Você é um pedestre e foi com a leitura dos ensaios de Ralph Waldo Emerson que você aprendeu a dominar a arte de caminhar a pé. Seus pés perambulam pelo solo já tão conhecido do campus da Uefs. Ao sair do Museu Casa do Sertão, onde esteve examinando parte do acervo de Eurico Alves, você contempla o céu azulado de uma manhã de outubro de 2025.
A alta
temperatura de primavera, o desconforto térmico e toda aquela excessiva
luminosidade o levam a concluir que se um dia você se tornasse Rei, seria
apenas de um país úmido e chuvoso. Você se desloca de forma quase tão
silenciosa quanto um submarino nuclear de ataque navegando sob o oceano ártico.
Você dirige
seus passos lentos em direção ao novo auditório-teatro da instituição,
equipamento cultural recém entregue à comunidade acadêmica. A sua presença na
biblioteca do Museu, vasculhando arquivos empoeirados, foi apenas a frente
secundária, seu real objetivo, o centro de sua ofensiva se encontra na entrada
do novo prédio a ser inaugurado em breve.
E, lá, uma missão o aguarda, uma tarefa cuja execução exigirá uma grande
soma de energia. Você chega atrasado, a pesquisa documental absorveu muito de
seu tempo e você se perdeu, esquecendo-se de seu compromisso.
Quando você
chega ao objetivo, avista, à distância, o esperado alvo. Lá está ele, o artista
Juraci Dórea; ele está de pé, de costas para você. A seu lado, está a sua
inseparável companheira, Selma Soares; ela usa um chapéu de abas largas,
proteção contra o sol inclemente. Juraci usa um chapéu de pano, ao estilo
daqueles usados por sindicalistas no início do século XX. Ele parece quieto,
seu estado de ânimo natural, e em silêncio contempla algo.
De onde você
se encontra, ele parece, a seus olhos, uma estátua de um gigante; como se algum
devoto houvesse fincado aquela estátua ali com fins devocionais. Em verdade,
assim, de pé e mudo, visto à distância, ele faz recordar a estátua de um
daqueles Moais, da ilha de Páscoa: um gigante silencioso guarnecendo a
paisagem.
Você se
aproxima em silêncio, temendo romper a harmonia do quadro imagético, romper
aquela atmosfera de sortilégio. A professora Selma Soares o avista antes do que
você esperava, ela o recepciona, com sua voz macia; Juraci, envolto na aura de
seriedade que costumeiramente o cerca, aperta sua mão e agradece por sua
presença. Há mais pessoas ali, funcionários da Uefs; o engenheiro-chefe da obra
que está se findando; uma equipe de jardinagem; a reitora da Uefs; o artista
plástico e professor George Lima; Roberval Pereyr, o Vate das Umburanas; e dois
ou três repórteres.
Todos estão ali,
inclusive você, porque Juraci está erguendo diante do novo auditório-teatro uma
escultura. Enquanto os demais observam a escultura tomar forma, você compreende
que, ali, se manifesta algo mais duradouro do que a obra em si: um modo de
estar no mundo. Uma postura que dispensa anúncios e explicações, e que só se
torna visível a quem se aproxima com tempo, atenção e silêncio.
Como um
espião infiltrado em uma área na qual se realizam testes secretos de uma nova
arma, você se afasta da multidão e sem sequer acenar para os presentes, você se
retira para longe, como uma sombra. Furtivamente, você se instala a cerca de
100 metros de distância, sob o abrigo de uma árvore de tronco fino e folhagem
rala. Dali, já de todo esquecido pelo grupo, você observa e cataloga.
Juraci se
movimenta discretamente. Apesar de seus 81 anos de idade, ele mantém a agilidade
e força de ânimo. Como um sacerdote provindo de eras arcaicas, Juraci se
prepara para oficiar um culto, cuja real ancestralidade até mesmo ele parece
desconhecer. Ele distribui ordens e indica posições onde devem ser colocadas as
estacas de madeira de sua escultura.
De longe,
você vê o corpo magro do artista se deslocar de um ponto a outro, enquanto
alguns membros do círculo de pessoas ao redor produzem e captam imagens com
câmeras. O que ele está erguendo, ali, é uma espécie de desdobramento de um
projeto mais amplo e que foi por ele criado no início da década de 1980: o Projeto
Terra, uma premiada intervenção artística que consistiu em expor esculturas
no meio da caatinga: a arte sem público; ou um ritual mágico evocatório, cujo
real significado não foi compreendido.
A óbvia
referência telúrica presente no título de seu projeto artístico remete a
conceituações religiosas de fundamentação pré-histórica: “arrasta-te para tua
Mãe Terra e possa ela livrar-te do Nada”, diz um dos versos do Rig Veda
indiano. A Matter Tellus parece ser um componente fundamental dessa
conceituação estética. O universo artístico de Juraci é fundamentalmente
sertanejo, fincado sobre o solo do sertão e animado por um conceito de
religiosidade arcaica. Essa escultura que ele está erguendo parece uma Stonehenge de paus e couros de boi.
A certa altura, você se afasta
ainda mais. Não há nada a acrescentar. Juraci continua ali, trabalhando em
silêncio, como se o mundo ao redor fosse apenas paisagem. Você observa por
alguns instantes e depois se retira. O que precisava ser visto já foi visto.
Você recolhe seus instrumentos de observação e, cabisbaixo, caminha para longe
dali. Seu modus operandi de espião o permite se retirar discretamente,
quase sem ser notado. Sua atividade de observação preliminar está finda.
Aos 81 anos completos em junho
último, Juraci Dórea Falcão é um artista consagrado. E não apenas ali naquele
ambiente acadêmico no qual ele exerceu a atividade de docência durante anos. A
consagração é nacional. E prova disso está no texto ensaístico longo que o
Jornal Folha de São Paulo a ele dedicou, por volta do primeiro semestre de
2025. O nome de Juraci é pronunciado com reverência nos meios onde circulam
aqueles que produzem e apreciam as elevadas formas das artes plásticas modernas
no Brasil.
Apesar disso, ele continua a ser
aquele mesmo homem alto, magro e de ar sisudo que você conheceu há exatos 31 anos.
Certamente, ele não se recorda disso. O ano era 1994 e você era um estudante de
ensino médio, um adolescente membro do corpo discente do Colégio Assis
Chateaubriand, em Feira de Santana. Por intermédio de Roberval Pereyr, você
convidou o artista para realizar uma palestra para seus colegas adolescentes.
E, ali, foi a primeira vez que
você viu de perto o artista que era, já naqueles dias, um nome consagrado. Você
se recorda dos braços ossudos e das mãos finas dele segurando uma obra sobre
pintores modernos. Ele nos mostrava as gravuras e dissertava sobre elas. Você
se recorda dele saindo da sala, sério, olhos baixos; ele apertou sua mão
molemente e agradeceu de forma um tanto mecânica pelo convite e partiu.
Ele usava uma camisa branca,
folgada e limpa, uma calça tênis surrada, mas também limpa. Seus cabelos eram
escuros, olhos pretos e que pareciam imóveis. E, ao redor dele, como uma
espécie de armadura invisível ao olhar profano, você viu uma dura crosta de
silêncio. E você não pode deixar de pensar: “pela honra do general Ludendorff!
Este homem é rigoroso, sisudo e deve ser um homem obcecado pela beleza; ele é um
igual, ele é um irmão”.