Tribuna Feirense

  • Facebook
  • Twiiter
  • 55 75 99801 5659
  • Feira de Santana, quarta, 28 de janeiro de 2026

Wellington Freire

Juraci Dórea, o gigante silencioso

Wellington Freire - 22 de Janeiro de 2026 | 15h 05
Juraci Dórea, o gigante silencioso
Foto: Divulgação

Você é um pedestre e foi com a leitura dos ensaios de Ralph Waldo Emerson que você aprendeu a dominar a arte de caminhar a pé. Seus pés perambulam pelo solo já tão conhecido do campus da Uefs. Ao sair do Museu Casa do Sertão, onde esteve examinando parte do acervo de Eurico Alves, você contempla o céu azulado de uma manhã de outubro de 2025.

A alta temperatura de primavera, o desconforto térmico e toda aquela excessiva luminosidade o levam a concluir que se um dia você se tornasse Rei, seria apenas de um país úmido e chuvoso. Você se desloca de forma quase tão silenciosa quanto um submarino nuclear de ataque navegando sob o oceano ártico.

Você dirige seus passos lentos em direção ao novo auditório-teatro da instituição, equipamento cultural recém entregue à comunidade acadêmica. A sua presença na biblioteca do Museu, vasculhando arquivos empoeirados, foi apenas a frente secundária, seu real objetivo, o centro de sua ofensiva se encontra na entrada do novo prédio a ser inaugurado em breve.  E, lá, uma missão o aguarda, uma tarefa cuja execução exigirá uma grande soma de energia. Você chega atrasado, a pesquisa documental absorveu muito de seu tempo e você se perdeu, esquecendo-se de seu compromisso.

Quando você chega ao objetivo, avista, à distância, o esperado alvo. Lá está ele, o artista Juraci Dórea; ele está de pé, de costas para você. A seu lado, está a sua inseparável companheira, Selma Soares; ela usa um chapéu de abas largas, proteção contra o sol inclemente. Juraci usa um chapéu de pano, ao estilo daqueles usados por sindicalistas no início do século XX. Ele parece quieto, seu estado de ânimo natural, e em silêncio contempla algo.

De onde você se encontra, ele parece, a seus olhos, uma estátua de um gigante; como se algum devoto houvesse fincado aquela estátua ali com fins devocionais. Em verdade, assim, de pé e mudo, visto à distância, ele faz recordar a estátua de um daqueles Moais, da ilha de Páscoa: um gigante silencioso guarnecendo a paisagem.

Você se aproxima em silêncio, temendo romper a harmonia do quadro imagético, romper aquela atmosfera de sortilégio. A professora Selma Soares o avista antes do que você esperava, ela o recepciona, com sua voz macia; Juraci, envolto na aura de seriedade que costumeiramente o cerca, aperta sua mão e agradece por sua presença. Há mais pessoas ali, funcionários da Uefs; o engenheiro-chefe da obra que está se findando; uma equipe de jardinagem; a reitora da Uefs; o artista plástico e professor George Lima; Roberval Pereyr, o Vate das Umburanas; e dois ou três repórteres.

Todos estão ali, inclusive você, porque Juraci está erguendo diante do novo auditório-teatro uma escultura. Enquanto os demais observam a escultura tomar forma, você compreende que, ali, se manifesta algo mais duradouro do que a obra em si: um modo de estar no mundo. Uma postura que dispensa anúncios e explicações, e que só se torna visível a quem se aproxima com tempo, atenção e silêncio.

Como um espião infiltrado em uma área na qual se realizam testes secretos de uma nova arma, você se afasta da multidão e sem sequer acenar para os presentes, você se retira para longe, como uma sombra. Furtivamente, você se instala a cerca de 100 metros de distância, sob o abrigo de uma árvore de tronco fino e folhagem rala. Dali, já de todo esquecido pelo grupo, você observa e cataloga.

