz que os sintomas mais correntes são: falta de energia (comumente confundida com cansaço), desinteresse em atividades que antes davam prazer, isolamento, pessimismo, mudanças no apetite e no sono, sentimento de inutilidade e pensamentos recorrentes de morte, que, na pior das hipóteses, podem levar ao suicídio. “A tristeza, apesar de ser um sintoma evidente, é, justamente, o que mais dificulta o diagnóstico inicial, uma vez que, por ser uma emoção normal do ser humano, nem sempre é associada à depressão”, observa.

O psicólogo Felipe Siqueira alerta que, inicialmente, uma pessoa diagnosticada com depressão precisa procurar um profissional da área e pedir ajuda. “O atendimento psicológico vai conseguir identificar quais alterações de humor a pessoa vem sofrendo; quais são as percepções que estão distorcidas; quais pensamentos têm sido recorrentes para mantê-la em um quadro depressivo. Cada pessoa tem uma demanda específica, apresenta uma queixa muito individual. Por isso a terapia é feita a partir da demanda trazida para a clínica”, explica.

Felipe Siqueira diz que o tratamento para quem possui essa doença se dá de variadas formas, a depender do grau de sofrimento do portador. Em alguns casos, a terapia consegue ser eficaz. Mas em casos mais graves, que envolvem alteração grave do sono ou do humor, por exemplo, pode ser necessário o uso de medicações, que devem ser prescritas pelo psiquiatra que fechou o diagnóstico. “Além disso, é importante o envolvimento dos familiares e amigos, que são a rede de apoio mais próxima”, recomenda.

O psicólogo destaca que a participação da família no tratamento é imprescindível, porque “um dos principais pensamentos relatados por pacientes com depressão é a sensação de desamparo. “Mesmo fazendo parte de uma família presente, física e emocionalmente, muitos pacientes acometidos pela depressão tendem a não enxergar o cuidado e a presença recebidos de forma clara. Passam a ter uma visão distorcida da realidade. Sentem-se sós e acabam desenvolvendo pensamentos de desamparo, desamor e desvalor. Isso pode acarretar ideias negativas e, em casos mais graves, até mesmo gerar pensamentos suicidas”, esclarece.

Por esse motivo, ainda conforme Felipe Siqueira, por mais que os familiares achem que têm feito o bastante, verbalizar o sentimento que têm pela pessoa, a importância da vida dela, o significado que ela tem na vida de cada um é crucial para que a pessoa que está adoecida perceba que há apoio e amor, no ambiente doméstico. “Acredito que evoluímos muito sobre o diagnóstico e tratamento da depressão, mas muitas pessoas ainda subjugam e tendem a dizer que depressão é falta de vontade, frescura ou falta de alguma religião. Mas a depressão é grave e precisa de tratamento! Além disso, ela não escolhe raça, cor ou classe social”, alerta.

INDIVÍDUO – A psicóloga Clara Assis ressalta que quando se fala em depressão associada a tendências suicidas, fala-se também sobre dores e conflitos existenciais dentro de uma sociedade que não as valida nem fala sobre elas. “Temos que pensar que as pessoas que estão passando por essas circunstâncias estão em profundo sofrimento. A nossa cultura não é favorável, porque olha muito pouco para o indivíduo enquanto ser único, enquanto pessoa”, adverte.

Segundo a terapeuta, é preciso olhar e cuidar dessas pessoas, pois somente assim é possível ver as suas necessidades individuais. “A primeira coisa essencial no cuidado de pessoas com depressão é o acolhimento. E isso está faltando muito. Precisamos nos conectar com as pessoas que estão passando por uma crise existencial e oferecer ajuda”, ressalta.

Clara Assis acredita que é preciso que a sociedade ajude a criar mais espaços para abordar o sofrimento existencial. “Precisamos falar, ouvir e individualizar as dores de cada um. Precisamos tornar nossas redes de apoio mais efetivas e cuidadosas”, enfatiza.

De acordo com a psicóloga, o tratamento, no consultório, é fundamentado na escuta da crise. “A terapia é baseada numa escuta livre, cuidadosa e isenta de julgamentos, a fim de que esse ser humano possa organizar seus pensamentos e se dar conta do seu sofrimento, buscando as raízes dele, pois somente assim é possível cuidá-lo como um todo”, aclara.

