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Welligton Freire

A nova guerra já começou - e a Europa acordou tarde

Wellington Freire - 21 de Janeiro de 2026 | 09h 48
A nova guerra já começou - e a Europa acordou tarde
Foto: Getty images

Um general passadista é aquele que comete o grave equívoco de preparar-se sempre para lutar a guerra anterior. Trata-se de um erro clássico, recorrente na história militar, e quase sempre fatal. A função precípua do setor de planejamento operacional das forças armadas de qualquer país - o Estado-Maior-Geral - é propor soluções para um dos aspectos centrais da estratégia: identificar a natureza e as características da próxima guerra e definir os métodos capazes de derrotar o inimigo no menor tempo possível. Essa discussão é fundamental porque dela deriva a doutrina de emprego da força militar por parte de um organismo político estatal. Diante disso, impõe-se uma pergunta incontornável: qual é a atual doutrina militar das forças armadas norte-americanas e de que maneira ela ajuda a compreender o fim da velha ordem internacional, recentemente proclamado por Ursula von der Leyen?

A declaração da presidente da Comissão Europeia no Fórum Econômico Mundial de Davos, segundo a qual a “velha ordem acabou”, não deve ser interpretada como um gesto retórico isolado ou como mera reação às ameaças do presidente americano Donald Trump. Ela expressa, antes de tudo, uma confissão política: a de que a Europa demorou a reconhecer uma transformação profunda e já em curso no sistema internacional. Quando Von der Leyen fala em “nova independência europeia”, ela admite implicitamente que os pressupostos estratégicos do pós-Guerra Fria, previsibilidade, alianças automáticas e liderança benevolente dos Estados Unidos, deixaram de existir.

Do ponto de vista americano, essa ruptura não é nova. Desde pelo menos o início da década de 2010, as forças armadas dos Estados Unidos vêm reformulando sua doutrina em torno da chamada great power competition. O foco deixou de ser o contraterrorismo e os conflitos assimétricos no Oriente Médio para concentrar-se na competição estratégica contínua com outros polos de poder, notadamente China e Rússia. A guerra, nesse novo paradigma, já não é concebida como um evento excepcional que começa com uma declaração formal e termina com um armistício. Ela passa a ser permanente, difusa e multidimensional.

A doutrina militar americana contemporânea, expressa em conceitos como Multi-Domain Operations, entende o conflito como um continuum que integra meios militares, econômicos, tecnológicos, informacionais e diplomáticos. Tarifas, sanções, coerção territorial, controle de cadeias produtivas, pressão sobre aliados e domínio de espaços estratégicos tornam-se instrumentos tão relevantes quanto divisões blindadas ou porta-aviões. Não se trata de um desvio ocasional, mas de uma concepção coerente de poder em um mundo pós-hegemônico.

É nesse contexto que a Groenlândia adquire centralidade estratégica. Longe de ser uma excentricidade retórica ou um capricho presidencial, o interesse americano pela ilha responde a uma lógica geopolítica clara: controle do Ártico, das novas rotas marítimas, de recursos estratégicos e da projeção militar em uma região cada vez mais disputada por Rússia e China. A surpresa europeia diante desse movimento revela menos sobre a imprevisibilidade americana e mais sobre a persistência de uma mentalidade estratégica ultrapassada no continente.

A União Europeia, ao que tudo indica, ainda operava segundo os parâmetros da ordem anterior, na qual divergências entre aliados eram administradas dentro de limites tácitos e a coerção entre parceiros era considerada impensável. A reação atônita às ameaças tarifárias, à pressão territorial e à erosão da confiança transatlântica expõe o atraso europeu em compreender que a política internacional retornou, de forma explícita, à lógica do poder.

O paradoxo é evidente: enquanto Washington reorganiza sua doutrina militar e estratégica para um mundo de competição permanente, Bruxelas apenas agora começa a verbalizar a necessidade de adaptação. A fala de Von der Leyen, nesse sentido, marca menos o início de uma nova ordem do que o reconhecimento tardio de que ela já está em vigor.

A história militar ensinaa que ordens internacionais raramente colapsam de forma abrupta. Elas se esgotam. Perdem coerência, previsibilidade e capacidade de produzir estabilidade. Em geral, continuam a ser invocadas retoricamente muito depois de já terem deixado de operar na prática. Foi assim com o sistema europeu do século XIX, com a ordem liberal do entreguerras e, agora, com a arquitetura construída após 1991. O erro recorrente das elites políticas não é provocar a ruptura, mas insistir na permanência de um mundo que já não responde aos seus próprios pressupostos.

Nesse sentido, o verdadeiro risco estratégico para a Europa não reside apenas na assertividade americana, na ascensão chinesa ou no revisionismo russo, mas na persistência de uma cultura estratégica moldada por uma ordem que deixou de existir. Preparar-se para defender regras, alianças e automatismos que já não vinculam os atores centrais do sistema é, no plano estratégico, uma forma sofisticada de negação da realidade. Estados que não atualizam suas categorias de análise acabam reagindo a choques sistêmicos com improviso, moralismo ou apelos normativos, instrumentos insuficientes em um ambiente de competição aberta.

A nova guerra, como já se delineia, não será precedida por declarações formais nem obedecerá a fronteiras nítidas entre paz e conflito. Ela se manifesta por meio de coerção econômica, disputas tecnológicas, pressão sobre territórios periféricos, instrumentalização de alianças e demonstrações seletivas de força. Trata-se de uma guerra administrada, prolongada e deliberadamente ambígua, cujo objetivo não é a vitória decisiva, mas a erosão gradual da capacidade de decisão do adversário.

Alguns atores compreenderam essa mutação e adaptaram suas doutrinas, instituições e instrumentos de poder. Outros, presos às lições da guerra passada, continuam a operar como se o mundo ainda fosse regido por compromissos tácitos e convergência de interesses entre aliados. A história sugere que, nesse tipo de transição, a vantagem inicial pertence menos aos que proclamam novas ordens do que àqueles que, silenciosamente, já aprenderam a operar na ausência delas.

A nova guerra não será declarada. Ela já começou. E, como quase sempre ocorre, alguns atores chegaram a ela preparados e outros, ainda presos às lições da guerra passada.



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