Juraci se movimenta discretamente. Apesar de seus 81 anos de idade, ele mantém a agilidade e força de ânimo. Como um sacerdote provindo de eras arcaicas, Juraci se prepara para oficiar um culto, cuja real ancestralidade até mesmo ele parece desconhecer. Ele distribui ordens e indica posições onde devem ser colocadas as estacas de madeira de sua escultura.

De longe, você vê o corpo magro do artista se deslocar de um ponto a outro, enquanto alguns membros do círculo de pessoas ao redor produzem e captam imagens com câmeras. O que ele está erguendo, ali, é uma espécie de desdobramento de um projeto mais amplo e que foi por ele criado no início da década de 1980: o Projeto Terra, uma premiada intervenção artística que consistiu em expor esculturas no meio da caatinga: a arte sem público; ou um ritual mágico evocatório, cujo real significado não foi compreendido.

A óbvia referência telúrica presente no título de seu projeto artístico remete a conceituações religiosas de fundamentação pré-histórica: “arrasta-te para tua Mãe Terra e possa ela livrar-te do Nada”, diz um dos versos do Rig Veda indiano. A Matter Tellus parece ser um componente fundamental dessa conceituação estética. O universo artístico de Juraci é fundamentalmente sertanejo, fincado sobre o solo do sertão e animado por um conceito de religiosidade arcaica. Essa escultura que ele está erguendo parece uma Stonehenge de paus e couros de boi.

A certa altura, você se afasta ainda mais. Não há nada a acrescentar. Juraci continua ali, trabalhando em silêncio, como se o mundo ao redor fosse apenas paisagem. Você observa por alguns instantes e depois se retira. O que precisava ser visto já foi visto. Você recolhe seus instrumentos de observação e, cabisbaixo, caminha para longe dali. Seu modus operandi de espião o permite se retirar discretamente, quase sem ser notado. Sua atividade de observação preliminar está finda.

Aos 81 anos completos em junho último, Juraci Dórea Falcão é um artista consagrado. E não apenas ali naquele ambiente acadêmico no qual ele exerceu a atividade de docência durante anos. A consagração é nacional. E prova disso está no texto ensaístico longo que o Jornal Folha de São Paulo a ele dedicou, por volta do primeiro semestre de 2025. O nome de Juraci é pronunciado com reverência nos meios onde circulam aqueles que produzem e apreciam as elevadas formas das artes plásticas modernas no Brasil.

Apesar disso, ele continua a ser aquele mesmo homem alto, magro e de ar sisudo que você conheceu há exatos 31 anos. Certamente, ele não se recorda disso. O ano era 1994 e você era um estudante de ensino médio, um adolescente membro do corpo discente do Colégio Assis Chateaubriand, em Feira de Santana. Por intermédio de Roberval Pereyr, você convidou o artista para realizar uma palestra para seus colegas adolescentes.

E, ali, foi a primeira vez que você viu de perto o artista que era, já naqueles dias, um nome consagrado. Você se recorda dos braços ossudos e das mãos finas dele segurando uma obra sobre pintores modernos. Ele nos mostrava as gravuras e dissertava sobre elas. Você se recorda dele saindo da sala, sério, olhos baixos; ele apertou sua mão molemente e agradeceu de forma um tanto mecânica pelo convite e partiu.

Ele usava uma camisa branca, folgada e limpa, uma calça tênis surrada, mas também limpa. Seus cabelos eram escuros, olhos pretos e que pareciam imóveis. E, ao redor dele, como uma espécie de armadura invisível ao olhar profano, você viu uma dura crosta de silêncio. E você não pode deixar de pensar: “pela honra do general Ludendorff! Este homem é rigoroso, sisudo e deve ser um homem obcecado pela beleza; ele é um igual, ele é um irmão”.



Wellington Freire LEIA TAMBÉM

Charge da Semana

Charge do Borega

As mais lidas hoje