COMPONENTE GENÉTICO – O médico psiquiatra Raphael Silva explica que a depressão é multifatorial. “Existem diversos fatores que são associados a essa doença. Podem ser, inclusive, genéticos. Pessoas com um histórico de depressão na família têm um risco maior de desenvolver a doença. Trabalhadores que passam por situações muito estressantes, como policiais, atendentes de telemarketing e outros associados a funções extremamente desgastantes, são mais vulneráveis ao desenvolvimento de um quadro depressivo ou de transtorno de ansiedade”, alerta.

Segundo o psiquiatra, a depressão e a ansiedade ocorrem mais nas mulheres. “Não se sabe por que elas têm mais propensão a desenvolver essas doenças ou por que procuram mais o sistema de saúde do que os homens”, ressalva, salientando ainda que a doença ocorre por conta do baixo funcionamento de neurotransmissores, como a serotonina, noradrenalina e dopamina. “Por isso as medicações antidepressivas agem aumentando a quantidade dessas substâncias, melhorando, assim, os sintomas em transtornos como a depressão e a ansiedade”, explica.

Raphael Silva diz que o tratamento é multidisciplinar, necessitando, portanto, do envolvimento de diversos profissionais. Quando se trata de uma depressão leve, o médico explica que o paciente pode ser tratado com psicoterapia. “Atividades físicas (de três a cinco vezes por semana) também ajudam muito, nos casos de transtornos de humor. Além disso, dietas e terapias como a yoga costumam ser eficazes”, acrescenta.

No entanto, o médico alerta: nos quadros depressivos moderados e graves, é preciso entrar com medicações, por pelo ao menos um ano. Raphael Silva diz que há antidepressivos que não causam dependência e que podem ser usados apenas por um período. Mas isso depende muito de cada caso. Pacientes que já tiveram depressão precisam de um período maior de tratamento, que pode variar de dois a cincos. Em casos graves, a prescrição medicamentosa pode ser recomendada por toda a vida. O mais importante, vale lembrar, é que, seja qual for o caso, esse tipo de remédio seja prescrito por um psiquiatra.

DIREITOS – Muitas enfermidades estão na lista de doenças consideradas incapacitantes da Seguridade Social. Isso garante, dentre outros direitos, aposentadoria por invalidez e isenção de Imposto de Renda sobre aposentadoria ou pensão. Mas a depressão, apesar de ser um transtorno limitador, não faz parte desse documento. É o que diz a advogada e professora de Direito Previdenciário Cristine Emily Nascimento. “Atualmente, a depressão é uma doença mais externada, pela sociedade. Antes, as pessoas tinham vergonha de se reconhecerem como depressivas. Hoje, ainda ocorre esse tipo de pensamento, mas de forma menos preconceituosa. Por conta de tal evidência, os tratamentos médicos, que podem ser medicamentosos ou não medicamentosos, estão cada vez mais especializados, o que leva à redução, em alguns casos, dos sintomas. Dessa forma, nem todo estado de depressão enseja a concessão de aposentadoria por invalidez e isenção de Imposto de Renda”, explica.

Entretanto a advogada ressalta que pacientes com depressão severa têm, sim, alguns direitos. Ela explica que, em se tratando de um quadro comprovadamente incapacitante, o segurado pode receber auxílio-doença. “Para a concessão de aposentadoria por invalidez, no entanto, o grau da depressão deverá estar muito avançado”, observa.

Cristine Nascimento acredita que, embora o governo tenha possibilitado o acesso de pacientes com depressão aos Centros de Atenção Psicossocial (Caps), a sociedade ainda precisa avançar muito na desestigmatização desse tipo de transtorno mental. “É uma doença como qualquer outra, mas que precisa ser vista com muito cuidado, pelos familiares, amigos e, principalmente, pelos empregadores”, lembra.

A advogada acredita ser de suma importância garantir direitos a quem tem depressão. “É preciso permitir que essas pessoas recebam tratamento não apenas medicamentoso, mas também tratamento psicológico que as ajude a se sentirem confiantes, especialmente no que diz respeito a produzir e trabalhar”, conclui.



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