Um
general passadista é aquele que comete o grave equívoco de preparar-se sempre
para lutar a guerra anterior. Trata-se de um erro clássico, recorrente na
história militar, e quase sempre fatal. A função precípua do setor de
planejamento operacional das forças armadas de qualquer país - o
Estado-Maior-Geral - é propor soluções para um dos aspectos centrais da
estratégia: identificar a natureza e as características da próxima guerra e
definir os métodos capazes de derrotar o inimigo no menor tempo possível. Essa
discussão é fundamental porque dela deriva a doutrina de emprego da força
militar por parte de um organismo político estatal. Diante disso, impõe-se uma
pergunta incontornável: qual é a atual doutrina militar das forças armadas
norte-americanas e de que maneira ela ajuda a compreender o fim da velha ordem
internacional, recentemente proclamado por Ursula von der Leyen?
A
declaração da presidente da Comissão Europeia no Fórum Econômico Mundial de
Davos, segundo a qual a “velha ordem acabou”, não deve ser interpretada como um
gesto retórico isolado ou como mera reação às ameaças do presidente americano
Donald Trump. Ela expressa, antes de tudo, uma confissão política: a de que a
Europa demorou a reconhecer uma transformação profunda e já em curso no sistema
internacional. Quando Von der Leyen fala em “nova independência europeia”, ela
admite implicitamente que os pressupostos estratégicos do pós-Guerra Fria,
previsibilidade, alianças automáticas e liderança benevolente dos Estados
Unidos, deixaram de existir.
Do
ponto de vista americano, essa ruptura não é nova. Desde pelo menos o início da
década de 2010, as forças armadas dos Estados Unidos vêm reformulando sua
doutrina em torno da chamada great power competition. O foco deixou de
ser o contraterrorismo e os conflitos assimétricos no Oriente Médio para
concentrar-se na competição estratégica contínua com outros polos de poder,
notadamente China e Rússia. A guerra, nesse novo paradigma, já não é concebida
como um evento excepcional que começa com uma declaração formal e termina com
um armistício. Ela passa a ser permanente, difusa e multidimensional.
A
doutrina militar americana contemporânea, expressa em conceitos como Multi-Domain
Operations, entende o conflito como um continuum que integra meios
militares, econômicos, tecnológicos, informacionais e diplomáticos. Tarifas,
sanções, coerção territorial, controle de cadeias produtivas, pressão sobre
aliados e domínio de espaços estratégicos tornam-se instrumentos tão relevantes
quanto divisões blindadas ou porta-aviões. Não se trata de um desvio ocasional,
mas de uma concepção coerente de poder em um mundo pós-hegemônico.
É
nesse contexto que a Groenlândia adquire centralidade estratégica. Longe de ser
uma excentricidade retórica ou um capricho presidencial, o interesse americano
pela ilha responde a uma lógica geopolítica clara: controle do Ártico, das
novas rotas marítimas, de recursos estratégicos e da projeção militar em uma
região cada vez mais disputada por Rússia e China. A surpresa europeia diante
desse movimento revela menos sobre a imprevisibilidade americana e mais sobre a
persistência de uma mentalidade estratégica ultrapassada no continente.
A
União Europeia, ao que tudo indica, ainda operava segundo os parâmetros da
ordem anterior, na qual divergências entre aliados eram administradas dentro de
limites tácitos e a coerção entre parceiros era considerada impensável. A
reação atônita às ameaças tarifárias, à pressão territorial e à erosão da
confiança transatlântica expõe o atraso europeu em compreender que a política
internacional retornou, de forma explícita, à lógica do poder.
O
paradoxo é evidente: enquanto Washington reorganiza sua doutrina militar e
estratégica para um mundo de competição permanente, Bruxelas apenas agora
começa a verbalizar a necessidade de adaptação. A fala de Von der Leyen, nesse
sentido, marca menos o início de uma nova ordem do que o reconhecimento tardio
de que ela já está em vigor.
A
história militar ensinaa que ordens internacionais raramente colapsam de forma
abrupta. Elas se esgotam. Perdem coerência, previsibilidade e capacidade de
produzir estabilidade. Em geral, continuam a ser invocadas retoricamente muito
depois de já terem deixado de operar na prática. Foi assim com o sistema
europeu do século XIX, com a ordem liberal do entreguerras e, agora, com a
arquitetura construída após 1991. O erro recorrente das elites políticas não é
provocar a ruptura, mas insistir na permanência de um mundo que já não responde
aos seus próprios pressupostos.
Nesse
sentido, o verdadeiro risco estratégico para a Europa não reside apenas na
assertividade americana, na ascensão chinesa ou no revisionismo russo, mas na
persistência de uma cultura estratégica moldada por uma ordem que deixou de
existir. Preparar-se para defender regras, alianças e automatismos que já não
vinculam os atores centrais do sistema é, no plano estratégico, uma forma
sofisticada de negação da realidade. Estados que não atualizam suas categorias
de análise acabam reagindo a choques sistêmicos com improviso, moralismo ou
apelos normativos, instrumentos insuficientes em um ambiente de competição
aberta.
A
nova guerra, como já se delineia, não será precedida por declarações formais
nem obedecerá a fronteiras nítidas entre paz e conflito. Ela se manifesta por
meio de coerção econômica, disputas tecnológicas, pressão sobre territórios
periféricos, instrumentalização de alianças e demonstrações seletivas de força.
Trata-se de uma guerra administrada, prolongada e deliberadamente ambígua, cujo
objetivo não é a vitória decisiva, mas a erosão gradual da capacidade de
decisão do adversário.
Alguns
atores compreenderam essa mutação e adaptaram suas doutrinas, instituições e
instrumentos de poder. Outros, presos às lições da guerra passada, continuam a
operar como se o mundo ainda fosse regido por compromissos tácitos e
convergência de interesses entre aliados. A história sugere que, nesse tipo de
transição, a vantagem inicial pertence menos aos que proclamam novas ordens do
que àqueles que, silenciosamente, já aprenderam a operar na ausência delas.
A
nova guerra não será declarada. Ela já começou. E, como quase sempre ocorre,
alguns atores chegaram a ela preparados e outros, ainda presos às lições da
guerra passada.